Média de mortes de motociclistas chega a seis por mês no primeiro semestre

Se não morrem, as vítimas sofrem com as sequelas, muitas vezes, permanentes

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postado em 14/09/2017 06:00

Minervino Junior/CB/D.A Press
 
“Lembro-me de segurar a cabeça dele enquanto ele me olhava e falava: ‘Tchau, mãe’. Saía muito sangue da boca dele, ele achava que ia morrer ali. Eu nunca vou esquecer essa cena.” Essa é a pior lembrança da dona de casa e costureira Iraci Dias, 47 anos. O filho, o açougueiro José Maurício Barbosa, 23, foi atingido por uma caminhonete enquanto andava de moto, em 9 de julho, na Fercal. O condutor do carro estava embriagado e não prestou socorro. O jovem motociclista recebeu atendimento no Hospital de Base do DF e recebeu alta. Somente ontem, três ficaram feridos nas vias do DF.
 
 
José é uma das dezenas de vítimas dos acidentes motociclísticos no DF. Segundo o Departamento de Trânsito (Detran), as ocorrências sobre duas rodas representam um terço das colisões registradas na capital do país. Em 2016, houve 98 mortes. Até junho deste ano, são 36 condutores mortos — a média é de seis óbitos por mês. O diretor-geral do Detran, Silvain Fonseca, relata que, apesar de as fatalidades terem sido reduzidas em cerca de 40% no período, motociclistas estão à frente de ciclistas e pedestres no total de mortes. “Temos reforçado as fiscalizações, mas estamos preocupados com a situação. A cada 10 motociclistas parados, quatro não têm habilitação”, alerta.

O estudante Hugo Pereira, 21 anos, anda de moto há um ano e sofreu três acidentes. Mesmo assim, não pretende parar de usá-la como meio de transporte. Para o jovem, a legislação do trânsito não favorece os motociclistas. “Quando se altera uma característica da moto, seja um farol mais forte, seja um escapamento mais barulhento, que são itens que melhorariam nossa visibilidade para outros motoristas, os órgãos fiscalizadores rapidamente apreendem o veículo ou os motociclistas”, argumenta. Hugo alega, ainda, que falta conscientização por parte dos condutores em geral, principalmente devido ao uso do celular, que tirou a vida de um motociclista conhecido dele.

A costureira Iraci Dias, mãe de José Maurício, critica a falta de fiscalização. “O meu filho foi atropelado por um bêbado que não foi pego. Essa é a minha frustração, pois o responsável saiu ileso e impune”, emociona-se. Ela conta que o filho guia moto desde os 14 anos. E usava o veículo como meio de transporte, pois o custo era menor. Apesar do acidente, o jovem pretende continuar a usar a motocicleta, mas Dona Iraci está decidida: “A moto não vai sair do lugar em que está”.

Educação
Fernando Costa, 55 anos, motociclista desde os 18, também ficou internado no Hospital de Base do DF, por mais de um mês, devido a um acidente. Em 1º de julho, um sábado ensolarado, Fernando saiu para lavar a moto, pois, no fim de semana anterior, tinha viajado com ela para Pirenópolis. “Despedi-me da minha mulher e da minha filha e saí de casa. Depois, só me lembro de acordar no hospital, com as pessoas me contando o que aconteceu. Eu nunca imaginei que isso poderia acontecer, sempre fui prudente”, relata. O servidor quase perdeu a perna esquerda no acidente. Encontra-se internado no Hospital Regional da Asa Norte (Hran) à espera de um enxerto na pele.

A mulher de Fernando, a advogada Vanessa Ribeiro, 44, estava em casa, cuidando da filha do casal, de 3 anos, quando recebeu a notícia do acidente. “Desde aquele dia, a minha vida mudou, eu venho para o hospital todos os dias. Falei para a nossa filha que o papai machucou o ‘joelhinho’ e teria de ficar no hospital um tempo. Estava segurando as pontas no hospital e em casa, e ela perguntava todos os dias cadê o pai”, conta Vanessa. Segundo a perícia, Fernando foi fechado por um carro e bateu no meio-fio, caindo cerca de 20 metros. Depois do choque inicial do acidente, ele tomou a decisão de não andar mais de moto. “Não quero que ninguém mais da minha família passe por isso. Vou tentar vender a moto, porque essa situação não vai sair barata”, afirma. Para arcar com a recuperação, amigos e familiares realizam campanha on-line a fim de ajudar a arrecadar dinheiro para o tratamento (veja Ajude).

