Introduzir leite e amendoim na dieta de crianças evita resistência a eles

Teste britânico feito com bebês de 3 meses reduziu em até 67% a chance de sensibilidade a esses alimentos

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postado em 19/05/2016 06:00

Diante da crescente preocupação dos pais com a alergia alimentar, cientistas estão descobrindo que se juntar ao “inimigo” pode ser a melhor estratégia. Pesquisas recentes indicam que a introdução, em pequenas doses, de leite de vaca, ovos e amendoim — os três principais alérgenos na primeira infância — diminui o risco de as crianças se tornarem sensíveis a esses ingredientes. Os especialistas, porém, lembram que as orientações alimentares dos pequenos devem ser feitas exclusivamente pelos pediatras que os atendem. “Esses trabalhos têm como objetivo seguir de guia para políticas públicas e consensos de sociedades médicas; não se trata de fazer recomendações diretas para os pais”, destaca Gideon Lack, pesquisador do Departamento de Alergia Pediátrica do King’s College London, no Reino Unido.

Lack coordenou um estudo da Agência de Padrões Alimentares (FSA, pela sigla em inglês) da Inglaterra feito com 1.303 bebês de 3 meses e que testou o potencial preventivo da introdução precoce de amendoim e ovos. As crianças foram examinadas quando completaram 1 ano e, depois, com 3. No fim, aquelas que receberam os alimentos precocemente tiveram 67% menos risco de desenvolver alergia alimentar quando comparadas às que só tomaram leite materno até os 6 meses.

No caso dos ovos, 1,4% dos pequenos expostos aos 3 meses ficou sensível ao alimento, percentual que subiu para 5,5% no caso dos alimentados exclusivamente com leite materno. O efeito foi maior em relação ao amendoim. Nenhuma das 310 crianças introduzidas precocemente ao alimento desenvolveu alergia. No outro grupo, 2,5% dos pequenos se tornaram sensíveis ao ingrediente. A ingestão precoce consistiu em uma colher e meia de pasta de amendoim semanalmente e um pequeno ovo cozido, também por semana.

“O resultado da análise aumenta o corpo de evidência de outros estudos que indicam que a introdução precoce de amendoim, principalmente, previne o desenvolvimento de alergia a ele”, diz Lack. “Nós ficamos extremamente contentes com esse resultado, pois precisamos encontrar formas de prevenir um problema que afeta uma grande quantidade de crianças de até 3 anos”, afirma. Ele destaca, porém, que o estudo seguiu normas de segurança e os bebês foram acompanhados de perto por médicos.

Outra observação do especialista é que os pais devem continuar a seguir as diretrizes governamentais. No Brasil, a recomendação do Ministério da Saúde é a alimentação exclusiva por leite materno até os 6 meses e, a partir daí, a introdução dos sólidos, incluindo os potencialmente alergênicos. Essa é a mesma diretriz da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Novas práticas
Também conhecido por desencadear alergias em crianças, o leite de vaca foi introduzido precocemente em um estudo da Universidade de McMaster, no Canadá, divulgado ontem na reunião Anual da Sociedade Torácica Americana. O trabalho incluiu dados de 1.421 bebês canadenses que receberam derivados do alimento antes de 1 ano de idade, sendo que, até os 6 meses, as crianças continuaram sendo amamentadas pelas mães. Na pesquisa, quantidades moderadas do leite de vaca foram oferecidas aos bebês de até 6 meses e de 7 a 12 meses.

Comparados aos grupos das mesmas faixas etárias que não foram expostos ao alimento, os percentuais de redução de sensibilização ao leite quando as crianças completaram 1 ano foram, respectivamente, 33% e 47%. “As implicações clínicas do nosso estudo são que a introdução precoce de alimentos alérgenos antes de 1 ano deve ser encorajada e ela é melhor do que evitar ingredientes para reduzir o risco de sensibilização alimentar”, disse, em nota, o principal autor do estudo, Maxweel Tran.

Outra pesquisa canadense, publicada no Jornal da Associação Médica Canadense, encontrou evidências de que introduzir alimentos alergênicos no primeiro ano de vida pode prevenir alergia. O trabalho concentrou-se no amendoim, um dos alimentos que mais desencadeiam reações nos pequenos e foi realizado com 640 crianças de 4 a 11 meses e com alto risco identificado de desenvolver sensibilidade ao ingrediente. “Essas crianças tinham eczema severo ou alergia a ovo, que são fatores de riso para desenvolver o problema”, esclarece Gerald Nepom, diretor da Rede de Tolerância Imunológica, organização responsável pelo estudo.
 
 
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