Criminosos da Máfia das funerárias falsificavam atestados de óbito

Investigação aponta que a Máfia das funerárias interceptava o sinal do rádio da polícia para explorar mortes no DF. Crimes começaram há um ano

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postado em 26/10/2017 12:23 / atualizado em 26/10/2017 14:36

Ricardo Faria/Esp. CB/D.A Press
Nove pessoas foram presas e três ainda estão foragidas após uma operação da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) contra a máfia das funerárias. Em entrevista coletiva, nesta manhã de quinta-feira (26/10), a investigação detalhou como agiam os criminosos que se beneficiavam com a dor de quem perdeu um ente querido. Além de interceptar o sinal do rádio da polícia para obter dados pessoais das famílias e das vítimas, o grupo ainda oferecia os serviços funerários a preços superfaturados. Na Operação Caronte, foram expedidos 12 mandados de prisão e busca e apreensão. 

 
Segundo o diretor da divisão de assuntos internos da Corregedoria Geral da Polícia Civil, Marcelo Zago, as investigações começaram há cerca de um ano. As quadrilhas atuavam em Samambaia e Taguatinga, e agiam de forma organizada. "Aproveitavam o momento do luto. E as famílias, fragilizadas, aceitavam. São papas defunto mesmo", explicou o diretor. 
 
Um servidor público do Hospital Regional de Taguatinga (HRT), Samuel Aguiar Veleda, foi apontado pela polícia como o responsável por colher dados das pessoas mortas e informar as funerárias. Jocileudo Dias Leite, que era vigilante no mesmo hospital, tinha a missão de cooptar serviços para as funerárias. Em troca, ele ganhava uma porcentagem por cada corpo informado. De acordo com a polícia, ele não é servidor público, mas, por ser lotado em um hospital da rede pública, será autuado como tal, por corrupção passiva.
 
 

Atestados falsos assinados por médico

Os atestados de óbitos falsos eram emitidos pelo médico Agamenon Martins Borges, ex-servidor do Instituto de Medicina Legal do DF nos anos 1990 e dono de uma funerária em Formosa (GO). Ele é um dos presos na ação de hoje. O profissional tinha o auxílio do sobrinho, Conrado Augusto de Farias Borges, que também fazia o papel de falso médico, emitindo atestados de óbito. A polícia suspeita do envolvimento de funcionários de pelo menos três funerárias de Taguatinga e Samambaia. As autoridades informaram que o médico emitia o atestado pelas empresas, que são “rivais”. Segundo o diretor da corregedoria, o ele não mantinha fidelidade com as quadrilhas e cobrava até R$ 500 pelo documento, que é gratuito se feito pelo Governo do Distrito Federal (GDF). "Ele fazia o serviço para uma e também para as demais. Não mantinha uma fidelidade", informou.  
 
Foram presos ainda Samuel Barbosa Maciel, Samuel Barbosa Maciel Filho, Augusto César Ribeiro Dantas, Waltercícero dos Santos e Alex Bezerra do Nascimento. Com o bando, foram apreendidos armas, dinheiro, R$ 15 mil reais e documentos. Segundo a Polícia Civil, centenas de pessoas foram vítimas do golpe e devem buscar a delegacia mais próxima. "Eles cobravam entre R$ 1,600 a 6,000, dependendo da condições da família", afirmou. Todos os suspeitos irão responder por associação criminosa, estelionato, crime contra o consumidor e falsidade ideológica. Já o vigilante do HRT, apesar de terceirizado, ainda responderá por corrupção passiva cometida por agente público.

O promotor do Ministério Público do Distrito Federal e dos Territórios (MPDFT) Mauricio Miranda, explicou que o Estado tem a obrigação de averiguar o óbito, entretanto, o bando agia para obter vantagem financeira. "Se o cidadão falece no hospital, cabe à instituição declarar a morte, ou encaminhar o caso para o sistema de patologia, que declara a morte. Isso não se aplica em caso de morte em casa ou na rua. O que não pode, e é antiético, é um médico declarar uma morte sem ter contato com a família. É um crime", disse. 

A Operação Caronte foi realizada por promotores do Núcleo de Controle Externo da Atividade Policial (NCAP), da 4ª Promotoria de Defesa da Saúde (Prosus) e da Promotoria de Justiça Criminal de Defesa dis Usuários de Saúde (Provida), em parceria com a Corregedoria-geral da Polícia Civil do DF. As prisões ocorreram em Vicente Pires, lagos Sul e Norte e Taguatinga. O nome Caronte é uma referência ao barqueiro, da mitologia grega, que carrega as almas das pessoas que acabaram de morrer pelas águas que dividem o mundo dos vivos do dos mortos.

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Helder
Helder - 27 de Outubro às 08:38
Tenho 21 anos como servidor da área de necropsia do IML-DF e posso afirmar, com conhecimento de causa, que todos esses transtornos são ocasionados pela falta de implantação definitiva do SVO no Distrito Federal. Enquanto houver essa lacuna, familiares e a administração pública estarão sujeitos aos efeitos deletérios desses grupos criminosos. A situação é tão grave e poucos compreendem o impacto na sociedade... O SVO não serve apenas para a confecção da declaração de óbito, mas, principalmente, para produzir dados estatísticos das causas de morte e, consequentemente, atua de forma importantíssima nas políticas de saúde pública do DF. Esses dados são perdidos e assim gasta-se os recursos públicos, já escassos, em programas que talvez não atendam a real necessidade da população. LASTIMÁVEL!