Publicidade

Estado de Minas

Homens se arriscam em busca de sexo fácil na 'Floresta dos Sussurros'

Durante três semanas, o Correio acompanhou a rotina de prazer nas imediações dos estacionamentos 1 e 2 do Parque da Cidade Sarah Kubitschek, próximos ao Pavilhão de Exposições. Ali, relações rápidas e descompromissadas acontecem ao ar livre e a qualquer hora do dia


postado em 27/01/2018 07:05 / atualizado em 27/01/2018 13:09

A menos de 6km da Praça dos Três Poderes, as relações ocorrem ao ar livre e sem rodeios. Ali, a reportagem conversou com 20 homens(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
A menos de 6km da Praça dos Três Poderes, as relações ocorrem ao ar livre e sem rodeios. Ali, a reportagem conversou com 20 homens (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )


Brasília dorme cedo. Bares e restaurantes começam a fechar a partir das 22h, mas, independentemente do horário, o movimento nos estacionamentos 1 e 2 do Parque da Cidade Sarah Kubitschek, próximos ao Pavilhão de Exposições, nunca para. O Correio visitou esses locais durante três semanas para acompanhar a rotina no local. Encontrou pessoas em busca de prazer, aventurando-se dentro de veículos ou entre as árvores da região apelidada de Floresta dos Sussurros. O público se mostra diversificado, mas a maioria é homem. Engravatados, com roupas de malhar, brancos, negros, casados, solteiros, jovens e idosos. Todos estão lá por um motivo em comum: sexo rápido e sem compromisso.

A menos de 6km da Praça dos Três Poderes, as relações ocorrem ao ar livre e sem rodeios. Ali, a reportagem conversou com 20 homens, que não terão os nomes divulgados para preservá-los. A prática não se trata de prostituição, e ninguém é obrigado a fazer nada que não deseje, apesar da exposição à insegurança e a doenças. “Você está aqui a trabalho ou diversão?”, questiona o primeiro homem a puxar conversa com a reportagem. Sem dar tempo para uma resposta, o senhor, por volta dos 60 anos e ao volante de um veículo luxuoso, completa: “Posso ver seu corpo?”.

O estacionamento próximo à Floresta dos Sussurros é iluminado. Vários buracos e uma pista desgastada denunciam o trânsito intenso. Em menos de duas horas, cerca de 30 carros passaram pela região. Boa parte dos frequentadores não cobra pelas atividades sexuais. Porém, homens mais velhos e com condições financeiras costumam oferecer dinheiro para os jovens a fim de convencê-los a fazer o que quiserem na hora do sexo. “Tem certeza de que não quer entrar no meu carro? Vira e mexe encontram um corpo aqui. É mais seguro comigo”, argumenta.

Leia as últimas notícias do Distrito Federal 

Entre as árvores, o ambiente muda. Fica mais escuro. Não se consegue ver direito o rosto dos parceiros, fora os momentos em que um veículo manobra e direciona os faróis, iluminando a “floresta”. Nesse momento, muitos se escondem, protegendo os olhos da luz ou tentando manter a identidade oculta. As abordagens são rápidas. Alguém se aproxima, cumprimenta e solta um rápido: “Curte o quê?”. A pergunta tem como objetivo descobrir se os homens são compatíveis sexualmente, mais especificamente, se são ativos ou passivos.

Nada fica restrito a um casal

Caso tenha uma combinação, a relação se inicia. Poucas vezes trocam beijos, vão direto ao sexo. E nada fica restrito a um casal. Quem passa por ali pode chegar perto, mostrar o corpo e, se aceito, participar do ato. Rapidamente, formam-se grupos de cinco ou mais. Ao redor, outros se masturbam enquanto assistem às cenas. Aqueles em busca de privacidade acabam se aprofundando na Floresta dos Sussurros ou seguem para um carro no estacionamento. Apenas duas mulheres apareceram no local durante as três semanas de reportagem e, diferentemente dos homens, elas aparentavam ser moradoras de rua.

No fim da madrugada, o público na Floresta dos Sussurros muda. Às 6h, muitos passam no local antes de seguir para o trabalho. Usam roupas formais, como terno e blazer, e trabalham na área central de Brasília. “O meu emprego fica na Asa Sul. Passei aqui rapidinho para me divertir antes de começar o dia. E você? Curte o quê?”, questiona o morador do Noroeste, de meia-idade. Ele revela que, quando sente vontade, sai mais cedo de casa para passar no Parque da Cidade. Dirige um veículo 0km. Com pressa e desinibido, ele circula pelo lugar e aborda alguns dos 15 automóveis estacionados. “Não tenho medo. Vim aqui várias vezes, é tranquilo”, afirma.

Por volta das 9h, o movimento diminui. Nesse horário, a interação ainda ocorre, mas de forma tímida, e o público muda outra vez. Agora, no lugar dos engravatados, gente com roupas esportivas toma conta dos estacionamentos próximos ao Pavilhão de Exposições. Salta de um veículo para outro e dá início à relação sexual em plena luz do dia. Aqueles a pé ou de bicicleta também abordam os motoristas com veículos parados no local. A partir das 11h30, o número de pessoas volta a aumentar. Muitos usam o horário de almoço e o intervalo do serviço em busca de prazer.

* Estagiário sob supervisão de Guilherme Goulart

Pegação

As histórias e os mistérios nos estacionamentos do Parque da Cidade ocorrem, no mínimo, desde os anos 1990. Em sites de dúvidas, fóruns e até em grupos nas redes sociais, são encontrados tópicos com pessoas questionando o motivo de haver tantos carros em movimento pelo local. Atualmente, a região é mais conhecida pelos frequentadores como Pegação. O termo é uma gíria usada para identificar qualquer local onde ocorra sexo casual e fácil.

Ver galeria . 4 Fotos Pessoas em busca de prazer, se aventuram dentro de veículos ou entre as árvores da região apelidada de Floresta dos Sussurros, no Parque da CidadeEd Alves/CB/DA Press
Pessoas em busca de prazer, se aventuram dentro de veículos ou entre as árvores da região apelidada de Floresta dos Sussurros, no Parque da Cidade (foto: Ed Alves/CB/DA Press )


Memória


Relações em áreas públicas

Práticas de sexo gay em locais públicos ocorrem há pelo menos dois séculos. Elas tiveram início quando os atos sexuais entre homens começaram a ser recriminados, fazendo com que ficassem marginalizados. No início, esse tipo de relação era mais comum com homens que, apesar de homossexuais, se casavam com mulheres. Com o passar das décadas, esses espaços públicos viraram pontos de paquera onde gays poderiam se encontrar longe da violência e da homofobia. Em 2013, a prática inspirou o filme francês Um estranho no lago, que narra a história de um local na Europa onde gays se encontravam para manter relações sexuais próximo a um lago. No Brasil, além de Brasília, alguns pontos conhecidos de pegação são o Parque Trianon, em São Paulo; a Praia do Phil, em Vitória (ES); e a Floresta dos Gatos, no Arpoador (RJ). Fora do país, ocorre no Central Park, em Nova York, e nos banheiros públicos de Bethnal Green, Hyde Park e Carnaby Street, em Londres.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade