Naturologia aposta na força da natureza para combater doenças

A naturologia sustenta que a melhor forma de combater doenças é adotar hábitos como alimentação orgânica, consumo diário de muita água e práticas alternativas e complementares à medicina tradicional

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postado em 14/12/2011 08:30

Thais de Luna

Fotos: Dênio Simões/Esp. CB/D.A Press

Os conceitos de que consumir alimentos orgânicos, fazer terapias alternativas e entrar em harmonia com a natureza são cada vez mais difundidos, como forma de obter mais qualidade de vida. O que poucos sabem é que toda essa filosofia de vida mais voltada ao mundo natural tem nome e é considerada uma ciência: a naturologia. “Essa área foca na questão da saúde, promovendo-a e fazendo sua manutenção, cuidando da pessoa como um todo, mesmo que ela tenha algum problema específico”, explica a naturóloga Thaiz Golubov, bacharel na área pela Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul). “A gente destaca a alimentação, de acordo com o que é melhor para a pessoa, mas não se restringe a isso. A área inclui meditação, contato com a natureza, uso de argila medicinal, cromopuntura — acupuntura em que, no lugar de agulhas, usa-se uma caneta com feixes de luzes coloridas —, yoga, reiki”, enumera. O naturopata Pete Coe explica que trabalha com base em cinco pilares: a alimentação, o ar, o sol, a terra e a água.

O primeiro pilar consiste em comer produtos saudáveis, orgânicos e integrais, de maneira “racional e humana”. “Não discutimos se um copo de vinho faz bem, se uma xícara de café faz bem. Observamos o que estamos aptos a digerir”, descreve. Em relação ao elemento ar, ele ressalta a importância da respiração. “Muitas vezes, o estresse da vida moderna faz com que você tenha, por exemplo, uma respiração ofegante e não agregue oxigênio o suficiente na circulação. Para mudar isso, temos uma série de técnicas respiratórias”, conta Coe.

Ele também propõe que a pessoa se exponha ao sol todos os dias durante a manhã, por cerca de 20 minutos. Outro elemento com papel essencial nessa filosofia é a água. Coe cita a relevância dos banhos frios, que estimulam o corpo a fazer a troca térmica com o ambiente; banhos de assento; banhos de vapor para que a pessoa elimine toxinas; e banhos de imersão. “E é muito importante beber água, dois litros todos os dias”, completa. O contato físico com a terra, ao pisar nela, andar sobre ela, também é uma das bases da naturologia. “Também pode-se usar a terra em emplastros, como em aplicações de argila”, informa. Ele resume o conceito da prática: “É uma vida sustentável”.


Essa filosofia não exclui a importância da medicina na melhora dos indivíduos. Ao contrário, a complementa, defendem quem propõe a naturologia. “Nela, fazemos um trabalho transdisciplinar. Algumas doenças não vão ser curadas apenas com a medicina natural, embora possamos equilibrar o corpo da pessoa para que, com o tratamento médico, ela se recupere mais rápido de uma doença”, sustenta Thaiz. “A medicina é bem-vinda. Acho que há atualmente o exagero das drogas contínuas. Existem médicos ótimos, mas alguns acreditam só nos remédios e isso acho que é perigoso. É a ilusão de só achar que se pode encontrar a saúde na esquina, não dentro de você”, pondera Coe.

Diagnósticos, não
Embora o Conselho Federal de Medicina (CFM) reconheça como legítimas poucas práticas que fujam à medicina tradicional e veja as terapias alternativas de maneira crítica, o órgão considera que a naturologia, por exemplo, tem uma abordagem geralmente não prejudicial, por estar mais ligada a conhecimentos da cultura popular. Emmanuel Fortes, terceiro vice-presidente do CFM, adverte que “o problema é quando pessoas dessas áreas decidem diagnosticar e tratar” doenças. “Tais procedimentos devem ser restritos à ciência oficial, à medicina. O risco é de que as pessoas que vão pelas abordagens alternativas retardem o diagnóstico e passem a tratar os problemas tardiamente”, alerta. Segundo Fortes, quando essas áreas focam na prevenção de problemas de saúde e na manutenção da qualidade de vida, podem ser benéficos.

