Corvos são capazes de fabricar ferramentas; veja vídeo

Espécie Corvus hawaiiensis modifica e utiliza gravetos para alcançar alimentos. Essa capacidade, extremamente rara, foi observada até hoje em menos de 1% dos gêneros animais. O habilidoso pássaro foi quase extinto e hoje vive apenas em cativeiro

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postado em 16/09/2016 06:00

Cheio de destreza, ele pisa sobre um graveto e começa a bicar o pedacinho de madeira até que fique a contento. Em seguida, leva, no bico, a ferramenta recém-construída para o tronco de uma árvore. Encontra um buraco e introduz a lança, até retirar de lá sua refeição. Extinto da vida selvagem e confinado em cativeiro, o corvo-havaiano (Corvus hawaiiensis) exibe essa habilidade cognitiva extremamente sofisticada, de acordo com um estudo publicado na revista Nature.

Até a década de 1960, o homem pensava ser o único ser capaz de fabricar ferramentas. Porém, depois que a primatologista Jane Goodall descobriu que os chimpanzés também manipulavam objetos com fins utilitários, constatou-se que outros animais, como os elefantes, são igualmente hábeis nesse sentido. O comportamento, porém, é extremamente raro. Os cientistas acreditam que menos de 1% de todos os gêneros existentes comportem alguma espécie que usa ferramentas. Fabricá-las é algo ainda mais excepcional.

O corvo é um dos animais mais inteligentes da natureza e, há 20 anos, uma equipe de pesquisadores anunciou, também na Nature, a descoberta de que o corvo-da-nova-caledônia (Corvus moneduloides) manipula gravetos para caçar insetos. Agora, o havaiano torna-se o segundo pássaro conhecido por fazer o mesmo. Christian Rutz, pesquisador da Universidade de St. Andrews, na Inglaterra, que liderou os estudos, acredita que pode haver anida mais seres capazes da proeza. Ele conta que existem cerca de 40 espécies de corvos no mundo, mas muitos ainda são um mistério para os cientistas, principalmente os que vivem em áreas remotas. “Por isso, achamos que outros, além do corvo-da-nova-caledônia, têm essa habilidade”, afirma.

A equipe do pesquisador foi atrás de espécies pouco exploradas pela ciência e chegou ao corvo-havaiano, conhecido localmente na ilha americana como alala. No fim do século passado, o pássaro desapareceu da vida selvagem — os poucos exemplares restantes foram levados para o Zoológico de San Diego, na expectativa de a espécie não se extinguir por completo. No Programa de Conservação de Aves Ameaçadas, ele foi estudado por Rutz e colaboradores. “Ocasionalmente, vimos pássaros usando gravetos nas nossas instalações, mas não pensamos muito a respeito”, contou, em nota, Bryce Masuda, diretor do programa e colíder do estudo.

 

 

 

Naturalmente
No projeto de pesquisa, os cientistas testaram 104 dos 109 exemplares do corvo. Os pássaros foram expostos a troncos que continham seis furos com alimentos dentro, mas, apenas com o bico, os animais não alcançavam a comida. Diante do problema, 78% dos bichos espontaneamente usaram gravetos para puxar o petisco, e vários deles chegaram a modificar o pedaço de madeira para torná-lo adequado à tarefa.

“Eles não precisaram ser treinados para isso, é algo que acontece naturalmente. Eles são extremamente habilidosos nisso e, nesse ponto, são bastante semelhantes aos corvos-da-nova-caledônia”, conta Rutz. O cientista destaca que as duas espécies se separaram de um ancestral comum há 11 milhões de anos, sugerindo que a habilidade emergiu de forma independente entre eles.

Para Sabine Tebbich, pesquisadora da Universidade de Viena e especialista em uso de ferramentas entre animais, um dos destaques do trabalho foi o fato de os cientistas terem estudado um grande número de espécimes, de idades variadas. “A habilidade de fabricar e usar ferramentas emerge na juventude. O trabalho mostra que ela independe da observação do que fazem os adultos. Ela surge naturalmente nos corvos jovens, sugerindo que a espécie é predisposta a esse comportamento”, comenta Tebbich, que não participou do estudo.

A melhor notícia dos pesquisadores é que, depois de 20 anos de recuperação, a população do corvo-havaiano está pronta para ser liberada novamente na natureza. “Estou confiante de que conseguiremos retirar essa espécie icônica da lista de animais perto da extinção”, disse, em nota, Douglas Myeres, presidente do Zoológico de San Diego.

 

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