Inundação catastrófica que deu origem à Dinastia Xia existiu, diz pesquisa

O fenômeno ocorreu depois do imaginado, há cerca de 4 mil anos, e marcou o início da civilização moderna na região

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postado em 06/08/2016 07:00

O imperador Yu é o protagonista de um dos mais famosos feitos contados pela Ásia. Ele teria sido responsável por salvar a população quando uma grande enchente atingiu o território chinês. O cultivo de alimentos foi mantido graças às intervenções de dragagem criadas pelo herói para conter as águas do Rio Amarelo e desviá-las de volta para os seus canais. A história é tratada por muitos como mito, mas um estudo divulgado na última edição da revista americana Science traz provas de que a grande enchente da China pode mesmo ter ocorrido. E bem depois do que se imaginava.

A ideia da pesquisa surgiu durante um trabalho de campo em abril de 2007. Os cientistas realizavam buscas em um desfiladeiro quando, acidentalmente, encontraram um conjunto de sedimentos na região do Lago Jishi Gorge, integrado ao Rio Amarelo e localizado a 1.300 quilômetros de Pequim. “Especulamos que uma possível inundação ocorreu devido a uma ‘explosão’ do lago que arruinou um assentamento arqueológico localizado a 25 quilômetros dali”, explicou ao Correio Wu Qinglong, pesquisador da Universidade Nanjing Normal, na China, e um dos autores do estudo.

Em julho de 2008, os pesquisadores resolveram analisar a lama encontrada em Lajia, vilarejo supostamente invadido pela água, e perceberam que o material era muito semelhante aos sedimentos encontrados em Jishi Gorge. Também observaram que, pela intensidade da explosão, a estimativa é de que a inundação tenha ocorrido no período do grande dilúvio. Para comprovar esses dados, a equipe de estudiosos reuniu mais evidências arqueológicas encontradas no desfiladeiro e contou com o auxílio de pesquisadores de diferentes países na interpretação dos dados.

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Por meio das análises dos sedimentos, chegaram à conclusão de que uma grande enchente realmente ocorreu na região do Rio Amarelo, aumentando 38 metros acima do nível moderno, e que o evento catastrófico, o maior conhecido na Terra nos últimos 10 mil anos, pode ter sido gerado por um rompimento de lago. “Essa grande inundação é excepcional, diferente de outras resultantes de precipitação ou tempestades. Ela pode ter sido resultado de um deslizamento de terra em um lago, o que explicaria a particularidade do grande dilúvio e a raridade dele”, detalhou o autor.

Os cientistas também se surpreenderam com as datas indicadas em exames de radiação de carbono feitos em três ossos de crianças encontrados na região. “Nenhum trabalho sobre a cronologia desse evento havia sido feito até agora. Desde que ele foi citado em textos antigos chineses, acredita-se que o dilúvio ocorreu pouco antes do estabelecimento da Dinastia Xia, que se supõe ter tido início em 2.200 a.C.”, destacou Qinglong. “É difícil determinar quando as inundações antigas aconteceram, mas a datação por radiocarbono dos materiais encontrados em Lajia atrelada a catástrofes aponta para um período de cerca de 1.900 a.C.”, completou o autor.

Uso do metal

Para Alexander Kellner, professor titular do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o estudo traz informações que ajudam a entender como a civilização chinesa foi construída. “Esses dados mostram uma dinastia que pode ter começado bem mais tarde do que se imaginava. Em uma data que coincide com o período neolítico (pré-histórico) e a idade do bronze, quando o metal começou a ser usado”, explicou. “Esses dados contribuem para entendermos melhor como a evolução humana ocorreu especificamente nessa região do Rio Amarelo e como a cultura desse povo sofreu mudanças com o tempo.”
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