Entenda como a obesidade pode levar ao diabetes

A complicação metabólica se dá pela influência de hábitos insalubres, como a ingestão excessiva de gordura, na expressão do gene Igfbp2. Segundo estudo alemão, o efeitoi epigenético altera o metabolismo da glicose

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postado em 25/06/2016 06:00

A Organização Mundial da Saúde (OMS) projeta que, em 2025, aproximadamente 700 milhões de adultos e 75 milhões de crianças estarão obesos. No Brasil, os números reforçam o alerta feito pela agência das Nações Unidas para um futuro próximo: em levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do ano passado, 85 milhões de pessoas consultadas apresentavam sobrepeso e obesidade. Entre os riscos a que essas pessoas estão expostas, está o de diabetes, que, sem controle, pode levar a derrame, cegueira e infarto. Cientistas do Instituto Alemão de Nutrição Humana apostam na interação entre genes e o ambiente, área chamada de epigenética, para evitar a combinação das duas doenças e as consequentes complicações.

Algumas mudanças epigenéticas aumentam as chances de que pessoas desenvolvam doenças. No caso da obesidade, o gene em questão é o Igfbp2. Desde 2013, cientistas liderados por Annette Schürmann estudam esse pedacinho de molécula de DNA. Em sua mais recente descoberta, publicada na revista Human Molecular Genetics, o time demonstrou que alterações epigenéticas provocam distúrbios no metabolismo da glicose e na síntese de proteína ligada à produção de insulina — dois fatores associados ao diabetes tipo 2.

A equipe demonstrou, em experimento com ratos, como se dá esse processo. Primeiro, foram selecionadas cobaias que eram geneticamente idênticas, como se fossem gêmeas. Elas foram divididas em dois grupos, sendo que um recebeu uma dieta altamente gordurosa e o outro não, formando o grupo de controle. O que teve a alimentação alterada desenvolveu, em pouco tempo, a doença do fígado gorduroso. Em aproximadamente seis semanas, o Igfbp2 dessas cobaias apresentou alto nível de metilação, as marcas de alteração epigenética, e, ao mesmo tempo, reduziu-se a síntese da proteína ligada à produção de insulina.

Em seguida, os roedores apresentaram problemas no metabolismo da glicose. O que mais surpreendeu os cientistas veio em seguida. Ao analisar amostras de células do sangue de pessoas com obesidade mórbida e cujo metabolismo da glicose é alterado, eles detectaram a mesma modificação epigenética encontrada nos roedores. “Desde que a metilação do gene ocorra cedo, bem antes de se desenvolver o fígado gorduroso, seria concebível utilizar esse conhecimento para avaliar melhor o risco de doenças em jovens e adolescentes. Com soluções apropriadas, o problema pode ser prevenido a tempo”, declarou Annette Schürman, em comunicado sobre o estudo.

Marcas reversíveis

Diversas pesquisas têm apontado que a predisposição para a obesidade e a síndrome metabólica envolve fatores hereditários e, de certa forma, definitivos. Com outra perspectiva, as pesquisas em epigenética sugerem que as marcas deixadas nos genes durante a metilação são reversíveis. Além disso, existe a probabilidade de a doença nunca se manifestar em filhos de pais obesos, ou mesmo não ser transmitida às próximas gerações, caso o estilo de vida seja diferente daquele levado pelos pais, com alimentação saudável, redução do estresse e prática de atividades físicas, por exemplo.

Annette Schürmann também chama a atenção para o fato de que a descoberta das marcas epigenéticas, como as deixadas no gene Igfbp2, ajuda a identificar se pessoas com sobrepeso estão saudáveis. “É importante distinguir entre os obesos saudáveis e os obesos que desenvolvem resistência insulínica, diabetes tipo 2 e outras doenças secundárias. Para os últimos, precisamos de biomarcadores apropriados que predigam o risco de sofrimento de doenças a longo prazo. Isso nos dá a chance de interferir ainda na juventude e impedir a doença”, explicou a pesquisadora em entrevista ao Correio.

Complementando essa perspectiva, o endocrinologista membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) João Lindolfo Borges nota que o meio ambiente pode ser decisivo no despertar de doenças predispostas pela epigenética. “Existem mais de 200 genes ligados à obesidade, mas nenhum deles determina que uma pessoa vai desenvolver obesidade mórbida e outras doenças. Há fatores ambientais, genéticos e emocionais que facilitam a ocorrência dos distúrbios alimentares. Então, é importante avaliar as interações com o meio ambiente”, ressalta.

Segundo o médico, quando uma pessoa vive em uma família que tem predileção por comida gordurosa e marcas epigenéticas para a obesidade, o risco da doença aumenta, mas não se trata de uma sentença definitiva. “Se o indivíduo, por outro lado, tem ânimo para praticar exercícios físicos, as chances de adquirir a doença diminuem. O gene não muda da noite para o dia. Com o tempo e o estilo de vida, vêm benefícios ou prejuízos”, conclui.

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