Zoológico de Brasília completa 60 anos; relembre fatos marcantes

Ao completar 60 anos, Jardim Zoológico de Brasília também comemora a mudança na sua finalidade, que passou de apenas um local de entretenimento para uma instituição com postura conservacionista e científica

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 05/12/2017 06:00 / atualizado em 05/12/2017 07:30

Carlos Vieira/CB/D.A Press


A Fundação Jardim Zoológico de Brasília completa 60 anos nesta quarta-feira. Se há muito o que comemorar, há também muito o que ensinar. Mais velho que a própria capital federal, o zoo abriu as portas em 6 de dezembro de 1957 como um centro de entretenimento para a recente população de brasilienses — formada, principalmente, por operários. Termos como “coleção de animais”, hoje malvistos, eram comuns. Existia até uma equipe de captura de bichos do cerrado.

A finalidade do estabelecimento, porém, mudou com o tempo e atinge a maturidade com uma postura conservacionista e científica, bem diferente da época de sua criação. Com parcerias e projetos envolvendo outros zoológicos do Brasil, da América Latina, dos Estados Unidos e de países europeus, a instituição brasiliense se torna, cada vez mais, uma referência na readaptação dos animais para que voltem à natureza.

Os bichos que não tem mais possibilidade de retorno, principalmente pela convivência com o homem, são objeto de pesquisa, orientando o trabalho com espécimes livres. E eles também colaboram com a procriação, aumentando a diversidade genética. Os filhotes são enviados a outros zoológicos ou preparados para a liberdade.

Leia as últimas notícias de Brasília

O diretor-presidente da instituição, Gerson de Oliveira Norberto, comemora a mudança, mas destaca que o trabalho chega em um momento crítico para a vida na Terra. “O Zoológico de Brasília segue uma curva de evolução muito peculiar. Foi pensado como elemento de diversão, o que era pertinente para o que se vivia aqui, mas nos aprimoramos em questões de bem-estar animal. Nosso planeta vive uma situação de impacto humano agressivo e, em breve, teremos de escolher entre espécimes para conservar. É uma missão árdua. Não conseguiremos abraçar todas. A população tem que entender o que está acontecendo. Temos que conscientizar”, afirma.

O futuro 


Assessor de conservação do Zoológico de Brasília, Igor Morais concorda com Norberto. “O principal motivo para comemorar são as transformações que a instituição sofreu com o tempo. Nos tornamos comprometidos com a conservação e a biodiversidade. Estamos envolvidos, neste momento, com 20 programas de conservação, oito deles internacionais. Nos últimos 40 anos, a terra perdeu 58% da vida selvagem. A última vez que isso aconteceu foi quando os dinossauros morreram”, alerta.

Igor destaca, ainda, que há muito a percorrer. “O desafio é continuar a modernização da estrutura dos recintos, focando o bem-estar dos animais, e para que os visitantes tenham a experiência de entrar em seus habitats. Senão, logo viveremos em um mundo totalmente urbanizado, sem lobo-guará, jacaré e outros espécimes. Quando falamos da sobrevivência do animal, falamos também da sobrevivência das matas e, por fim, da espécie humana. Cerca de 81% dos alimentos que comemos são resultado de polinização e dispersão de sementes feita por vida selvagem”, destaca.

O mais antigo


José Arnóbio Rocha Araújo tem 56 anos e começou a trabalhar no zoológico aos 18, em 1980. Motorista e tratador, ele é testemunha ocular das transformações pelas quais a instituição passou, e guarda de memória vários casos ocorridos na instituição. A voz se aviva, principalmente, ao falar da fêmea de elefante asiático Nely. “Vivi muita coisa aqui. A Nely chamava muita atenção. Era um animal dócil, muito carinhoso. Chegávamos com a comida e ela logo vinha pegar da nossa mão. Mas a idade chegou para ela, como chega para todos nós”, recorda. (veja Memória).

Na visão de Arnóbio, o Zoológico faz parte da vida da cidade, mas também, individualmente, na vida de cada brasiliense nascido ou radicado na capital federal. “E mais ainda da minha. Toda a força para cuidar da minha família e educar meus filhos tirei daqui. Hoje, tenho dois filhos formados pela Universidade de Brasília (UnB), e foi com o zoológico que alcancei essas realizações”, felicita.


Ciclo sem fim


O ciclo da vida ajuda a escrever a história do Zoológico de Brasília. É só conversar com um técnico ou um tratador para perceber o carinho e o apego pelo plantel e a tristeza que fica quando um espécime mais idoso dá o último suspiro. Mas, outros bichos chegam. Às vezes, vítimas da expansão urbana, levados pela Polícia Militar Ambiental, ou então, integrando um programa de conservação em parceria com outras instituições. Um novo laço se forma e o zoo segue se transformando.

Entre os mais novos integrantes estão um casal de cachorros-vinagre, resgatados da usina de Belo Monte. “O espécime é um dos cães selvagens menos conhecidos do mundo. Inicialmente, foi descrito como extinto e somente 60 anos depois foi encontrado vivo”, explica o assessor de conservação do Zoo, Igor Morais. Desembarcaram em 17 de agosto. Pouco mais de um mês antes, chegava outro morador: o urso de óculos. “É a única espécie de urso da América do Sul”, completa Igor. Veio por meio de um acordo de cooperação com o governo da Bolívia.

