Sucessão de erros de engenheira civil causaram duas mortes

Engenheira responsável pela obra que desabou em Vicente Pires também assinou montagem da tenda do Circo Khronos, que desmoronou em março, matando um jovem

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postado em 25/10/2017 06:00 / atualizado em 25/10/2017 01:46

Carlos Vieira/CB/D.A Press


A engenheira civil que assinou o projeto da obra do prédio que desabou em  Vicente Pires responde a um processo ético no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Distrito Federal (Crea-DF). Daliane Cardoso Mendonça foi multada em R$ 646,39 por não ter concluído o cadastro da Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) da montagem da tenda do Circo Khronos, em março deste ano. A estrutura desabou e também matou um jovem de 17 anos. A ART define quem são os responsáveis técnicos pela construção. Já a obra do edifício na Colônia Agrícola Samambaia, em Vicente Pires, era ilegal e havia sido autuada cinco vezes pela Agência de Fiscalização do DF (Agefis).


Daliane havia feito a ART da obra em Vicente Pires em 23 de agosto de 2016, mas o presidente do Crea-DF, Flávio Correia de Sousa, acredita que não houve acompanhamento da execução do projeto. Engenheira desde 1995, a profissional tem diversas obras e laudos na ficha cadastrada no conselho, mas, agora, enfrentará um segundo processo ético. “O engenheiro é responsável pelo projeto e execução. Por isso, precisa acompanhar o serviço desde o início para saber se foi executado conforme o projetado, porque, se não, coloca em risco operários e estruturas”, alertou Flávio.

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O processo de investigação contra Daliane vai para a Câmara de Engenharia Civil do Crea-DF e, depois, é enviado à Comissão de Ética. Após ouvir testemunhas e a profissional, o caso retorna para ser colocado em votação. As penalidades variam desde aplicação de multa até a perda do registro profissional, se ficar comprovado, por exemplo, negligência. “Pelo menos leva a crer, em primeiro momento, que esse foi o caso (de negligência). Às vezes, o profissional têm atribuição, mas não conhecimento específico para a obra. É necessário uma certa experiência”, ressaltou o presidente do Crea-DF, que é engenheiro civil e especialista em segurança do trabalho.


A empresa responsável pela obra, que também leva o nome da vítima, Agmar Silva, 55 anos, atuava de maneira irregular, segundo o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Distrito Federal (CAU-DF). Ela não tinha registro no Conselho nem no Crea-DF. A firma é Agmar e Lissandra Arquitetura. Segundo o CAU-DF, a profissional cujo nome consta na placa de identificação instalada na obra, Lissandra Latorraca, será notificada da ausência do Registro de Responsabilidade Técnica (RRT).


O Correio ligou três vezes para o número de celular de Lissandra, mas não conseguiu contato. A reportagem também tentou falar no telefone fixo que aparece como sendo de Daliane, mas ninguém atendeu às ligações.
 

Vítima

O homem que morreu no desabamento do prédio tinha uma parceria com Lissandra. Juntos, eles executavam projetos de arquitetura, segundo o filho de Agmar, Bruno Rodrigues Silva, 34 anos. No entanto, ele confirmou que o pai não tinha formação em engenharia nem em arquitetura. “Ele fez até o segundo grau e fazia projetos junto com a Lissandra. Ele era empresário em capacitação de projetos”, explicou.

O corpo da vítima, encontrado 66 horas após as buscas dos bombeiros, foi enterrado na manhã de ontem no Cemitério de Taguatinga. Lissandra acompanhou o funeral. O filho de Agmar contou que a família não sabia do histórico da engenheira. “Só a perícia vai avaliar o que aconteceu. Mas acreditamos em erro de execução do projeto. Os documentos estão aí para comprovar a forma com que (o prédio) foi construído. Se ele tivesse sido executado como projetado, não teria caído”, desabafou.

 

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