Casal da Paraíba conta a rotina com a filha que nasceu com microcefalia

Falhas no apoio desde a gravidez dificultam o progresso de Maria Gabriela, vítima de uma infecção intrauterina cujos efeitos desafiam médicos e cientistas

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postado em 04/09/2016 08:01

Carlos Vieira/CB/D.A Press

Esperança é um município de 31 mil habitantes encravado no sertão paraibano. Diz a Wikipedia que, em 1860, foi erguida a primeira capela do local, numa tentativa de convencer Nossa Senhora a encerrar uma epidemia de cólera que se abateu sobre todo o Nordeste. Um século e meio depois, o flagelo é outro. No lugar do vibrião colérico, o Aedes aegypti é que não dá sossego. De 1º de janeiro a 8 de agosto, a Paraíba registrou 35.873 casos suspeitos de dengue, 15.634, de chikungunha e 3.907, de zika, todos eles causados pelo mosquito. Em 2015, o Aedes também esteve inclemente. Só de dengue, fez mais de 1,6 milhão de vítimas, número recorde nos registros históricos. De zika, não se sabe: doença, então desconhecida, não constava do sistema de notificação compulsória do Ministério da Saúde.

Por volta de julho, Maria Carolina Flor, 21 anos, foi picada. A esperancense, moradora da zona rural, a 10km do centro da cidade, começou a sentir dor de cabeça, febre e dor atrás dos olhos. O corpo ficou manchado de vermelho. No posto de saúde, recebeu o diagnóstico de uma enfermeira: virose. Seis meses depois, deu à luz Maria Gabriela. A criança nasceu com microcefalia.

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Maria Carolina não sabia, mas, quando o mosquito depositou o vírus zika em sua corrente sanguínea, ela estava grávida de três meses. Mãe de Gabriel, 2, não planejava um novo filho; por isso, havia procurado o Hospital Municipal de Esperança para colocar um dispositivo intrauterino. Porém, diz que até hoje aguarda o agendamento dos exames que precisam ser feitos antes do implante do DIU.

Na semana passada, ela, o marido, Joselito Alves, 27 anos, e as crianças viajaram a Brasília para participar do lançamento do livro Zika: do Sertão nordestino à ameaça global, da antropóloga Debora Diniz. Também vieram denunciar a violação de direitos que, na opinião do casal, começou quando a jovem não teve acesso ao anticonceptivo e continuou com a precariedade de infraestrutura no alto sertão. “O culpado de tudo isso é a negligência do governo. É a falta de esgoto, a falta de saneamento básico, ninguém olha a periferia. E o que acontece? A proliferação de mosquitos”, diz Joselito.

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