Destaque no Festival de Brasília, Cauã Raymond causa frisson na cidade

Ator passou pela cidade para divulgar o longa 'Não devore meu coração', trabalho que mostra a versatilidade na carreira

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postado em 17/09/2017 08:00

Ed Alves/CB/D.A Press
 
Cauã Reymond causa um certo frisson por onde passa. É difícil arrancar o ator das fãs que costumam rodeá-lo. Sempre muito simpático, Cauã para, conversa, tira foto, distribui sorrisos e é, invariavelmente, reconhecido. Parou o trânsito ontem enquanto a reportagem o fotografava no Eixo Monumental e posou para fotos com quem passava. É uma personalidade bem diferente da de Fernando, o agroboy do longa Não devore meu coração, exibido na noite de abertura do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e vivido por Cauã com uma certa dose de fragilidade. Explosivo, o personagem do longa de Felipe Bragança é membro de uma gangue de motoqueiros e carrega um lado obscuro.

Passado na fronteira do Brasil com o Paraguai, o filme revisita a memória brasileira ao colocar em cena a rivalidade histórica entre os índios guaranis paraguaios e os brasileiros. É do genocídio ocorrido na região durante a Guerra do Paraguai que Bragança quer falar, um drama que nunca terminou e se perpetua até hoje nas relações como a estabelecida por Fernando com os rivais da gangue paraguaia. A característica do personagem que mais tocou Cauã quando leu o roteiro é a de querer ser amado. O ator embarcou no papel como uma espécie de referência para o elenco do filme, que não tinha, até então, experiência em atuação.
 
Ed Alves/CB/D.A Press
 
Com exceção de Cauã e Claudia Assunção, todos os atores foram escolhidos entre os habitantes da região da fronteira onde o longa foi filmado. Foi a segunda vez que o ator carioca contracenou com um adolescente, o menino Eduardo Macedo, que vive o irmão de Fernando. A aproximação com o garoto, ele conta, foi feita com muita conversa para deixá-lo à vontade. “Acho que o fato de eu ser conhecido já me colocou nesse lugar de causar uma curiosidade da parte dele, que esse irmão mais novo tem sobre esse irmão mais velho”, explica. Em À deriva, longa de Heitor Dhalia, Cauã também contracenou com uma adolescente, Laura Neiva, mas numa situação muito mais delicada: era ele quem tirava a virgindade da personagem. 
 

Diversificar, sempre

De Malhação a Não devore meu coração, são 15 anos de uma carreira que passa, principalmente, pela televisão. Cauã Reymond se tornou o rostinho bonito que conquistou a plateia feminina com mais de sete novelas e cinco minisséries. Mas o cinema independente sempre atraiu o ator, que, de uns anos para cá, decidiu correr atrás de papéis que trouxessem desafios diferentes daqueles enfrentados na televisão. “No começo da carreira, os personagens que eu recebia na tevê eram bons, mas me limitavam, e o cinema autoral me proporcionava experiências diferentes. Não sei se a palavra adequada é limitar, mas me colocavam num lugar e, no cinema autoral, os personagens me colocavam em outros lugares que às vezes não pertencem mesmo à dramaturgia de novela. Sem um ser melhor que o outro”, explica. Por isso ele embarcou em projetos como Não devore meu coração, À deriva, Se nada mais der certo e Alemão (José Eduardo Belmonte). Este ano, ele terminou de filmar Piedade, de Claudio Assis. “Sempre quis trabalhar com o Claudão”, garante.

Na televisão, Cauã identifica alguns marcos para a carreira de ator e o mais recente deles é a atuação em Dois irmãos, adaptação de romance de Milton Hatoum no qual vive gêmeos. Quando terminou as filmagens, estava tão exausto que hesitou em aceitar o papel em Não devore meu coração, mas acabou convencido por Cacá Diegues, produtor do filme, e Bragança. Diversificar os papéis é uma preocupação que o ator carrega sempre. Do tipo explosivo de O caçador ao marido contido de Justiça ou ao cafajeste de Amores roubados, não repetir é algo que ajuda a desenvolver a carreira. “Tento ser cuidadoso com isso”, diz.

