Com nova técnica de análise, pesquisadores identificam 180 áreas no córtex

Quantidade é quase o dobro das apontadas em estudos anteriores

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postado em 21/07/2016 06:00

Matthew F. Glasser, David C. Van Essen/Divulgação
 

 

O órgão mais complexo — e também um dos mais misteriosos — existente nos seres vivos foi minuciosamente mapeado por cientistas americanos. Com diversas medições e auxílio de um software avançado, que detectou inúmeras “impressões digitais” do córtex, os pesquisadores apontaram 180 áreas no cérebro humano, quase o dobro de regiões vistas em trabalhos anteriores. O trabalho, divulgado na edição desta semana da revista especializada Nature, apresenta dados que devem auxiliar pesquisas futuras na área da neurociência e também procedimentos médicos, como cirurgias.

Atualizar o atlas cerebral é uma vontade antiga de grande parte dos pesquisadores da área. “Fiquei interessado nessa questão porque não estava satisfeito com o atual mapa cerebral do campo, feito por Brodmann, cerca de 100 anos atrás, e que é apenas um desenho esquemático 2D. Eu queria encontrar as áreas do cérebro relacionadas aos mesmos assuntos que estava estudando”, explica ao Correio Matthew Glasser, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade de Washington.

No experimento, os cientistas analisaram o cérebro de 210 jovens saudáveis, observados por meio de um software desenvolvido pela própria equipe de investigação, um aparelho que integra diferentes métodos de imagem por ressonância magnética. Sob o olhar minucioso da máquina, os voluntários realizavam uma série de tarefas, como assistir a vídeos e ler, além de serem submetidos a exames que avaliavam a atividade, a conectividade e a topografia (medição da espessura do córtex) do órgão. Como resultado, 180 áreas corticais específicas foram encontradas, sendo que apenas 97 delas já haviam sido vistas em estudos anteriores.

Além de todo o processo de busca, os investigadores analisaram um segundo grupo com outros 210 participantes saudáveis para a confirmação dos dados. Os autores destacam que a pesquisa rendeu grandes achados graças ao método adotado, bem mais minucioso que o utilizado em pesquisas anteriores. Nos outros estudos, os tecidos costumam ser observados em equipamentos de microscopia, o que, segundo Glasser, gerava imprecisões. “A situação é análoga à da astronomia, na qual telescópios terrestres produziam imagens relativamente obscuras do céu, até que houve o advento da óptica adaptativa e dos telescópios espaciais”, compara.

Avanços


Com os achados, o grupo acredita que muitos avanços na área podem ser esperados. “Atualmente, na neuroimagem, os investigadores não têm uma ideia muito boa de quais áreas corticais são ativadas em tarefas comportamentais. Um cientista pode encontrar uma ‘bolha’ de ativação em um único local, e seu colega pode fazer outro estudo e encontrar outra ‘bolha’ de ativação”, diz o autor.
Glasser também acredita que o atlas atualizado do cérebro pode auxiliar no cotidiano de consultórios e centros cirúrgicos. “Para a prática médica, esse mapa pode ajudar neurocirurgiões a determinar melhor as áreas que controlam o movimento ou a fala, por exemplo. Também será possível fazer verificações mais adequadas. Podemos usar uma máquina que trabalhe como um classificador, usando como base nossos dados para encontrar as áreas corticais”, prevê.

A convite da Nature, Thomas Yeo, professor de engenharia da computação da Universidade de Cingapura, e Simon Eickhoff, pesquisador do Departamento de Neurociência da Universidade de Dusseldorf, na Alemanha, analisaram o trabalho dos colegas americanos em um artigo publicado na própria revista científica. A dupla lembra que a divisão do córtex em diferentes áreas sempre foi uma tarefa difícil, pelo fato de cada local do cérebro “ser um quase infinito conjunto de características, incluindo densidade de proteínas receptoras para várias moléculas neurotransmissoras, conexões de longo alcance para outras partes do cérebro e especialização para computações neurais que apoiam certas funções”.

 

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