Pastel, camarão empanado, queijo coalho, cerveja: a lista de tentações é grande no verão. Para muita gente que passou o ano inteiro envolvida com dietas e exercícios físicos, as férias de fim de ano significam uma pausa — e, consequentemente, o início da temporada das refeições fartas em frituras, alimentos gordurosos e bebidas alcoólicas. O tempo de calor é, porém, justamente o período de encher o prato com alimentos completamente opostos aos citados no começo do parágrafo. A falta de cuidado com o que se come nas férias pode ocasionar infecções gastrointestinais, uma vez que as altas temperaturas favorecem o crescimento de bactérias nos alimentos. Para saber como proceder com as opções gastronômicas desse período tão específico do ano, o Correio conversou com especialistas.
André Luiz de Rezende, médico gastroenterologista e endoscopista do Instituto Brasiliense de Gastroenterologia e Endoscopia Digestiva (Ibed), explica que a infecção alimentar acontece especialmente no intestino, onde ocorre todo o trânsito gastrointestinal. “Existem as bactérias ‘boas’, que ajudam na digestão, na absorção e no processamento do bolo alimentar, mas também há as ‘ruins’”, detalha. Caso as “ruins” fiquem em maior número, o corpo responde na forma de cólicas, diarreia, formação de gases e distensão da barriga.A mudança de horário das refeições e muitos alimentos ricos em gordura e açúcar e pobres em fibras são as principais razões para que isso ocorra.
O médico sustenta, entretanto, que nem sempre o mal-estar é um sinal de infecção alimentar. O contato com alimentos e temperos diferentes ao que se está acostumado também pode provocar os sintomas da enfermidade. “O excesso de alguns alimentos pode fazem com que pessoas sem infecção tenham diarreia e vômito, mas por uma questão de intolerância, não exatamente por contágio.” Segundo André, as viagens fazem com que as pessoas entrem em contato com germes comuns da região — mas contra os quais o organismo, por não estar acostumado, não tem defesa específica.
Saneamento
A aglomeração de pessoas também é um fator que influencia no aparecimento de problemas estomacais. Cidades litorâneas, com a visita de milhares de turistas, são os locais mais propícios a apresentarem condições insatisfatórias de saneamento básico — principal motivo para o aparecimento de problemas alimentares.
Tomar cuidado com a procedência da água (inclusive, do gelo) e da comida é uma das medidas que ajudam a evitar maiores problemas. Caroline Maria Lacerda, 23 anos, aprendeu bem o valor de prestar atenção às condições de higiene dos locais que escolhe para comer. Por duas vezes, a estudante sofreu com infecção alimentar. Da primeira vez, ela nem precisou ir longe. “Foi aqui em Brasília mesmo, em uma banquinha de cachorro-quente na rua”, conta. “O culpado foi o tubo de maionese em cima da mesa.” Na segunda vez que passou mal, Caroline foi vítima do queijo coalho assado na brasa, iguaria presente em várias praias no verão. O trauma mudou a rotina nas viagens: agora, só alimentos industrializados.
Lorena de Oliveira Elias, 18 anos, sabe bem o que é passar por essa agonia. Mais uma vez, a maionese foi a vilã. No caminho para a casa dos avós, em Belo Horizonte, a estudante e a família resolveram parar em um restaurante na estrada. “Engatei na mistura de batata, cenoura e maionese”, detalha. O resto da viagem foi seguido de dores de barriga e náuseas. Ao chegar ao destino, Lorena precisou fazer uma escala no hospital.
Ingredientes
Assim como aconteceu com Caroline e Lorena, a nutricionista Elisa Goulart alerta que quem se arrisca a consumir alimentos feitos com ingredientes “perigosos” está sujeito a sofrer com microorganismos patogênicos. Segundo ela, preparações que levam ovo ou com molho, quando levadas ao fogo e não consumidas, facilitam a proliferação de bactérias. “Depois de uma hora, a bactéria já se multiplicou cerca de dois milhões de vezes”, explica. Ela diz que há mais um motivo para redobrar as atenções: em grande parte dos casos, pode não ser tão fácil saber que o alimento está estragado, umas vez que as chamadas características organolépticas da comida (textura, cheiro, sabor e consistência) nem sempre são alteradas.
O também nutricionista Rodrigo Valim explica que não são só as refeições feitas fora de casa que apresentam perigos para a saúde. A forma como é feita a estocagem e a preparação dos alimentos merece atenção redobrada. “Dentro de casa, há um aumento de 27% da incidência de casos de infecção alimentar”, estima. Rodrigo ensina que os cuidados devem começar logo que as compras saem da sacola do supermercado. “Os alimentos crus devem ser lavados e higienizados, de preferência, com água sanitária”, ensina. “O vinagre é muito fraco para acabar com as bactérias.” Outro erro comum, segundo o nutricionista, é deixar a carne descongelar em cima da pia ou em locais abertos na cozinha. “O certo é colocar dentro da geladeira de um dia para o outro e depois terminar de descongelar com água corrente.”
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