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Estado de Minas

Como as grandes obras verticais estão criando ilhas de calor em Brasília?

Brasília deveria ter o clima ameno na maior parte do ano, mas estudos apontam ilhas de calor com o aumento da temperatura nos Setores Bancários Sul e Norte e na região de Águas Claras


postado em 28/01/2018 08:19 / atualizado em 28/01/2018 09:45

Verticalização das construções e pouca distância entre prédios podem aumentar temperatura em até 6ºC (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press - 5/9/17)
Verticalização das construções e pouca distância entre prédios podem aumentar temperatura em até 6ºC (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press - 5/9/17)

 
Tempo seco, umidade baixa e calor são características conhecidas do clima sob o qual os brasilienses vivem boa parte do ano. No entanto, o que era para ser um fenômeno natural está se agravando em áreas verticalizadas da cidade. Brasília deveria ter o clima extremamente ameno, mas grandes construções no Distrito Federal geram ilhas de calor. Estudos e especialistas apontam o aumento da temperatura nos Setores Bancários Sul e Norte e na região de Águas Claras. A variação pode ser de até 6°C e o calor permanece por mais tempo. A falta de vegetação e de planejamento são as principais causas desse problema.

A especialista em arquitetura e urbanismo e bioclimatismo da Universidade de Brasília (UnB) Marta Bustos Romero explica que há aumento da temperatura nas áreas com mais construções. “Realizamos estudos nos setores bancários Sul e Norte, na área próxima ao Noroeste e orientei uma dissertação de mestrado sobre Águas Claras. Todos os resultados apresentaram temperatura superior às regiões com mais verde”, ressalta. A estudiosa diz que a diferença é perceptível. “Se sairmos dessas áreas de concreto e formos até o Parque da Cidade, por exemplo, notaremos a diferença instantaneamente”, assegura.

Marta alerta que o fenômeno pode se expandir para cidades em processo de verticalização, como Samambaia e o Noroeste. “Sem dúvida, as ilhas de calor começam com a construção das cidades!”, diz. Segundo ela, os materiais urbanos, como concreto e pavimentação, têm capacidade diferente dos elementos naturais. “A luz do sol é refletida para a atmosfera, porém, esses elementos absorvem o calor e não devolvem instantaneamente. As superfícies ficam aquecidas e a temperatura só volta a ser redistribuída à noite”, esclarece. Com isso, ocorre o aumento do calor tanto no período diurno, quanto no noturno, além da dificuldade de ventilação.

Os danos poderiam ser amenizados com o adequado planejamento antes de construir, o que passa pela qualidade dos materiais utilizados nas edificações, uma vez que podem amenizar os danos.  “Outro fator que influencia diretamente as ilhas de calor é o que nós denominamos de morfologia urbana. Ou seja, a altura e a distância entre os edifícios, bem como a inclusão de áreas com vegetação devem ser pensados”, alerta a estudiosa.

Ela lembra que muitas regiões do Distrito Federal foram construídas descontroladamente. Por isso, até mesmo a capacidade de absorção de água pelo solo é prejudicada. “Nossos estudos são realizados por satélite. É impressionante, por exemplo, como uma área com bastante verde, como o Parque da Cidade, apresenta temperatura mais amena do que a Asa Sul”, comenta.

Doenças respiratórias

As ilhas de calor alteram até mesmo o comportamento humano. Segundo Marta, as pessoas passam a adquirir meios alternativos para se refrescar, como o uso do ar-condicionado e acabam prejudicando ainda mais a situação, porque esses equipamentos também devolvem o calor ao meio ambiente. Além disso, pode ocorrer o agravamento de doenças respiratórias, o estresse e prejudicar diretamente crianças e idosos, que têm a saúde mais sensível.

Uma dissertação de mestrado realizada em 2011 pela especialista em arquitetura e urbanismo Andiara Campanhoni previa o problema que a pouca distância entre os prédios de Águas Claras causaria. O estudo mostra que a temperatura pode variar entre 28°C e 33°C durante o ano. Em comparação com as áreas mais abertas, o índice pode ser superior até 6°C. O ideal seria que os prédios tivessem distância de 10m, no entanto, o planejamento da cidade mostra que as construções foram planejadas e executadas com 5m de distância.

Com isso, parece ser mais quente dentro de casa. A aposentada Noemia Batista, 73 anos, relata que a diferença é altamente perceptível. “Moro em dois lugares com minhas sobrinhas, fico revezando lá e cá. Em Águas Claras, sinto muito calor, principalmente, à noite. A secura também é grande, não paro de beber água”, se queixa. Na outra residência da aposentada, na Octogonal, a situação é diferente. “Lá, até parece que faz mais frio. Nunca tinha parado para pensar que isso podia ser influência dos prédios. Até a ventilação aqui (Águas Claras) é menor”, lamenta.

A mulher veio da Bahia há 30 anos e afirma sentir falta do clima úmido. “Lá faz calor, mas é bem diferente. Porém, sinto que aqui está piorando cada vez mais. Todo ano que passa, a quentura aumenta e a gente acaba adoecendo”, reclama.

A situação no Setor Bancário Sul não é diferente. Quem trabalha no local reclama do calor acima da média. Segundo o bancário Daniel Vilela, 35, as altas temperaturas entram em contraste com as áreas mais arborizadas. “Moro no Noroeste, próximo ao Parque Nacional, e sinto a diferença diariamente. Quando chego em casa, fico até aliviado”, conta. No prédio onde o bancário trabalha, o ar-condicionado fica ligado o dia inteiro. No entanto, ele precisa transitar entre os outros edifícios do lugar. “Passo o dia todo de terno, por isso, sofro ainda mais. A única coisa que posso fazer é reforçar na hidratação”, comenta.


Carros x clima

O grande número de veículos estacionados em um mesmo espaço geográfico também atinge diretamente a temperatura e a umidade relativa do ar. Dois estudos realizados em 2015, por pesquisadores da UnB, avaliaram os índices nos setores bancários Sul e Norte. Eles constataram um aumento de até 2,5°C e redução considerável da umidade nos horários e dias em que há mais carros estacionados próximos às edificações.

Marta explica que os automóveis parados também absorvem calor e causam um fenômeno parecido com o dos prédios. “Cada vez mais estamos piorando a situação. A população aumenta e o número de veículos, também”, lamenta. As pesquisas também comprovam que, nas áreas próximas aos setores sem estacionamento, a temperatura é mais amena.

A especialista ressalta que é possível diminuir os impactos das ilhas de calor de três maneiras. “Podemos minimizar a quantidade de carros parados nos estacionamentos, trocar o material da pavimentação por um de cor mais clara e investir em arborização”, sugere. A especialista comenta que, na Califórnia, nos Estados Unidos da América, o governo trocou o material das calçadas por outro menos escuro  para que ocorra menor absorção do calor.

O Instituto Brasília Ambiental (Ibram) informa que é realizado o monitoramento da temperatura em quatro estações meteorológicas, localizadas na Rodoviária do Plano Piloto, Asa Norte, Fercal e Jardim Botânico. De acordo com o analista ambiental e meteorologista do órgão, Carlos Henrique Rocha, com o auxílio da medição, a ideia é elaborar um planejamento para que haja intervenções nas ilhas de calor. “Para este ano, pretendemos utilizar imagens captadas de satélites capazes de identificar esses pontos e começar projetos para mudar a situação, como investir em arborização”, explica. 

*Estagiário sob supervisão de Margareth Lourenço (Especial para o Correio)

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