Em 7 de junho último, também por meio de programas de conservação, o zoológico recebeu um casal de gansos havaianos e outro de gansos da tasmânia. O primeiro espécime, ameaçado de extinção, conta com 2 mil indivíduos no mundo hoje, e já botou ao menos três ovos após chegar. Os filhotes serão mandados para San Diego, nos Estados Unidos e os netos voltarão para o Havaí. Os outros dois, mais fortes e agressivos, também são raros. Vivem, normalmente, em água salgada, na Austrália.

O espécime que está há mais tempo no zoológico hoje, a fêmea de hipopótamo Bárbara nasceu no Zoológico de Sorocaba (SP) em 1983. Tem 34 anos, expectativa de vida livre de 50 anos e, em cativeiro, pode passar dos 60. Discreta, passa o dia dentro da água e só sai para se alimentar. Igor explica que o tempo de vida varia de espécime para espécime. Mas a mais idosa entre os mamíferos é a fêmea de babuíno sagrado Capitu.

Com uma história cheia de reviravoltas amorosas, ela nasceu em 29 de julho de 1990. Aos 26 anos, está além da expectativa de vida da espécie em vida livre, que é de 20. Em cativeiro, pode chegar aos 30. A ariranha Si e a zebra Tucha também são veteranas na instituição. A primeira, aos 15, ultrapassou em quatro anos a expectativa de idade em vida livre. A segunda, com 19, pode viver até os 25 em cativeiro.

Serviço

A Fundação Jardim Zoológico de Brasília elaborou uma programação de comemoração dos seus 60 anos de hoje a domingo. No período, o brasiliense poderá pegar o metrô até a Estação Asa Sul e, no local, tomar um ônibus que o deixará dentro da instituição. Estão previstas exposições fotográficas, contação de histórias, teatros e jogos. A programação está no site da instituição.

Histórias do Zoo

Desde o ato de heroísmo do militar que salvou uma criança em 1974 até a surpresa de ver a fêmea de babuíno sagrado Capitu cruzar o lago para trair o marido com outro espécime, o Zoológico de Brasília guarda inúmeros acontecimentos que, juntos, ajudam a contar um pouco da história da instituição.

Heroísmo

O sargento do Exército Sílvio Delmar Holenbach não pensou duas vezes ao saltar para dentro da jaula das ariranhas para salvar o menino Adilson Florêncio da Costa, à época com 13 anos. O incidente aconteceu em 27 de agosto de 1977. Holenbach se preparava para ir embora com a família quando viu o menino cair no recinto. Ele levou mais de 100 mordidas, foi socorrido e ainda passou três dias internado no Hospital das Forças Armadas (HFA), no Cruzeiro. Chegou a conversar com a reportagem do Correio. “Eu não poderia deixar uma criança ser devorada sem fazer nada”, afirmou. Hoje, um busto do sargento recebe os visitantes do Zoológico logo na entrada da instituição.

Traição

Em 1998, uma história digna de Machado de Assis chamou a atenção para o Zoológico de Brasília. A fêmea de babuíno sagrado Capitu abriu mão dos instintos de autopreservação e desafiou a morte. Saltou na água e nadou por cerca de sete metros para encontrar Eliseu em outra ilhota no recinto dos macacos, para desespero do atual companheiro, Otelo, que assistiu a tudo de longe. O caso atraiu até mesmo os cientistas. Quem vê Capitu hoje, marcada pela idade, com pose de matriarca, na parte superior do novo recinto dos babuínos, mãe, avó e bisavó, aos 27 anos, não imagina as peripécias da fêmea, que fez de tudo para ficar com quem amava.

Tragédia

Em 15 de março de 2003, o descuido de um tratador marcou a história do zoo. A Tigresa Laila escapou e matou um funcionário. O animal chegou a deixar a área de manejo e subir para o espaço dos frequentadores. Por sorte, retornou ao recinto ao ouvir o choro de um dos filhotes. Edson Nunes, 29 anos, morreu na hora. Ele alimentava o animal há três anos. Porém, cometeu uma série de erros. Devia ter descido para a área de manejo acompanhado de um colega, mas foi sozinho. Além disso, esqueceu de verificar se uma das grades de acesso estava fechada. Depois que o animal retornou ao recinto, tratadores conseguiram trancá-lo e chamaram os bombeiros. Infelizmente, era tarde demais.

E risos...

A primeira moradora do zoo, a fêmea de elefante-asiático Nely foi a principal atração da instituição por 37 anos. O dócil animal foi presente de um embaixador da Índia ao então presidente da República, Juscelino Kubitscheck. Criada em um circo, Nely tinha afeição por um dos tratadores e, algumas vezes, deixava o recinto com o funcionário e caminhava em meio ao público. A moradora ilustre morreu vítima de artrose, em 1994. O nome científico do espécime é Elephas maximus e seus ossos estão expostos no museu de taxidermia e são o símbolo do Zoológico de Brasília.
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.