Landell de Moura morreu desiludido por não conseguir apoio para pesquisas

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postado em 16/01/2011 11:37

Max Milliano Melo

O italiano Guglielmo Marconi é conhecido mundialmente como o inventor do rádio, primeiro meio de comunicação de massa. O que pouca gente sabe é que os livros de história podem estar errados. Afinal, registros indicam que a primeira transmissão de voz humana entre dois aparelhos ocorreu em 1900, entre a Avenida Paulista e Alto de Santana, no município de São Paulo. E o autor da façanha foi o padre gaúcho Roberto Landell de Moura.
Nascido em Porto Alegre, em 21 de janeiro de 1861, numa família com 14 filhos, padre Landell de Moura demonstrava interesse e curiosidade pela ciência desde cedo. Aos 16 anos, quando soube que o telefone havia sido inventado, conseguiu montar um aparelho em casa usando como fonte de informação apenas jornais e livros a que tinha acesso. Sem mais condições de estudar na pequena Porto Alegre do fim do século 19, foi mandado para o Rio de Janeiro, então capital do Brasil, e depois conseguiu vaga na renomada Universidade Gregoriana, na Itália, uma das melhores do mundo na época. “Lá, além de estudar para ser padre, Landell fez questão de se formar em química e física, o que foi essencial para suas pesquisas quando retornou ao Brasil”, conta Hamilton Almeida, biógrafo do inventor.
De volta ao Brasil em 1886, o gaúcho continuou suas pesquisas na tentativa de criar uma máquina de comunicação que não utilizasse fios. No mesmo ano, na Itália, Marconi inventava o telégrafo, aparelho que transmitia pulsos na forma de código morse, o que levou pesquisadores do mundo todo a buscar uma maneira de transmitir, não ruídos (caso do telégrafo), mas a voz humana pelo ar.


Autodidata, Landell dividia as tarefas religiosas em igrejas do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul com as pesquisas na área de telecomunicações. Estima-se que, por volta de 1892, ele já havia desenvolvido os primeiros protótipos do que viria a ser o rádio e já fazia algumas transmissões experimentais. “Até que em 1900, em busca de apoio para suas pesquisas, ele fez uma transmissão pública”, conta Almeida.


“No domingo passado, no Alto de Santana, na cidade de São Paulo, o padre Landell de Moura fez uma experiência particular com vários aparelhos de sua invenção, no intuito de demonstrar algumas leis por ele descobertas no estudo da propagação do som, da luz e da eletricidade através do espaço, as quais foram coroadas de brilhante êxito”, noticiou o Jornal do Commércio de 10 de junho daquele ano. Apesar da repercussão nos jornais da época, o padre não conseguiu despertar os interesses de empresários e governantes.


A transmissão de Landell, segundo Almeida, ocorreu antes de Marconi,  na Itália, ou de Karl Braun, na Alemanha, repetirem o feito, em 1914. Porém, longe dos grandes centros de produção do conhecimento, ou seja, dos Estados Unidos e da Europa, o padre não tinha seus feitos reconhecidos e chegava a ser taxado de louco por alguns. Suas pesquisas não contavam com apoio financeiro, ao contrário do que ocorria na Europa, onde o telégrafo e, posteriormente, o rádio foram rapidamente popularizados. Para se ter uma ideia, Marconi e Braun receberem o Prêmio Nobel de Física em 1909, por seus estudos com a transmissão de dados.


Apesar do descrédito, padre Landell continuou a insistir em suas pesquisas, desenvolvendo aparelhos semelhantes à televisão e ao telex (sistema de transmissão de texto). Na última tentativa de ter seu suas invenções reconhecidas e suas pesquisas financiadas, ele registrou no Brasil o primeiro aparelho de rádio e, graças a algumas economias que havia juntado, viajou até os Estados Unidos para patentear a invenção, em 1904 — 10 anos antes de Marconi registrar a sua na Europa.

Aposentadoria


Mesmo com todo o esforço para continuar suas pesquisas, no fim da década de 1910, Landell teve que desistir, aposentando-se de sua carreira de inventor. Nunca justificou essa atitude. “O único registro que há sobre esse episódio é uma entrevista que deu em 1922, na qual disse: ‘Me fizeram largar tudo’’, conta Hamilton Almeida. “Não se sabe se esse alguém são as pessoas que não quiseram investir em seu trabalho ou se ele recebeu alguma ordem da Igreja, por conta de sua fama de louco”, completa o biógrafo. Landell morreria seis anos depois daquela entrevista, em sua cidade natal, Porto Alegre.


As realizações de padre Landell permaneceram esquecidas até o fim dos anos 1960, quando estudiosos começaram a se interessar pela história do inventor, hoje considerado patrono do radioamadorismo no Brasil. Desde então, diversas pesquisas tentam resgatar a história do inventor e trazer um reconhecimento, mesmo que póstumo, por sua contribuição para a chamada era da informação.


Apaixonada pela história do rádio e fundadora do Movimento Landell de Moura, Alda Niemeyer começou a pesquisar sobre a vida do inventor em 1980, quando ganhou um livro que mencionava o padre. O pesquisador se tornou objeto de estudo de Alda, que trabalha pela inclusão de Landell nos livros de história como o Pai das Telecomunicações. “Quando comecei a pesquisar a vida do padre Landell, eu me sentia sozinha, pois pouca gente fazia isso. Hoje, com 90 anos, fico tranquila ao ver que mais gente tem se interessado por sua obra”, conta Alda, que traduziu para o alemão O outro lado da telecomunicação — a saga do padre Landell, a biografia do inventor brasileiro. “Mas meu maior desejo ainda é que ele seja reconhecido como o grande inventor que foi”, completa.

 

Meu maior desejo ainda é que ele seja reconhecido como o grande inventor que foi”

Alda Niemeyer ,
pesquisadora e fundadora do Movimento Landell de Moura

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