Embriaguez e celular ao volante são punidos com mais rigor fora do Brasil

Na França, por exemplo, guiar sob efeito de álcool pode render multa de até R$ 200 mil; no Brasil, a multa para quem insiste falar ao telefone enquanto dirige é de R$ 293,47

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 05/12/2017 06:00 / atualizado em 05/12/2017 07:21

Monique Renne/CB/D.A Press - 10/2/13
 
Algumas das causas de mortes no trânsito do Distrito Federal coincidem com as de outras nações: uso do celular, embriaguez e excesso de velocidade. Mas, ao contrário das normas aplicadas no Brasil, países europeus e vizinhos do continente americano adotam medidas severas ao bolso para coibir os principais acidentes. Nos Estados Unidos, dirigir ao telefone é considerado uma epidemia. Na França, guiar sob efeito de álcool pode render multa de até R$ 200 mil, e o abuso de velocidade em Portugal, dependendo da região, gera punição de € 2,5 mil euros (ou R$ 9,5 mil).

No terceiro dia da série “A Corrida para Salvar Vidas”, o Correio mostra como é realizada a punição das infrações em outros países e de que forma os investimentos são aplicados para reduzir as mortes no trânsito. No Reino Unido, o uso do celular ao volante é combatido com multa alta e ação na Justiça. Desde março, quem dirige com o aparelho na mão em vias britânicas pagar 200 libras (R$ 850). O condutor ainda pode ser julgado se cometer a infração pela segunda vez, além de pagar 1 mil libras (R$ 4,3 mil) e ser proibido de guiar por seis meses.

Leia as últimas notícias de Brasília

Enquanto isso, no Brasil, apesar de a infração ser considerada gravíssima, a multa para quem insiste em teclar ou falar ao telefone no comando de um veículo é de R$ 293,47, com perda de sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Até 2016, a falha era considerada média e previa pagamento de R$ 85,13. Mas, mesmo com o aumento da punição, em um ano, a quantidade de motoristas autuados no Distrito Federal aumentou 25,26%. De janeiro a outubro, 59.434 condutores foram flagrados com o celular. São 5.943 casos por mês e 195 por dia. No mesmo período do ano passado, 47.447 foram multados pelo mesmo motivo. Para conseguir alcançar as projeções matemáticas e vencer a meta da ONU de reduzir, pela metade, o número de mortos no trânsito até 2020, esse é um dos comportamentos que precisa ser combatido.

Por causa da desatenção no trânsito provocada pelo aparelho a vida da família Matos Lima mudou. A psicóloga Andréia Matos Lima, 33 anos, perdeu o controle do carro no momento em que mandava mensagens de áudio por um aplicativo de mensagens instantâneas no celular. Ela bateu em duas árvores na L4 Sul, próximo à Ponte das Garças. O acidente aconteceu em 27 de outubro de 2014. (Leia depoimento).

Álcool e volante

A embriaguez no trânsito é levada tão a sério em alguns países que não é permitido nem transportar um passageiro no banco da frente se ele estiver sob efeito de álcool. É o que ocorre na Macedônia e na Bósnia e Herzegovina. Por precaução, uma pessoa nessas condições só pode ir no banco de trás. O Projeto de Lei nº 4.380, apresentado em 2016 pelo deputado federal Flavinho (PSB-SP), até tentou implementar a regra no Brasil, mas foi arquivado em junho deste ano depois de ter sido rejeitado nas comissões.

Em Los Angeles, bebidas alcoólicas só podem ser transportadas no carro lacradas e no porta-malas. Além disso, é proibido o consumo de álcool para todas as pessoas que estão dentro do veículo. No Brasil, a restrição é limitada ao motorista. Enquanto isso, no DF, também cresceu a quantidade de flagrantes de embriaguez ao volante. De janeiro a outubro, houve 21.589 autuações, contra 12.757 no mesmo período de 2016 — um salto de 69,23%. Com o direito de dirigir suspenso por ter assumido o volante sob efeito de álcool, uma mulher foi flagrada três vezes em blitzes. Ela, inclusive, havia matado uma pessoa no trânsito.

Em outro caso, agentes do Departamento de Trânsito (Detran) pararam 14 vezes o mesmo condutor sob efeito de álcool. “Em algumas circunstâncias, observamos que a pessoa é dependente. Embora tenha tido uma mudança de comportamento de alguns condutores que usam outros meios de transporte para ir e voltar de eventos, uma parcela da população ainda acha que jamais causará acidente, mas elas assumem o risco de matar e morrer no trânsito, além de trazer sequelas”, analisou o diretor-geral do órgão, Silvain Fonseca.

Segundo o diretor-presidente do Observatório Nacional de Segurança Viária, José Aurélio Ramalho, a percepção de risco só muda se tiver investimento na formação do condutor e em educação de trânsito nas escolas. “Se o motorista não estiver educado, ele não deixará de falar ao celular e continuará bebendo e dirigindo. Tem de ocorrer uma grande mudança em mostrar para o cidadão que as leis e as regras de trânsito são para a proteção dele e não para prejudicá-lo”, destacou.

Na visão dele, é necessário a formulação de um programa consciente para envolver motoristas, motociclistas, pedestres e ciclistas. “Informar é fundamental para que não haja a relação do trânsito com a indústria da multa. As regras que existem são para proteger o cidadão”, ressaltou.

Palavra de especialista

Perigo aumentado

“O álcool, por si só, interfere na capacidade cognitiva e de entendimento do indivíduo; com isso, afeta, inclusive, a parte psicomotora. Quando se perde a capacidade psicomotora, a atenção, principalmente, deixa de existir. O reflexo fica lento, e a pessoa fica letárgica. A compreensão também pode ser afetada. Além disso, o álcool pode ter um efeito sedativo, como a motorista que dormiu ao volante e atropelou o ciclista no Lago Sul, em abril. Dessa forma, uma pessoa sob efeito de álcool pode matar e morrer no trânsito. As pessoas que fazem o uso abusivo da bebida têm até a diminuição da tolerância ao álcool. Portanto, não existe a pessoa que não perde a capacidade psicomotora sob efeito desse tipo de bebida.”
Paulo César Dias de Oliveira, diretor adjunto do Instituto de Medicina Legal (IML) e perito médico legista 

Depoimento

“A minha irmã perdeu a vida por causa do celular”

“Ela (Andréia Matos Lima) lia as mensagens no celular e apertava o teclado para enviar o áudio. Lia e mandava áudio. Quando se perde uma pessoa da família vemos o quanto esse risco de usar o telefone ao volante é real e perigoso. A minha irmã era uma excelente motorista e acho que, por ter muita confiança no trânsito, achou que não corria esse risco. Mas é questão de segundos. Ao abaixar a cabeça para digitar ou falar ao telefone, o carro toma outra direção. A minha irmã perdeu a vida por causa do celular. E é muito triste ver os meus sobrinhos crescendo sem a mãe. Quando o acidente aconteceu a mais velha tinha 5 anos e o mais novo, 3 meses. Hoje, a menina está com 8 e mora com o pai. O caçula está com os avós. Ele não sabe o que aconteceu. A mais velha faz terapia até hoje. Dói mais ainda saber que ela se foi sem estar doente, mas por um descuido. Quando a pessoa usa o celular ela acha que está no controle da situação, mas não está.”

Adriana Matos Lima Ribeiro, 43 anos, irmã de Andréia
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.