Donos de animais reclamam do alto preço do tratamento contra a leishmaniose

Custo do remédio pode ultrapassar R$ 1 mil, acima da realidade da média das famílias brasileiras

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 08/09/2017 06:00 / atualizado em 08/09/2017 19:21

Carlos Vieira/CB/D.A Press
 
 
“Seu cão tem leishmaniose.” A frase equivalia a uma sentença de morte ao amigo de tantos anos. Sem tratamento e com o altíssimo risco de transmissão da doença ao homem, donos de animais não tinham outra opção a não ser sacrificar o bicho. Há um ano, porém, proprietários e médicos veterinários se deparam com um novo dilema. No fim de 2016, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento autorizou a comercialização do Milteforan, primeiro medicamento vendido no Brasil para o tratamento da leishmaniose em cachorros. No entanto, o custo do remédio pode ultrapassar  R$ 1 mil, acima da realidade da média das famílias brasileiras. Até que ponto vale pagar um tratamento caro?
 

Mesmo sem poder arcar com o custo do tratamento, o autônomo Ivaldo Aguiar, 60 anos, escolheria tentar, até o fim, salvar a dachshund Nala. A cadela morreu na metade do ano passado, vítima da doença transmitida pelo mosquito-palha. Apesar de ter vacinado os quatro filhotes deixados por uma amiga de longa data, Ivaldo teme uma improvável infecção de Tom, Raia, Kiara e Tói. “Não consigo imaginar minha vida sem eles. Foi muito difícil quando a Nala partiu”, lamenta.

Acompanhamento

Os quatro cãezinhos de um ano e meio de idade vivem com a ex-esposa e o filho de Ivaldo no Jardim Botânico. A região administrativa, de acordo com a Diretoria de Vigilância Ambiental (Dival), está entre as áreas de maior risco de contrair a leishmaniose por causa da vegetação. “Se for preciso, moro longe, mas eles não saem de perto de mim”, promete o autônomo.

Além do alto custo do Milteforan, o cão infectado deve ser tratado por 28 dias e manter acompanhamento veterinário pelo resto da vida. Procurada pelo Correio, a Virbac afirmou que o remédio será importado da Europa, continente onde a leishmaniose dificilmente atinge seres humanos.  A importação, segundo a empresa, ajuda a encarecer o tratamento.

No entanto, manter vivo um animal portador do protozoário causador da doença pode gerar sérios problemas de saúde pública. O médico responsável pelo Centro de Controle de Zoonoses, Laurício Monteiro, alerta sobre o risco para seres humanos. “A leishmaniose mata 94% dos casos não tratados. É muito mais do que a dengue”, avisa. A virose transmitida pelo Aedes aegypti mata em torno de 20% dos doentes sem tratamento, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Por isso, de acordo com Monteiro, órgãos de vigilância tendem a adotar posturas mais conservadoras sobre o tratamento em cães. A Portaria Interministerial 1.425/2008 proíbe o uso em animais de medicamentos para combate à leishmaniose humana em animais. “Tratar o cachorro com remédio para seres humanos potencializa o risco de os parasitas desenvolverem maior resistência. Um perigo para a saúde pública”, explica o veterinário.


Transmissão silenciosa

É difícil de se conseguir dados atualizados da leishmaniose em cães e em seres humanos. Além da diferença entre casos notificados e casos confirmados, a letalidade em animais atrapalha o setor público no momento de quantificar o estrago que o protozoário Leishmania faz para a saúde do Distrito Federal.

O informativo epidemiológico da Secretaria de Estado de Saúde mais recente indica que, dos 39 casos confirmados da leishmaniose visceral em humanos, apenas três pessoas foram infectadadas dentro do DF em 2015. Laurício Monteiro, do Centro de Controle de Zoonoses, diz que houve duas ocorrências em 2016 e apenas uma até agosto de 2017.

]Apesar da queda consecutiva no contágio de humanos, a médica veterinária Verônica Foltynek teme piora no total de casos registrados em 2017. “Neste ano, atendi mais cães infectados do que o habitual. A situação se complica ainda mais porque existem aqueles animais infectados sem apresentar sintomas”, teme. Como o ano ainda não acabou, apenas em 2018 a Secretaria de Estado de Saúde terá os dados consolidados da doença no DF.

Algumas regiões administrativas têm mais prevalência do mosquito-palha do que outras. Por causa do preconceito, há quem pense que a leishmaniose atinge apenas áreas com saneamento mais precário. No entanto, a Dival aponta risco elevado em bairros nobres como os lagos Sul e Norte. Segundo Verônica, locais próximos a córregos e matas do cerrado têm mais riscos. “O mosquito existe onde há matéria orgânica. É a condição de sobrevivência dele”, explica.
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.