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Estado de Minas

Artesã conta a história do Cruzeiro nos pontos de ônibus do DF

Vivi Dourado planeja ampliar o projeto para outras regiões do DF


postado em 22/01/2018 06:00 / atualizado em 22/01/2018 10:39

Ver galeria . 5 Fotos A responsável pelas pinturas nas paradas do Cruzeiro é Viviane Ferreira Dourado, 43 anos, conhecida pela região por Vivi Dourado, designer e artesã por profissãoAntonio Cunha/CB/D.A Press
A responsável pelas pinturas nas paradas do Cruzeiro é Viviane Ferreira Dourado, 43 anos, conhecida pela região por Vivi Dourado, designer e artesã por profissão (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press )

Há três anos, as paradas do Cruzeiro Velho não servem apenas como espera para o próximo ônibus. As rachaduras, que marcam a falta de cuidado, são trocadas, aos poucos, por cores, traços e rabiscos. Os desenhos, como idosos e crianças de mãos dadas e um cadeirante guiado por um cachorro, contam as marcantes histórias da cidade. É como se fosse um livro a céu aberto em forma de painéis artísticos.

A responsável é Viviane Ferreira Dourado, 43 anos, conhecida pela região por Vivi Dourado, designer e artesã por profissão. “Minha vontade era deixar a cidade com um ar mais leve, mais colorido. Estou conseguindo.” Hoje, só o Cruzeiro conta com 18 telas da artista. Os motoristas que passam pela Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia) encontram, ainda, outras duas obras urbanas em fase final de acabamento. Além disso, a artesã quer ultrapassar os diâmetros do Cruzeiro.

Em fevereiro do ano passado, ela começou pela parada da 508 Sul. A quadra modelo de Brasília conta com um mapa do local. “Queria revitalizar a parada próxima ao Espaço Cultural Renato Russo, a homenagem ao índio Galdino e da igreja Dom Bosco”, planeja Vivi. Consultada, a Administração Regional do Plano Piloto disse que se mantém aberta para propostas (veja Para saber mais).


História e auxílio

Vivi nasceu e cresceu no Cruzeiro. A paixão pela pintura e pelo artesanato foi descoberta pelo pai, o baiano Andarilho Ferreira dos Santos. “Meu pai foi prefeito de uma cidade do interior da Bahia. Acabei morando por lá dos 8 aos 14 anos. Ele me ensinava a arborizar a cidade. Não demorou muito a caminhar para a pintura”, relembra.

Vivi decidiu pintar as paradas após se incomodar com as pichações, que, segundo ela, poluíam a imagem da região. “Não é só chegar e pintar. É fazer uma reforma em formato de quadro”, complementa a designer.

Assim que as primeiras telas ficaram prontas, moradores resolveram ajudar na missão. Tanto que Vivi anuncia pelas redes sociais o local e o horário “da próxima parada”. “Quando digo isso, as pessoas já sabem. Há quem leve comida e bebida. É um momento de lazer. Felizmente, tenho um relacionamento bom com a administração”, ressaltou.

O processo para revitalização leva dias. Primeiro, Vivi verifica, com a Administração do Cruzeiro, a parada que poderá revitalizar. Depois da autorização, uma equipe retira os cartazes e as sujeiras do ponto. Em seguida, Vivi faz fotos de todos os ângulos e demarca o desenho. De regra, as artes são feitas aos domingos e levam, em média, uma manhã para ficarem prontas. Os encontros costumam reunir de cinco a 20 pessoas para ajudar.

Uma das telas criadas pela artesã está na passarela principal do Cruzeiro, na Entrequadra 206/207. O desenho nasceu em setembro de 2017. No local, Vivi fez a Ponte JK, um ipê e uma bicicleta com dois corações, que homenageia o tio ciclista Cláudio Souza. O homem morreu após ser atropelado por um carro próximo a um hospital. O acidente aconteceu há um ano. “Ele estava indo fazer uma consulta de rotina quando uma motorista o atingiu. Minha família ainda está em choque”, conta Vivi.

Quem faz questão de ajudar Vivi é o cabeleireiro e músico Paulo Marcelo de Carvalho, 42. Ele, que é amigo da designer há 15 anos, nunca imaginou que participar da atividade transformaria sua vida. “As pessoas ficam felizes, querem filmar, tirar foto. Esse projeto precisa ir — e vai — mais além. Às vezes, olhamos aquelas telas e muda algo na gente. Muda nosso humor. A Vivi é iluminada”, acredita.

A mulher de Paulo, Del Campos, 42, também participa das pinturas. Ela, que sofre há anos de depressão profunda, diz que a atividade fez com que a saúde melhorasse 50%. “Fora que eu descobri gostar disso. A Vivi até ficou impressionada com minha habilidade, até então desconhecida. Sempre que passo ali e vejo aquela pintura, eu me sinto melhor.”

Parceria

O sonho de Vivi é se unir ao artista baiano Toninho de Souza, que revitaliza, desde 1990, as paradas de Sobradinho e Sobradinho II. No momento, ambos mantêm contato para criarem telas juntos. “Se for o caso, fico apenas segurando os pincéis. Ele (Toninho) é uma referência para qualquer artista”, garante. Toninho conseguiu ocupar as 72 paradas de ônibus com suas obras. Além disso, há cinco telas urbanas em Planaltina e sete por Sobradinho II — dessas, duas na Fercal.

O artista chegou à capital canganda aos 6 anos. Além dos pontos de ônibus, Toninho, por meio do que chama de Melantucanarismo, revitalizou outdoors, muros de escolas, praças e até instalações de shoppings. Cerca de 20 países — entre eles Estados Unidos, México, Argentina, Chile, Alemanha, Iraque e Japão — receberam as obras. “Apenas levo arte para onde o povo está. É uma obra pública”, justifica Toninho.

Questionado sobre a futura parceria, Toninho diz que é essencial que telas urbanas se propaguem pelo Distrito Federal. “Só assim para que as pessoas conheçam a produção artística da cidade. E quero me juntar, sim, ao trabalho dela. Uma andorinha sozinha não faz verão”, confirmou Toninho.


Arte abstrata

O termo Melantucanarismo é de autoria de Toninho. Segundo ele, representa a arte abstrata da melancia, do tucano e da arara. Por conta disso, o artista ficou conhecido inicialmente, em Brasília, como Pintor das Melancias, Criador de Surpresas e Pintor das Araras.

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