Ciência e Saúde

Vestígios cerâmicos encontrados no Amazonas têm até 1,6 mil anos

Pesquisa tenta identificar a diversidade de tradições da região do lago Tefé nos vestígios encontrados nos sítios arqueológicos

postado em 30/10/2015 13:59
Pesquisa tenta identificar a diversidade de tradições da região do lago Tefé nos vestígios encontrados nos sítios arqueológicos

Uma pesquisa arqueológica realizada na região do lago Tefé, no Amazonas, identificou que os vestígios cerâmicos encontrados na região datam entre 400 e 1.530 anos depois de Cristo. O trabalho, feito em parceria pelo Insituto Mamirauá e o Museu de Arqueologia e Etnografia da Universidade de São Paulo (USP), tenta identificar a diversidade da Tradição Polícroma da Amazônia nos vestígios encontrados nos sítios arqueológicos do local. A expectativa é de que as informações geradas pelo estudo sejam divulgadas à população até o próximo ano.

A pesquisadora Jaqueline Belletti, que lidera o estudo, afirma que havia apenas estimativas estabelecidas pelos especialistas dessas datas, por comparação do material encontrado na região com o material de outras partes da Amazônia. ;Hoje, sabemos que os materiais estiveram presentes no Lago Tefé desde 400 até 1.530 d.C., pelo menos. Isto quer dizer uma ocorrência de mais de mil anos", afirmou.

A Tradição Polícroma, de acordo com ela, é definida pelos arqueólogos como uma tecnologia, ou um modo de fazer cerâmicas das populações indígenas do passado. Algumas características são pintura vermelha e preta sobre argila branca e decorações plásticas, que alteram a superfície do pote. De acordo com Jaqueline, dois tipos de peças têm destaque nesse conjunto de vasos: "as urnas funerárias antropomorfas, que remetem a uma figura humana, e os vasos com flange mesial, que é uma espécie de expansão localizada próximo ao meio do vaso e que circula toda sua circunferência", afirmou.

Pesquisa tenta identificar a diversidade de tradições da região do lago Tefé nos vestígios encontrados nos sítios arqueológicos

Esse modo de fazer cerâmica já foi encontrado nas calhas dos rios Napo, Ucayali, Solimões, Japurá, Negro, Madeira e começo do baixo Amazonas. "Em cada uma dessas áreas, os arqueólogos encontram pequenas variações locais nessa tecnologia que são chamadas então de Fases. No médio Solimões e Japurá a cerâmica da Tradição Polícroma foi chamada de Fase Tefé", destaca.



Relações
Outro resultado importante, a partir das análises das cerâmicas, foi o indício de relação entre diferentes grupos culturais que ocupavam a região nesse período. No entanto, a morte e o deslocamento de populações causados pela invasão europeia levaram ao enfraquecimento e rompimento de muitas dessas redes.

O trabalho de pesquisa só têm sido possível graças à ajuda das populações locais, que indicam os locais onde já foram encontrados vestígios e outras informações relevantes para os especialistas. Tamanho avanço possibilitou a eles expandir a quantidade de sítios arqueológicos a serem analisados. Até hoje, mais de 14 sítios já foram registrados, além de 11 áreas de ocorrência por toda a região do Lago Tefé, que são locais onde foram encontrados materiais arqueológicos, como os líticos (pedra), ossos de fauna, carvões e amostras de solo.

Restauração
Durante o andamento do trabalho, em 2014, foram encontradas seis urnas funerárias da Tradição Polícroma, nas obras de construção de uma escola na comunidade Tauary, em Tefé. As peças estão em etapa final de restauração, sob a guarda do Instituto Mamirauá, na sede da instituição. Alguns materiais foram enviados para análise na USP, e devem retornar em breve para Tefé. Além dos vestígios cerâmicos, também estão sendo conduzidas análises dos solos, dos macrovestígios botânicos e de material lítico e faunístico, com parceria com outros pesquisadores. "Com as análises botânicas evidenciamos que, já em períodos antigos, palmeiras eram utilizadas pelas populações e que o milho também era de alguma forma consumido", completa a pesquisadora.

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