Preconceito faz do país um dos piores para enfrentamento da hanseníase

A falta de informação e treinamento profissional também são dificultadores

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postado em 26/06/2016 14:43

Há 16 anos, líderes se reuniram na sede das Nações Unidas, nos EUA, para estabelecer um pacto, que ficou conhecido como Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), cuja meta era reduzir a pobreza no mundo. Esse acordo tem oito objetivos que deveriam ser cumpridos até dezembro de 2015; entre os quais, a eliminação da hanseníase. Com o prazo esgotado, o Brasil apresentou à comunidade internacional dois resultados embaraçosos: é o único país signatário do tratado que não conseguiu eliminar a doença e também o único que continua registrando novos casos a cada ano (Leia mais nesta página).

Buscando compreender quais as principais dificuldades enfrentadas no Brasil para acabar com a disseminação da hanseníase, pesquisadores do Instituto Lauro de Souza Lima (SP), da Faculdade de Medicina de Marília (SP), do Centro de Referência em Tuberculose e Hanseníase (MT) e da Universidade de Birmingham (Inglaterra) indicam um fator determinante para a permanência da infecção no país. Segundo eles, existe um desconhecimento sobre o que é a doença tanto entre os pacientes quanto entre os médicos. Detalhes dessa análise foram divulgados na revista Plos Neglected Tropical Diseases, assim como o alerta de que essa falta de informação é decisiva por retardar o diagnóstico, além de cultivar medo e preconceito.

Por meio de entrevista com 122 pacientes das instituições de referência em hanseníase no Brasil, os pesquisadores notaram que muitas pessoas sofrem durante anos com a hanseníase até procurar ajuda médica. Um dos motivos é que se trata de uma doença que pode ser confundida com alergias, micoses e outras complicações da pele (veja infográfico). De acordo com os dados levantados, 45,1% do total de entrevistados não buscaram um especialista por não terem considerado os sintomas sérios.

Praticamente todos os participantes, 121 (99,1%), disseram que esperaram pelo menos cinco anos para ir ao médico desde a aparição dos primeiros sinais da hanseníase. Entre os motivos, está o medo do isolamento social e da internação — o número de pacientes que suspeitavam estar com a doença e tardaram na busca por um médico por medo é 10 vezes maior do que o número de pacientes que demoraram, mas não tinham o mesmo receio.

Uma das explicações para esse receio são as antigas colônias de isolamento: pequenos vilarejos, com um centro hospitalar e moradias, criados para pessoas infectadas pelo bacilo de Hansen. Até as primeiras décadas do século 20, os infectados eram isoladas compulsoriamente em sanatórios, asilos e colônias, prática que começou a ser abolida na década de 1980. Segundo Artur Custódio, vice-coordenador nacional do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), das centenas de colônias construídas no Brasil, restam 30, que continuam servindo de abrigo a pacientes. Esses espaços são protegidos por resolução da ONU, aprovada no ano passado, que também estabelece indenização às vítimas da política de isolamento.

“Os atuais moradores são idosos, muitos sofrem de limitações causadas pelos anos em que a cura da doença era desconhecida. Eles criaram vínculos com os outros pacientes e passaram grande parte da vida nesses lugares”, diz Custódio, que critica tentativas de terceirização dos hospitais e venda das moradias. “Os governos deveriam investir na melhoria dos hospitais das antigas colônias, transformando em centros de saúde para reabilitação ou de atenção aos idosos”, sugere.

Impacto social

O fim do isolamento compulsório, no entanto, não impede que os pacientes temam a solidão social e, por isso, deixem de procurar ajuda médica.“Persiste esse medo. Ninguém quer se aproximar de um ‘leproso’ em casa ou no trabalho. Ainda há um conceito errôneo de que não existe cura para a doença e poucos sabem que, se o tratamento começar, a transmissão cessa”, diz Noêmi Galan, médica do Instituto Lauro de Souza Lima e coautora do estudo.

A médica ressalta que, após ser diagnosticada a hanseníase, o paciente se torna resistente a revelar a condição, inclusive, para pessoas com quem tem contato frequente. Além das consequências psicológicas, a postura pode até contribuir para a disseminação da doença, uma vez que existe o risco, mesmo baixo, de transmissão da enfermidade quando o tratamento não foi iniciado.

Criação de centros especializados, ensino e treinamento de profissionais de saúde, melhoria das condições de vida da população e investimento em pesquisas científicas estão entre as estratégias apontadas por especialistas para romper com os preconceitos em torno da hanseníase. Letícia Maria Eidt, assessora do Departamento de Hanseníase da Sociedade Brasileira de Dermatologia, reforça a necessidade de investir em informação para reverter o problema detectado pelo estudo conduzido pelas instituições brasileira e britânica.

“Tudo o que a gente desconhece causa medo. Por isso, é importante desmistificar a doença, mostrando que o isolamento e a discriminação não fazem parte do tratamento. Precisamos apresentar bem, e de forma descomplicada, vários aspectos da hanseníase para convencer o paciente a seguir o tratamento até o final, porque os remédios da poliquimioterapia não curam sozinhos”, defende.

99%
Dos pacientes entrevistados esperaram pelo menos cinco anos para ir ao médico depois que perceberam os primeiros sintomas da hanseníase
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