Antropóloga conta como médicos nordestinos identificaram efeitos do zika

Em livro, ela aponta falhas institucionais no enfrentamento à epidemia e relata as dificuldades vividas por famílias assoladas pela doença

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postado em 05/09/2016 06:00

Jhonatan Vieira/Esp. CB/D.A Press

Convidada para integrar um grupo de trabalho da Organização Pan-americana de Saúde em 2015, a antropóloga Debora Diniz, professora de bioética da Universidade de Brasília (UnB), pôde ter uma perspectiva externa da extensão da epidemia causada pelo vírus zika no Brasil. Assustada com o que começava a constatar — manipulação de números, como a diminuição do perímetro encefálico considerado normal no recém-nascido e a precariedade no registro de dados de microcefalia —, ela se deu conta de que o país enfrentava uma doença de causas e consequências desconhecidas.

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Debora também ficou impressionada com a maneira como a epidemia foi identificada: médicos nordestinos de beira de leito foram os primeiros a detectar e a descrever os efeitos do vírus. Depois de realizar o documentário Zika, um curta-metragem de 30 minutos, a pesquisadora decidiu escrever um livro. Em Zika — Do sertão nordestino à ameaça global, ela narra histórias da descoberta e acompanha o drama de um grupo de mães e crianças vítimas da doença.

Você questiona os números em relação à síndrome causada pelo zika em bebês e à maneira como o Brasil tratou esses números. Por quê?

Quando falamos que a epidemia diminuiu, não temos como fazer uma comparação histórica porque diminuímos o tamanho do perímetro encefálico. E qual o principal problema hoje? É que há crianças que não nascem com a microcefalia e que nascem com a síndrome. Falamos em microcefalia, mas é um erro, ela é um dos sinais da síndrome congênita de zika. Em todos há calcificação no cérebro, em muitos há problemas de visão, de audição e de malformação dos membros. Falamos em microcefalia porque é um sinal mais evidente. Hoje, a grande discussão é como voltar em todas essas crianças que não nasceram com o perímetro encefálico menor. Os estudos mostraram que essas crianças têm deficiências físicas, auditivas, intelectuais e motoras relacionadas ao zika.

Isso quer dizer que os números hoje não são verdadeiros?
Os números são difíceis de confiar. Durante todo o período da epidemia, alteramos o perímetro encefálico e não pudemos comparar com o início. Nem todas as crianças afetadas estão sob a vigilância porque estamos descobrindo os efeitos do zika no tempo presente. Considerávamos que decisivo era o tamanho da cabeça e, hoje, vemos que nem todas as crianças afetadas têm a cabeça pequena. São dois problemas: mudamos o tamanho do perímetro encefálico e consideramos que o importante era o tamanho da cabeça. Hoje, vimos que não é suficiente.

Por que decidiu escrever o livro depois de fazer o documentário Zika, sobre as mulheres e as crianças afetadas pela doença?
Quando fiz o documentário, vi que era a primeira vez que o Brasil estava no centro de atenções globais sob a ameaça de uma pandemia e que essa era uma história em que havia um jeito de fazer ciência que é muito brasileiro e nordestino. Havia também um conjunto grande de descobertas científicas feitas por médicos do sertão que não estavam na ciência dos números, nem na ciência internacional. Nesse momento, resolvi contar essa história de quem descobriu e como descobriu, e, repito, de uma maneira muito brasileira e muito nordestina.

O que é um jeito brasileiro de fazer ciência?
O treinamento oficial da ciência é um treinamento em que somos neutros e imparciais, muito embora a imparcialidade não exista. Então, ali (no Nordeste), encontrei personagens que estavam fazendo a ciência do zika em que não precisavam fingir esse lugar. Quando pergunto a Adriana (Melo) o que a fez fazer essa descoberta, ela diz: “eu sou espírita e tive uma iluminação”. Quando pergunto para Gúbio Soares, que fez a identificação do zika no Brasil, que fez o PCR (técnica de identificação da doença), ele diz que teve uma iluminação espiritual nove meses atrás. A Adriana fez a coleta do líquido amniótico e mandou para os melhores laboratórios do mundo. Gúbio fez o melhor teste de PCR que há no mundo. Ao mesmo tempo em que eles fazem a ciência reconhecida pelo mundo, também acreditam nesse mundo mágico e religioso e falam dele.

Você também fala de um jeito nordestino de proceder na ciência. O que isso significa?

Eles vivem um regime de isolamento tão grande diante do sul que todos têm muito medo de não serem ouvidos e serem passados para trás. Então, todos eles foram primeiro à imprensa, em vez dos canais oficiais da comunicação científica. E à imprensa comum. Não estou falando da imprensa científica. A imprensa comum teve um papel decisivo na difusão da descoberta científica. O que esses científicos nordestinos de beira de leito fizeram foi primeiro chamar os jornalistas da comunidade e dizer: “Fiz uma descoberta, aqui está ela”.

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