Em seis anos sobre duas rodas, o operador de áudio Pedro Di-Tano, 25, se envolveu em três acidentes. Segundo ele, o maior erro dos motociclistas é o excesso de confiança. “Muitos acham que nada vai acontecer, pois dirigem bem. No caso dos motoristas, falta paciência. Eu acredito que quem usa carro deveria andar de moto para entender o nosso dia a dia”, diz. O jovem critica, também, a estrutura de ensino para motociclistas.

Em contrapartida, o diretor-geral do Detran, Silvain Fonseca, afirma que o governo investe na educação e formação dos futuros motociclistas. “Além disso, temos estudado e mapeado as áreas onde mais ocorrem acidentes a fim de encontrar uma solução. Também temos investido em equipamentos de multas. Existem campanhas educativas, fiscalização. Não existe um dia em que o Detran não faça uma ação voltada para a motocicleta”, garante.

Riscos
Liberdade. Essa é a sensação que o funcionário público David Bastos, 57, sente quando anda de moto. Motociclista desde os 16 anos, ele ficou longe das duas rodas por cinco meses no ano passado. Em maio de 2016, por volta das 23h30, em uma área mal iluminada do Guará, David não percebeu o meio-fio e sofreu um acidente. Fraturou a bacia, quebrou os dois joelhos, teve fratura exposta e esmagamento no pé e no calcanhar. Depois de 40 dias internado, veio a notícia: precisaria amputar o pé esquerdo.

Depois do acidente, a família não queria que ele voltasse a andar de moto, mas David estava decidido. Ele recebeu a reportagem na barraca do seu clube, Missionários, na Capital Moto Week. Mostrando a prótese, ele sorri quando fala da paixão. “Quando andei de moto depois do acidente, foi uma emoção inexplicável. Eu gritava como um adolescente. Sei que há  riscos; por isso, pretendo comprar um triciclo, me dará mais estabilidade. A minha família está começando a ceder agora, porque eles sabem que é isso o que me dá prazer”, conta.


Sob risco

 Motociclistas 2016 2017
Mortos* 36 47
Feridos* 930 836

* De janeiro a junho
** De janeiro a março


Ajude

Saiba como ajudar o Fernando 

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/recuperacao-nando-fb1dde04-34b3-4add-a982-b8713e53d4db.


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Olavo
Olavo - 14 de Setembro às 12:50
Meus sentimentos a todos aqueles que perderam as vidas nas motocicletas. Porém, gostaria de frisar que os principais culpados por estes acidentes no Brasil, vem de encontro ao abuso sem disparidade dos próprios motociclitas. Para ser sincero, nunca presenciei nas pistas um motociclista disciplinado e respeitador. Todos, mas todos eles trafegam nas pistas brasileiras achando que as rodovias, pistas, ruas e ruelas pertecem a eles. Todos mau educados. O condutor de autmóveis corre o maior risco se por acaso ultrapassar um ciclista. A melhor ideia seria banir os motociclitas de trafegarem nas mesmas pistas dos automóveis, coisa que jamais acontecerá no Brasil.
 
Daniel
Daniel - 14 de Setembro às 11:48
Esse Detran é um palhacinho! diz que investe todos os dias... Mas até hj pra se tirar habilitaçao de moto vc não troca a marcha e nao pilota no transito. Simples assim esses indices de acidentes
 
Helio
Helio - 14 de Setembro às 10:35
Acho que os órgãos de segurança de trânsito, tem que encontrar uma forma de reduzir esses acidentes de motos, que diariamente levam jovens para os hospitais e pra morte, fazer isso com seriedade, procurando informações até de outros países, que também usam este meio de transportes como no Brasil e que a taxa acidentes foram reduzidas. O problema está ficando cada vez mais sério, parece que não existe um habitante em Brasília, que não tenha perdido um parente ou amigo por acidente de moto.