Aryon Rodrigues: "existem mais de 200 línguas e só se ensina português"

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postado em 09/12/2012 07:30 / atualizado em 11/04/2013 16:10

Marcela Ulhoa


Há cerca de 50 anos, um pequeno grupo de jovens intelectuais chegava à recém-criada capital do país com um desafio sem igual. Em meio à terra vermelha de uma cidade em construção, tinham a missão de erguer os pilares de uma nova forma de pensar o ensino superior no país. Queriam não só criar uma universidade para Brasília, mas que ela fosse a melhor e mais importante da América Latina. Sonhavam que ela fosse livre, sem censuras e que integrasse as várias áreas do conhecimento. Para alguns dos cerca de 200 professores que participaram da criação da UnB, o sonho e o querer não podem ser conjugados no passado. Os jovens de 20 e poucos anos de outrora hoje são senhores na casa dos 80 anos que, por sorte, são incansáveis.

O Correio preparou uma série de quatro reportagens que traça o perfil de professores que chegaram à UnB ainda em 1962, a maioria a convite de Darcy Ribeiro, e que ainda hoje levam adiante a utopia de uma universidade em ebulição. O linguista Aryon Rodrigues, o artista plástico Glênio Bianchetti e o arquiteto Luis Humberto, cujas histórias são contadas nos três primeiros dias, até hoje atuam na instituição que ajudaram a erguer. Na última matéria da série, será mostrado o que fazem agora outros desses mestres, como o físico Roberto Salmeron; o arquiteto João Filgueiras Limas, o Lelé; e o matemático Marco Antônio Raupp, atual ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação. Eles são uns dos poucos que trazem mais do que a lembrança da genialidade do plano educacional de Anísio Teixeira, o vigor político de Darcy e a convivência com Oscar Niemeyer, que traçou alguns prédios da universidade. Cada um, em sua área de atuação, dá aulas, milita, faz palestras, pesquisa e sonha com um Brasil crítico e educado.



“Professorzinho, a equipe de reportagem chegou.” É assim, usando o diminutivo carinhoso, que a professora Ana Suelly Cabral anuncia a equipe do Correio àquele que considera o seu grande mestre e amigo: o linguista Aryon Dall’Ígna Rodrigues. Aos 87 anos, Aryon caminha com passos lentos marcados pelo tempo, mas o pisar firme é de quem cultiva forte a vontade de seguir, “enquanto tiver fôlego”, na busca pelo conhecimento. É no subsolo do ICC Sul da Universidade de Brasília (UnB), em uma pequena sala repleta de objetos indígenas, que o professor, com seus claros olhos azuis, conta um pouco da trajetória de mais de 70 anos dedicados ao estudo das línguas indígenas no Brasil. Paciente e tranquilo, ele esmiúça sua peculiar história com a UnB, aonde chegou em 1962, a convite de Darcy Ribeiro. Ainda hoje ativo, Aryon, que carregava o reconhecimento de professor emérito desde 1996, recebeu no fim de outubro a maior honraria acadêmica da instituição de ensino, o título de doutor honoris causa.

“Eu fui um dos cientistas que vieram para começar a discutir a criação da universidade, no começo dos anos 1960. Nessa época, eu já tinha voltado do meu doutorado na Alemanha e era professor de linguística e de etnografia do Brasil na Universidade Federal do Paraná”, conta. A ida para a UnB coincidiu com os primeiros rabiscos que davamforma ao sonho de Darcy Ribeiro de construir a mais importante universidade da América Latina na nova capital. Encarregado do planejamento da instituição de ensino, Darcy, então vice-diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (Inep), no Ministério da Educação, reuniu uma equipe de sua confiança para ditar as principais diretrizes. Ao linguista paranaense coube idealizar o curso tronco de letras brasileiras.

Desde o princípio da criação dos cursos, Aryon se opôs à separação dos cursos de letras e ciências humanas. “Como se uma coisa não tivesse nada a ver com outra”, critica. Ele conta que o projeto apresentado inicialmente pela UnB juntava as duas áreas do conhecimento, mas uma série de fatores levou ao modelo atual de separação dos campos, o que, para ele, é uma perda imensa.

Humildade
Passados 50 anos, apesar da aposentadoria compulsória, o professor é visto quase todos os dias nos corredores da universidade ou na sala do Laboratório de Línguas Indígenas (Lali), centro de pesquisa de pós-graduação criado por ele em 1999. O que omotiva a continuar depois de tanto tempo? “O gosto por esse trabalho que eu faço. Para mim, é uma satisfação.” Para a felicidade daqueles que o rodeiam, Aryon não para. Dá aulas, orienta projetos de pós-graudação e é responsável pela formação de uma nova geração de linguistas, como a sua pupilo, a professora Ana Suelly Arruda Câmara Cabral, do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas (LIP).

“O professor Aryon Dall’Ígna Rodrigues foi a pessoa mais importante na minha vida acadêmica. Porque eu tive outros excelentes professores, mas foi ele que realmente deu tudo de si parame formar e continua dando até hoje. É o meu grande mestre. Eu o considero uma sumidade, a maior competência em línguas indígenas no Brasil”, declara Ana Suelly. Apontada por Aryon como sendo a sua “equipe”, a professora é uma das principais responsáveis por passar os ensinamentos do mestre adiante. Apesar de trabalhar diretamente com o linguista há mais de 10 anos e compartilhar a autoria de alguns trabalhos e coordenação de projetos, Ana Suelly considera-se sua eterna aluna.