A turismóloga Ellen Carneiro, 37 anos, conheceu a naturologia em outubro deste ano, por meio de sua psiquiatra. “Eu tenho diagnóstico de transtorno bipolar e venho tomando remédio há 10 anos. Estava tomando doses muito altas de remédio e, por isso, apareceu em exames clínicos que eu tinha uma inflamação no fígado, uma hepatite medicamentosa”, recorda. Para melhorar, ela precisava reduzir a dose dos medicamentos para um terço do que consumia. “Minha médica, então, me recomendou ir para um spa com viés naturológico. Vim com encaminhamento médico, com uma tabela para diminuir a quantidade de remédios”, explica.

Ellen foi para o local com medo de sofrer mudanças muito radicais na própria vida. “Eu tinha a alimentação completamente errada, não abria mão do cafezinho e comia fast food ou pizza todos os domingos”, lembra. “Além da indicação da minha médica, eu queria emagrecer no spa. E o choque na mudança em relação à comida nem foi tão grande, porque os pratos e os sucos do lugar são muito saborosos. As frutas, verduras e legumes também são muito gostosos. Dá para perceber a diferença entre produtos orgânicos e os que eu costumava comprar no mercado”, destaca a turismóloga.

Em 10 dias inserida na naturologia, Ellen perdeu 4kg, conseguiu alcançar a meta de tomar apenas um terço da quantidade de remédios que consumia antes e acabou com a hepatite. “Hoje em dia, me alimento muito melhor. Não sou radical, ainda como carne, mas faço escolhas muito mais saudáveis e incorporei frutas, verduras e legumes com mais intensidade no meu dia a dia”, afirma.

Para a ex-sedentária, que atualmente é fã de caminhadas, outra questão importante foi começar a fazer massagens, tanto relaxantes quanto estéticas. “Elas me deixam muito bem comigo mesma”, assegura, destacando que continua a frequentar massoterapeutas para manter os benefícios dos 10 dias de “reclusão”. Ellen assinala que o mais interessante nessa área é o respeito à individualidade e ao tempo de cada pessoa para se adaptar a comportamentos distintos dos que tinha.

Novos hábitos
O analista de sistemas Mauro Cardoso, 58 anos, é adepto dessa filosofia. Quando criança, costumava ter uma alimentação mais natural, sem consumir produtos industrializados. Isso mudou quando ele se se casou. “Comecei a comer alimentos mais pesados, gordurosos e com muita carne. Eu também era sedentário e a combinação desses fatores me deixou propenso a desenvolver uma série de doenças.” Em uma consulta médica, em 2003, viu que estava com índice alto de triglicerídeos e descobriu um câncer de pele. Fez todos os tratamentos médicos necessários e passou por uma cirurgia para retirar o melanoma benigno. Foi quando decidiu mudar de vida.

Naquele ano, Cardoso, que sempre se identificou com “essas coisas alternativas”, conheceu as ideias da naturologia por meio de um colega transferido do Maranhão para Brasília. Ele se empolgou em mudar totalmente a alimentação, com a orientação de um naturólogo, para desintoxicar seu organismo e, em seguida, adotar novos hábitos. Entre eles, tornar-se vegetariano e consumir “tudo na temperatura ambiente, para que o organismo fique equilibrado e não acelere o processo de envelhecimento”.

Ele se considera um adepto moderado da naturologia. “Saio com minha namorada para beber um vinho, por exemplo, mas continuo me alimentando bem e fazendo exercícios. Pratico musculação, yoga, tai chi chuan, dança de salão, entre outros. Agora tenho saúde”, destaca. Ele garante que todo esse processo de se reencontrar e modificar a alimentação foi feito com muito prazer. “Quem tem uma alimentação normal tem os papilos da língua impregnados de gordura. Quando ela muda, a gente sente muito mais o sabor da comida. Sinto sabor até na água”, garante.

Área polêmica
A naturopatia é uma área da naturologia voltada para o tratamento de doenças por meio do equilíbrio com a natureza. Mais especificamente, a naturopatia é voltada para detectar as causas dos problemas de saúde e encontrar meios de reverter a situação do organismo não balanceado. Especialistas advertem que a naturopatia não substitui o acompanhamento médico em casos de doenças.
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