 
Da faxina às telas

Ser ator, aliás, aconteceu por acaso na vida do carioca. Antes, o ex-surfista e ex-lutador de jiu-jítsu atuou como modelo e morou em Paris e Milão. Aos 20 anos, no entanto, decidiu que não queria mais as passarelas e resolveu passar um tempo em Nova York. Fez uma aula de teatro, a professora gostou e o convidou para voltar. Mas Cauã não tinha dinheiro para as aulas nem para ficar na cidade. A professora sugeriu então que ele trabalhasse na escola para pagar o curso.

Filho de um psicólogo e uma astróloga que previra a carreira no palco, Cauã foi varrer salas e lavar banheiros para estudar teatro. “Como não tinha dinheiro pra pagar um prato de comida, comia sempre uma banana, uma maçã e uma barra de proteína”, lembra. “Foi dureza. Não falava tão bem inglês, tinha trancado a faculdade de psicologia na PUC e nunca minha família me ajudou. Eu estava lá com minha grana. Em dois anos me construí um indivíduo muito diferente, foi um amadurecimento.”
 
O volume de trabalho na tevê e no cinema roubou um pouco do tempo do ator para o teatro. Ele fez apenas duas peças, e a primeira delas estreou em Brasília. Em alto mar, dirigida pelos irmãos Adriano e Fernando Guimarães, fez Cauã passar 2,5 meses na capital. Foi poucas vezes ao Rio de Janeiro, onde mora, porque a verba para a peça, que ficou em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), não permitia.
 
Uma vez aqui, resolveu montar um circuito esporte-saúde. “Nunca fui muito de festa. Na época busquei um roteiro mais alternativo. Me falaram que o pessoal em Brasília era muito libertino, mas acabei não entrando nesse circuito não. Entrei no circuito da saúde, da acupuntura, da alimentação vegana, fui fazer aula de alongamento. São coisas que me interessam, que gosto”, conta o ator, que costumava almoçar e jantar no restaurante Oca da Tribo, destruído por um incêndio em 2011. “Brasília é tão diferente! A coisa que me espantou é que os carros param na faixa, fiquei admirado com a educação das pessoas. Isso eu só vi fora do Brasil.”
 

Duas perguntas para // Cauã Reymond

Quando aceita viver um personagem, você precisa se sentir desafiado pelo papel?
Preciso. Cada vez mais. Por isso considero Dois irmãos um marco. Pelo fato de fazer gêmeos, é um desafio para todos os atores. Quando estreou, o Matheus Solano, que tinha feito muito bem (a novela do Manoel Carlos), me mandou uma mensagem e me deu uma felicidade um colega que executou tão bem dois personagens me mandar aquela mensagem, me deu uma sensação de reconhecimento. Não para o público, mas para meus colegas de trabalho. Assumi e me entreguei 100% e por isso estava realmente exausto quando fui filmar Não devore meu coração.
 
Você coproduziu Reza a Lenda, Não devore meu coração e outros. Está difícil fazer filmes no Brasil?
Está difícil porque, com a economia do jeito que está, as empresas privadas, por mais que tenham dinheiro e a empresa vá bem no mercado, todo mundo está querendo entender como vai ser a eleição, o que vai acontecer. É difícil levantar esse filme médio, que não é de R$ 2 milhões. A gente faz por amor. Claro que a gente recebe, mas se colocar na ponta do lápis… E gosto de ser participativo. Não tenho a vaidade de ter minha opinião sendo aceita ou de ter uma opinião final, mas tenho o prazer de poder sugerir e fico muito feliz quando as pessoas acatam algo que falo. Isso me leva para um lugar de olhar menos para meu umbigo e a prestar mais atenção em toda a engrenagem de um set, na produção, no trabalho de cada colega. Acho que isso me ajudou a amadurecer como ator, a me tirar dos dramas do ser ou não ser do ator. Comecei a ver o cinema de um jeito mais rico e maduro. E é um bom sentimento.
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