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Estado de Minas

Por meio do esporte, famílias revivem tradições da colônia nipônica no DF

Avós, pais, filhos e netos se encontram semanalmente para jogar beisebol e softbol na Vargem Bonita. A prática esportiva ajuda a reviver tradições da colônia nipônica no Distrito Federal


postado em 23/01/2018 06:00 / atualizado em 23/01/2018 11:56

Ver galeria . 9 Fotos Colônia nipônica revive tradições com a prática de beisebol e softbol na Vargem Bonita. Paixão é compartilhada por avós, pais, filhos e netosEd Alves/CB/D.A Press
Colônia nipônica revive tradições com a prática de beisebol e softbol na Vargem Bonita. Paixão é compartilhada por avós, pais, filhos e netos (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )

A Colônia Agrícola Vargem Bonita, área rural próxima ao Park Way, ficou pequena demais para os descendentes de japoneses, que desembarcaram em Brasília ainda nos anos 1960, para trabalhar nas chácaras e abastecer as prateleiras dos supermercados com produtos hortifrúti. Nem todos os nikkeis, nome dado aos filhos, netos e bisnetos da Terra do Sol Nascente no Brasil, permaneceram na agricultura. Alguns deixaram o cenário bucólico e decidiram viver em regiões como Plano Piloto, Taguatinga e Águas Claras. Porém, mesmo que os nipo-brasilienses tenham seguido caminhos diferentes, há um motivo para que se encontrem a cada manhã de domingo. É quando avós, filhos, netos e sobrinhos se reúnem em um terreno de terra batida com cerca de um hectare no coração da Vargem. Lá, com tacos de madeira, luvas de couro e uniforme vermelho, eles praticam dois dos esportes mais populares no Japão — beisebol e softbol —, jogos que unem gerações e mantêm viva a memória da comunidade.

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Não são modalidades fáceis de se jogar. Para quem nasce no Brasil, só o beisebol parece um pouco familiar por figurar em filmes e desenhos animados dos Estados Unidos, país forte nesse esporte. De softbol, aliás, poucos brasileiros entendem (veja quadro). Para os nipo-brasilienses, porém, a complexidade dos dois jogos ajuda a reforçar os laços familiares. Afinal, os ensinamentos das regras e das jogadas passam de avô para neto — ou melhor, como dizem os descendentes de japoneses, de jichan para magô. Entre as cerca de 40 pessoas, de todas as idades, que participam dos treinos do Vargem Bonita Baseball Club, famílias jogam juntas. Primos lançam a bola uns para os outros. Pais, de longe, podem gritar instruções sobre como fazer um arremesso perfeito.

O sobrenome Nakashima é um dos mais comuns no time. A família está na terceira geração de jogadores. A tradição começou com o agricultor Tadayuki, 75 anos, o jichan. Ele tinha 3 anos quando a bomba atômica destruiu Hiroshima, a apenas 200 quilômetros de Shimonoseki, cidade onde vivia no Japão. Aos 16 anos, os pais de Tadayuki decidiram se mudar para o Brasil, mesmo quando a nação asiática vivia a reconstrução. “Diziam que aqui era maior, tinha mais oportunidades”, relata, com forte sotaque nipônico. Primeiro, aportou em Belém (PA). Mas as notícias de que Brasília recebia nikkeis para trabalhar na agricultura o levaram a desembarcar na capital em 1964.

Para passar o tempo, Tadayuki jogava beisebol (ou yakyu, conforme a língua materna) com os outros agricultores e filhos de chacareiros. A Vargem Bonita, na década de 1960, começou com pouco mais do que 10 famílias de agricultores, apenas um quarto da atual população agrícola no local. Mas uma parte do bairro se urbanizou e atraiu moradores de outras regiões. Além disso, alguns descendentes de japoneses decidiram partir. Uns, os dekasseguis, deixaram o Brasil, principalmente nos anos 1990.