Entre as características mais louváveis do professor, a humildade é a primeira a aparecer na boca daqueles que convivem diariamente com ele. Os vários títulos acadêmicos, o reconhecimento internacional e as obras de referência estão longe de subir à cabeça de Aryon, que recebe o reconhecimento, em suas palavras, com “tranquilidade”. “O professor é uma pessoa de extrema sensibilidade, humanidade, talvez o homem mais humano que eu tenha conhecido”, elogia Ana Suelly. Ao vê-lo no alto de seus 87 anos, sua maior discípula tem um único desejo: saúde, para
que ele ainda viva muito. “A gente sem ele… Não só por nós, mas pelo papel político que ele tem no Brasil. De todos aqueles que estão representando poderes no âmbito das línguas indígenas, ninguém tem o seu conhecimento e o desprendimento de olhar para as políticas sem visar a interesses próprios. Ele está sempre olhando para a ciência e para os beneficiários, que são os índios.”

Acolhimento
Divorciado e pai de três filhos, o professor mora com um indígena do Xingu, que veio a Brasília para fazer mestrado no Lali. Faz quase um ano que Kaman, índio da etnia kalapalo, mora com Aryon. “Estou gostando muito. Ele não esconde que eu moro com ele, fala que eu não faço bagunça lá. Eu o considero meu segundo pai, porque ele me colocou na casa dele.” A maioria dos índios que saem de suas aldeias e chegam à UnB encontra dificuldade para se manter na cara capital. É por isso que Aryon já abrigou vários deles. A única coisa que o desagrada, entretanto, é o excesso de cuidado. “Tem gente que faz companhia, mas tem gente que quer tutelar. Aí eu não gosto”, diz o professor.

Como Kaman, muitos indígenas chegam ao Lali com o sonho de se tornarem cientistas e dominarem o conhecimento da morfologia, da fonologia e da sintaxe de suas línguas nativas. É o caso de Wary Kamaiurá Sabino, aluno de doutorado do laboratório. “O maior objetivo que nós temos, como indígenas, é que não se perca nossa língua. Graças a ele (Aryon), a gente aprendeu a escrever a língua indígena”, revela Wary.

A formação de cientistas indígenas é uma das principais bandeiras levantadas por Aryon, que anseia ver crescer em seu laboratório alunos e colegas como Kaman e Wary. “Infelizmente, muitos linguistas não gostam do nosso trabalho, têm o pensamento primário de que, se ensinarmos para os índios, o que vai sobrar para a gente? Querem usar o índio somente como informante e deter o conhecimento da língua indígena”, lamenta Aryon. Apesar dos entraves e dificuldades, ele continua lutando pelo espaço dos indígenas na universidade e é um dos principais fomentadores de projetos que defendem a inclusão das 200 línguas nativas nos currículos dos cursos de letras. Assim, acredita, o país poderá conhecer um pouco mais a sua própria diversidade cultural.

“Eu fui um dos cientistas que vieram para começar a discutir a criação da universidade, no começo dos anos 1960. Nessa época, eu já tinha voltado do meu doutorado na Alemanha e era professor de linguística e de etnografia do Brasil na Universidade Federal do Paraná”, conta. A ida para a UnB coincidiu com os primeiros rabiscos que davam forma ao sonho de Darcy Ribeiro de construir a mais importante universidade da América Latina na nova capital. Encarregado do planejamento da instituição de ensino, Darcy, então vice-diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (Inep), no Ministério da Educação, reuniu uma equipe de sua confiança para ditar as principais diretrizes. Ao linguista paranaense coube idealizar o curso-tronco de letras brasileiras.

Desde o princípio da criação dos cursos, Aryon se opôs à separação dos cursos de letras e ciências humanas. “Como se uma coisa não tivesse nada a ver com outra”, critica. Ele conta que o projeto apresentado inicialmente pela UnB juntava as duas áreas do conhecimento, mas uma série de fatores levou ao modelo atual de separação dos campos, o que, para ele, é uma perda imensa.

Luis Xavier de França/Esp. CB/D.A Press

Luis Xavier de França/Esp. CB/D.A Press

Luis Xavier de França/Esp. CB/D.A Press

Luis Xavier de França/Esp. CB/D.A Press

Marcelo Ferreira/CB

Emília Silberstein/Secom/UnB/Divulgação

 

Trajetória - Aryon Rodrigues:

1950: Gradua-se em letras clássicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)

1959: Termina o doutorado em linguística pela Universidade de Hamburgo, na Alemanha

1960: É professor de linguistica e de etnografia do Brasil na UFPR

1962: É chamado por Darcy Ribeiro para ser consultor do Instituto de Letras da UnB, cuja criação estava sendo estudada sob a coordenação do escritor Ciro dos Anjos

1963: Torna-se professor efetivo da UnB, após encerrar as obrigações com a UFPR

1964: Quatorze meses após a sua chegada à UnB, ocorre o golpe militar de 1964. Iniciam-se as repressões à Universidade, tida como subversiva pelo regime militar

1965: Em função das duras ações da ditadura militar, Aryon e demais professores da instituição se reunem decidem se demitir, como tentativa de salvar a UnBSão protocolados na Reitoria 225 pedidos de demissão. Terminado o aviso prévio, Aryon Rodrigues segue para o Uruguai, onde participa de cursos no Programa Interamericano de Linguistica

1967: Organiza o Programa de Pós-Graduação em Linguística do Museu Nacional do Rio de Janeiro e colabora, um ano depois, com Roberto Cardoso de Oliveira na criação do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social no mesmo museu

1973: Sai do museu e vai para a Unicamp, onde reorganiza a pós-graduação em linguística e se torna coordenador de Pós-Graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas

1977: É o primeiro coordenador do recém-criado Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp

1988: Reintegra-se à UnB como professor do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas (LIP)

1996: Ganha o título de professor emérito pela Universidade de Brasília

1999: Cria o Laboratório de Línguas Indígenas da UnB

2012: Recebe a maior honraria acadêmica da UnB: o título de doutor Honoris Causa

 

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