Cientista sugere ingestão de micronutrientes para tratar depressão

A abordagem polêmica é adotada por dois médicos brasileiros e, segundo estudos, pode reduzir as doses de medicações tradicionais

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postado em 03/07/2016 07:51 / atualizado em 03/07/2016 09:23

CB/D.A Press

“Oferecer a mesma prescrição de medicamentos para indivíduos diferentes é como dizer que todos calçam o mesmo número de sapato”, diz o engenheiro químico William Walsh, cientista norte-americano que defende o tratamento e a cura de doenças psiquiátricas pelo equilíbrio de micronutrientes no organismo. Não que Walsh seja contra a ingestão de drogas psiquiátricas. “Mas nem todos os pacientes precisam usá-las e muitos dos que necessitam poderiam se beneficiar com doses menores”, ressalta o cientista, criador de um protocolo de tratamento de doenças mentais baseado na influência de alimentos e de suplementação sobre a epigenética, processo que regula a atividade dos genes sem alterar o código de DNA.

Na América do Sul, apenas dois médicos estão aptos a aplicar o protocolo de Walsh: o neurologista Raimundo Santos, no Rio de Janeiro, e o psiquiatra Honório Roberto Yamaguti, de São Paulo. “A ciência exige que tenhamos mente aberta e estejamos abertos a novos conhecimentos, e muitos estudos têm apontado um caminho promissor para esse tipo de tratamento”, diz Yamaguti. Ele pretende levar a abordagem para o Sistema Único de Saúde (SUS). Por enquanto, os exames são feitos apenas em laboratórios dos Estados Unidos pelo valor médio de US$ 300.

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Com Carl Pfeiffer — indicado ao Prêmio Nobel por estudos em nutrigenômica e medicina molecular na década de 1980 —, Walsh listou um conjunto de sinais e sintomas que guiam a avaliação clínica. “Ao detectar o problema, pego o protocolo específico e introduzo nutrientes. Observo ao longo das semanas se o paciente responde e, se piorar, vou para o caminho oposto. Medicamentos psiquiátricos nunca perderão o seu lugar, nem durante esse procedimento. O papel deles em crises e em surtos é incontestável por agirem mais rápido para aliviar os sintomas do que os nutrientes. A importância deles é evidente, mas precisamos saber onde ela está”, diz Yamaguti.

A abordagem é polêmica e até perigosa, considera Antonio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). “Não existem recomendações internacionais que incluam essa estratégia como um tipo de tratamento. Também não há comprovação científica de que ela ofereça benefícios. Tudo isso pode ser achismo”, diz o psiquiatra. Segundo Emmanuel Fortes, terceiro vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), a estratégia não é incomum na medicina. “Médicos sempre usaram vitaminas D e C, e complexo B, em seus pacientes, o que não dispensa o tratamento clássico. Pode até acontecer de a pessoa diminuir as doses do medicamento, mas não há ainda correlação com os suplementos”, pondera Fortes, também coordenador da Câmara Técnica de Psiquiatria do CFM.

Instituto de Pesquisa Walsh (EUA)/Divulgação
Duas perguntas // William Walsh, presidente do Instituto de Pesquisa Walsh e criador do protocolo

Como começou o trabalho relacionando os micronutrientes com os distúrbios psiquiátricos?


Fui voluntário de um programa em uma prisão de segurança máxima em Illinois. Tentávamos reintegrar os condenados à sociedade e, com isso, tive contato com as famílias. Foi o que me levou a investigar as causas dos distúrbios de comportamento. Muitos criminosos vinham de realidades difíceis, mas outras vinham de ambientes saudáveis, com irmãos que nunca cometeram crimes. Os pais contaram que os filhos ainda pequenos mentiam e maltratavam animais. Duas famílias até tentaram exorcismo. Metade dos meus colegas voluntários era do Laboratório Nacional de Argonne, onde eu pesquisava combustíveis. Naquela época, depressão e esquizofrenia já eram associadas a desordens químicas no cérebro e começamos a questionar se o crime era apenas produto de experiências de vida.

Quais foram as primeiras conclusões?

Coletamos amostras de sangue, urina e tecidos de criminosos extremamente violentos. Em 1974, identificamos desequilíbrios de metais nos organismos de grupos mais violentos. Ampliamos os estudos e detectamos níveis anormais de zinco, cobre, ferro, cádmio, cromo, magnésio, cálcio, sódio, potássio, lítio e cobalto no sangue, urina e cabelos de criminosos violentos.

Depois, Carl Pfeiffer e eu estudamos mais de 30 mil pacientes com diagnósticos de doenças mentais e mais 15 mil com transtornos do comportamento. Isso rendeu milhões de análises laboratoriais sobre as concentrações de fatores bioquímicos no sangue, na urina e nos tecidos. Percebemos que, comparadas a pessoas saudáveis, os pacientes também tinham incidência aumentada de desequilíbrios químicos. Não achamos que isso seja coincidência.

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