Transformação


A mudança da língua falada na Vargem Bonita é um sinal dessa transformação. “No meu tempo, só se jogava beisebol em japonês”, relembra Tadayuki, que vive numa casa em frente ao campo. Somente a partir de meados dos anos 1970, com a segunda geração de nikkeis, o português se tornou o idioma oficial dos treinos dos nipo-brasilienses. À época, ensinou os filhos a entenderem as regras do esporte.

A modalidade, inclusive, impulsionou o crescimento da família. Um dos filhos de Tadayuki, Leonardo, 44, conheceu a mulher, Cláudia, 41, nos vários jogos que a comunidade fazia quando eles eram ainda pré-adolescentes. “Nossas duas famílias jogavam beisebol. Nós dois crescemos juntos”, conta. Os dois deram o sobrenome Nakashima às três filhas do casal. Melissa e Laís, com 14 e 11 anos, já treinam softbol.  “A próxima é a Sabrina. Daqui a alguns anos, ela estará aqui”, orgulha-se Leonardo, enquanto segura a caçula, de 2 anos, no campo do Vargem Bonita Baseball Club.
 

Modalidade de volta às Olimpíadas

 
Daqui a pouco mais de dois anos, em Tóquio, tanto beisebol quanto softbol voltam aos Jogos Olímpicos. Ambas as modalidades faziam parte da programação oficial olímpica até 2008. Ficaram duas edições fora por falta de popularidade. Acabaram voltando depois que o Comitê Olímpico Internacional (COI) flexibilizou a regra de entrada e saída de esportes do programa. Facilitou o fato de a próxima edição ocorrer justamente no Japão, onde há mais chance de gerar audiência.

Por isso, o que era brincadeira de domingo pode virar, quem sabe, um sonho olímpico. Talvez não para Tóquio-2020, mas para edições futuras. Fã do ex-jogador do New York Yankees Derek Jeter, Rafael Yasuyuki, 15 anos, ainda pretende prestar vestibular para biologia quando terminar o Ensino Médio, que ele inicia nas próximas semanas. Com a volta do beisebol às Olimpíadas, porém, os planos podem até mudar. “A estrutura é melhor em São Paulo, e eu preciso treinar bastante para tentar, um dia, ir para lá”, projeta. A capital paulista, onde vive a maior colônia de japoneses no Brasil, conta com um estádio com infraestrutura profissional no bairro do Bom Retiro. Londrina, Maringá e outras cidades no Paraná também têm centros de treinamento e recebem competições.

Amiga de Rafael, Luana Yukari, 14 anos, pretende seguir um caminho parecido. Mãe e avó jogavam softbol e incentivaram a manter a tradição na versão leve do beisebol. Os grupos de Whatsapp com os colegas de time tornam cada treino um encontro entre amigos. “Eu venho pelos laços que criei aqui e para praticar algum esporte”, admite. “Mas não descarto treinar para um dia virar profissional”, completa a jovem.

Para Marcelo Nakandakari, 31 anos, um dos professores do time, o convívio entre as famílias e o resgate às tradições da primeira colônia nipo-brasiliense impulsionam a união do time. Até para motivá-los a, se quiserem, seguir o caminho do esporte. “Aqui, eles saem do videogame, do celular. Além disso, tanto o beisebol quanto o softbol ensinam a trabalhar em equipe, que é importantíssimo para a vida profissional”, explica Marcelo.


Para saber mais

Diferenças
À primeira vista, as duas modalidades parecem idênticas: ao rebater a bola arremessada pelo jogador de outro time, o batedor deve correr pelas bases do diamante, nome dado ao campo. Cada vez que se alternam ataque e defesa entre as equipes, conta-se uma entrada. A diferença entre os dois esportes está na duração e nas dimensões do espaço do jogo. No programa olímpico, o beisebol é exclusivo a homens, e o softbol, a mulheres. Porém, os dois esportes podem ser praticados por atletas de ambos os sexos.
 

Beisebol

  • 9 entradas;
  • Arremesso por cima;
  • Bola menor, mas mais densa;
  • Campo com cerca de 752m².

Softbol

  • 7 entradas;
  • Arremesso por baixo;
  • Bola maior;
  • Campo com cerca de 332m² 

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