Parto precoce altera a qualidade do leite materno

Mães que não completam a gestação oferecem aos filhos prematuros um alimento carente de micronutrientes essenciais para o desenvolvimento do sistema imunológico deles, indica estudo dinamarquês

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postado em 16/08/2016 06:00

O leite materno é conhecido como um dos alimentos mais completos e essenciais para o início da vida humana, mas seu alto valor nutritivo pode sofrer mudanças de acordo com o tempo de gestação. Taxas mais altas de macronutrientes — como lipídios, carboidratos e proteínas — no leite de mães de prematuros eram conhecidas por médicos e estudiosos. Agora, um estudo dinamarquês detectou níveis baixos de micronutrientes, os metabólitos, no leite dessas mulheres. Esses compostos também interferem no desenvolvimento da criança, alerta a equipe em artigo divulgado recentemente na publicação científica Journal Nutrients.

Para a pesquisa, os autores desenvolveram uma metodologia capaz de detectar micronutrientes no leite de outras espécies, principalmente vacas. “Em seguida, por meio de colaboradores na Irlanda que tinham acesso a algumas amostras de leite materno de mães que deram à luz prematuramente, montamos esse estudo”, contou ao Correio Ulrik Kræmer Sundekilde, do Departamento de Ciência dos Alimentos da Universidade de Aarhus e um dos autores do estudo.

No experimento, foi analisado o conteúdo metabólito de amostras de leite de 45 mulheres — parte delas com filhos prematuros e outra que teve uma gestação completa — durante um período de 14 semanas após o parto. Constatou-se que o leite de mulheres que tiveram filhos antes do tempo tinha uma composição ainda mais distinta do que o das outras participantes. “Sabe-se que o leite materno de mães de prematuros é diferente, mas, até agora, apenas os macronutrientes tinham sido investigados. Nosso estudo descobriu que outros nutrientes de suma importância também são alterados”, detalhou o autor.

Hermínio de Paula Ramos, imunologista e alergista pediátrico da clínica AleRgria, em Brasília, observa que o estudo dinamarquês traz novos dados quanto a elementos essenciais para o desenvolvimento do bebê prematuro. “Entre os micronutrientes, estão aminoácidos essenciais, glutamatos, entre outros, que são muito importantes para a proteção do bebê porque influenciam em pontos importantes para o crescimento dele, como a formação do sistema imunológico do corpo”, detalhou.

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Os investigadores ainda não sabem a razão das composições distintas, mas levantam algumas hipóteses. “Nós acreditamos que o leite de mães com bebês prematuros (nascimento antes de 37 semanas de gestação) é diferente porque as glândulas mamárias dessas mulheres não estão prontas para produzi-lo completamente. Outra possibilidade é que, talvez, a natureza tenha ‘concebido’ esse leite materno de forma adaptada à situação prematura, um suplemento mais adequado para as necessidades nutricionais desses bebês”, detalhou Sundekilde.

Personalização

A análise também mostrou que, algumas semanas após o nascimento dos bebês, a composição do leite das mães de prematuros se tornou um pouco mais semelhante à das que tiveram os filhos no momento indicado. Ainda assim, os níveis de alguns micronutrientes essenciais permaneceram baixos. Diante da variabilidade de composições, os cientistas apostam que o maior ganho do estudo seja a possibilidade de personalizar o leite materno, o que poderia gerar um alimento ainda mais completo para cada recém-nascidos.

“Apesar de, na maioria das vezes, os níveis de macronutrientes serem mais altos no leite de mães de prematuros, pode ocorrer de algum composto estar em baixa e, quando isso acontece, realizamos alterações. Esse novo método nos permite analisar se isso também pode ser feito com relação ao conteúdo de micronutrientes. Sabemos que é tecnicamente possível, a maioria dos hospitais dinamarqueses tem o equipamento necessário, mas há uma necessidade significativa de mais pesquisas”, detalhou o autor.
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