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Estado de Minas

Estudantes do IFB restauram móveis do primeiro hotel de Brasília

Alunos do IFB resgatam a memória da capital restaurando móveis que pertenceram ao Brasília Palace Hotel


postado em 13/09/2017 06:00 / atualizado em 12/09/2017 23:31

O projeto é uma junção de esforços do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional com o Instituto Federal de Brasília(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
O projeto é uma junção de esforços do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional com o Instituto Federal de Brasília (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)


Em 5 de agosto de 1978, uma tragédia acometia Brasília: um incêndio provocado por uma cafeteira ligada há muito tempo levou à fuga dos hóspedes do primeiro hotel da capital federal: o Brasília Palace. O vento espalhava rapidamente as chamas, consumindo vários quartos do estabelecimento. E, apesar de todos terem saído em segurança, a direção do Palace calculou um prejuízo por volta de 30 milhões de cruzeiros, o equivalente hoje a aproximadamente R$ 10 milhões.

Aberto em 1958, dois anos antes da inauguração da cidade, o Brasília Palace teve por muitos anos a alcunha de único hotel da capital federal. Foi a segunda obra a ser entregue na cidade concebida no governo de Juscelino Kubitschek, somente depois do Palácio da Alvorada. Segundo Maurício Goulart, arquiteto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o hotel recebeu engenheiros e arquitetos que vieram contribuir para a obra, além de hospedar importantes figuras políticas em visitas oficiais à recém-nascida Brasília. Portanto, o prédio contava com tudo do bom e do melhor, sendo que o mobiliário foi planejado por arquitetos especialmente para os ambientes do edifício.

Agora, 39 anos depois do incêndio, os móveis são restaurados pelas mãos dos alunos da turma de oficina de restauro de mobiliário modernista, curso ministrado no Instituto Federal de Brasília (IFB). Segundo Fred Hudson, professor da turma, como os móveis são da época da inauguração do hotel, acumulam quase 60 anos, e estavam desgastados pelo tempo. “Existe uma história por trás desses móveis e nosso objetivo é não deixar que ela se perca”, acrescenta.

Quatro peças, antes guardadas na reserva técnica do Museu Vivo da História Candanga, foram restauradas: uma cama, uma poltrona, uma penteadeira e um criado-mudo, todos de madeira e em uso até o incêndio. “Não dá para precisar quais figuras usaram esses móveis, mas pelo tipo de pessoas que frequentava o local, podemos ter alguma ideia”, conta Maurício. Como exemplo, é possível citar que o hotel serviu como embaixada dos Estados Unidos por mais de 10 meses, de maio de 1960 até março de 1961.

Segundo Maurício, todo o mobiliário que sobreviveu foi retirado do prédio após o incêndio. Até que o mobiliário fosse entregue ao Museu Vivo da História Candanga, em 1990, as peças passaram bons anos guardadas, possivelmente em algum depósito da Novacap. “Os móveis foram retirados logo após o incêndio. Então, até o momento em que chegaram ao museu, sabemos muito pouco sobre o paradeiro deles”, explica.

O restauro dos móveis não é trabalho fácil, conta Fred. Para se determinar a técnica a ser utilizada e como o reparo deve ser feito, é realizado um estudo bastante aprofundado. “Pesquisamos em livros da época por descrições da técnica utilizada para confecção do móvel, procuramos informações com historiadores e estudamos o material”, relata o professor. Ele acrescenta que, algumas vezes, os móveis eram feitos de madeira proveniente de árvores que hoje têm a exploração proibida. O curso precisou conseguir permissão especial para utilizar o material na reforma.

“Também fazemos um trabalho de perícia para averiguar a autoria de cada peça e um trabalho de orientação de como a limpeza pode ser realizada sem danificar o objeto”, explica o professor. Segundo ele, dos quatro objetos expostos, somente um teve a autoria desvendada. “Descobrimos que a poltrona foi feita por Michel Arnoult”, aponta Fred. Arnout é um arquiteto francês que veio ao Brasil para escapar da 2ª Guerra Mundial. É conhecido por unir a praticidade, beleza e sustentabilidade em móveis acessíveis para a população.
O professor conta que, em suas primeiras turmas, a oficina atuava com o mobiliário de propriedade privada, mas, atualmente, só trabalha com móveis de órgãos públicos. “Nós unimos o interesse do Iphan de resgatar e preservar a história e o interesse do IFB em capacitar e prover profissionais para o mercado”, explica Fred. Segundo ele, o curso já restaurou móveis do Itamaraty, do Palácio da Alvorada e do Museu Vivo da História Candanga.

“É muito interessante resgatar a história por trás desses móveis”. Quem afirma é Rita Lima, 42 anos, aluna da turma do professor Fred. Ela, que já era técnica em design de móveis, decidiu fazer o curso como uma extensão de sua formação. “Recuperar móveis é preservar o ambiente duas vezes, pois evita o gasto de materiais com novos itens ao mesmo tempo em que também trabalha na redução da poluição que poderia ser gerada com o descarte”, explica a aluna.

Os móveis do Brasília Palace, recuperados pelos alunos do IFB, serão expostos no Museu Nacional a partir da quinta-feira. Até o dia 22 de outubro, os visitantes poderão ver uma reprodução do ambiente de um dos quartos do hotel, com o cenário também construído pelos alunos da instituição. Os cursos do IFB abrem vagas periodicamente e as inscrições podem ser feitas pelo site www.ifb.edu.br.

(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)


Os móveis restaurados sobreviveram ao incêndio que fechou o Brasília Palace por 48 anos(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Os móveis restaurados sobreviveram ao incêndio que fechou o Brasília Palace por 48 anos (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)



Serviço

Local: Museu da República (Setor Cultural Sul, lote 2, próximo à Rodoviária do Plano Piloto)

Horário de visitação: terça-feira a domingo, 
das 9h às 18h30, até 22 de outubro.

Entrada: gratuita

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