Terapia com eletrochoque ainda é alvo de críticas de especialistas

Graças a estudos que apontam sua capacidade de amenizar sintomas de transtornos como a depressão, a eletroconvulsoterapia é defendida por muitos médicos. Hoje, a técnica é aplicada com o paciente anestesiado e sob efeito de relaxantes, mas é alvo de críticas

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postado em 02/10/2016 05:59 / atualizado em 03/10/2016 18:46

“Senhor McMurphy, pode me acompanhar?” Os dois minutos que se seguem a essa frase se tornaram um dos maiores emblemas da luta antimanicomial. Randle Patrick McMurphy, personagem vivido por Jack Nicholson no filme Um estranho no ninho, está internado em uma clínica psiquiátrica. Sem seu consentimento e sem sequer saber o que está prestes a acontecer, ele leva uma descarga elétrica na cabeça. O plano fechado concentra-se no rosto avermelhado, retorcido de dor e de uma revolta muda.

Quarenta anos se passaram desde a estreia do filme, baseado em uma experiência real. O antigo choque elétrico não foi desabilitado. Contudo, não se assemelha àquela prática desumana, que chegou a ser usada como instrumento de tortura. O nome, aliás, é outro. Hoje, os médicos preferem falar em eletroconvulsoterapia (ECT), tanto para dissociá-la de um passado nada glorioso quanto porque não é a eletricidade que produz os efeitos esperados, mas a convulsão que ela desencadeia. Feito com o paciente anestesiado e sedado, o tratamento também utiliza voltagens mais baixas e controladas.

Embora não se saiba exatamente o mecanismo de ação da ECT (leia na página ao lado), um número cada vez maior de estudos tem evidenciado a eficácia da técnica, principalmente no tratamento de quadros depressivos. Uma busca na plataforma PubMed, maior banco de dados mundiais de produção científica, mostra que, desde 1956, nunca se publicou tanto sobre a eletroconvulsoterapia quanto no ano passado. Foram 370 artigos contendo esse termo. Em 2016, de janeiro a setembro, houve 291 trabalhos envolvendo a ECT.

O interesse dos pesquisadores concentra-se principalmente nos casos mais graves, quando há, inclusive, risco de suicídio. Um desses estudos, conduzido pelo Royal College of Psychiatrists, da Inglaterra, envolveu 1.969 pacientes, dos quais 51,7% eram considerados “severamente doentes” devido a diferentes condições psiquiátricas, como depressão, bipolaridade e esquizofrenia. No fim do tratamento, 74,4% relataram que haviam melhorado muitíssimo (33,1%) ou muito (41,3%). Por outro lado, 6,8% não viram alteração no quadro, e quase 2% sentiram piora.

Sem milagre
A eletroconvulsoterapia, porém, não é milagrosa nem pode ser considerada o elixir da saúde mental. “Ela não resolve tudo, mas é uma ferramenta que, quando bem utilizada, pode ser muito importante”, diz o psiquiatra e pesquisador Moacyr Alexandro Rosa, diretor do Instituto de Pesquisas Avançadas em Neuroestimulação, em São Paulo, e vice-presidente da Associação Brasileira de Estimulação Cerebral (Abecer). “A ECT está mais indicada para casos intensos ou quando o paciente não tolera os medicamentos”, esclarece. De acordo com o médico, a eficácia depende do quadro — em episódios agudos, pode chegar a 90%. Já nos refratários, fica em torno de 60%.

Também não há garantia de efeitos duradouros, como constatou um estudo do Departamento de Psiquiatria do Hospital Universitário St. Patrick, em Dublin, publicado na revista Neuropsychopharmacology. Ao fazer a revisão da literatura sobre a técnica, os autores observaram que quase 40% dos pacientes de depressão aguda sofrem relapso nos seis primeiros meses, e cerca 50% ao fim do primeiro ano, quando não há prescrição de medicamentos ao término do tratamento. O uso de antidepressivos e antipsicóticos reduz esse risco, observaram.

“Depois que a pessoa melhora, tem uma manutenção, para diminuir a chance de recaída e de recidiva”, explica a psiquiatra Raquel Carvalho Mergulhão, do Instituto Castro e Santos, de Brasília. “O que os estudos mostram é que, se interromper a ECT e não fizer tratamento nenhum, a chance de recair é considerável. Mas se fizer a ECT e mantiver a medicação, essa chance já diminui bastante. Então, no tratamento pós-ECT, a manutenção pode ser tanto com antidepressivo associado ao lítio quanto com a própria eletroconvulsoterapia”, afirma a médica.

Críticas
O risco de relapso é uma das críticas que a psicóloga Semiramis Vedovatto, representante do Conselho Federal de Psicologia (CFP) no Conselho Nacional de Saúde (CNS) faz a esse tratamento, que considera invasivo, mesmo com os atenuantes da anestesia e da sedação. “Por mais que o procedimento esteja mais avançado, o CFP não vê com bons olhos a ECT. Os médicos prometem a melhora, mas é uma melhora de somente seis meses”, critica. “Ainda é um tratamento agressivo e invasivo; é um choque no seu corpo. Querem se livrar do sintoma, não querem tratar da causa. Temos de cuidar das pessoas, e não puni-las com eletroconvulsoterapia”, afirma.

A psicóloga destaca, ainda, a inacessibilidade do tratamento, que pode custar quase R$ 1 mil por sessão, sendo que o mínimo recomendado são seis sessões. A ECT não faz parte do rol de procedimentos custeados pelo Sistema Único de Saúde — há um pedido de inclusão na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), sobre o qual ainda não houve decisão. Segundo a Assessoria de Imprensa do Ministério da Saúde, o órgão aguarda informações adicionais a respeito da ECT para elaborar o parecer. Os planos de saúde também não cobrem o tratamento, embora decisões da Justiça em todo o país, incluindo no DF, venham obrigando seguradoras a custeá-lo.

Sim, ainda fazemos ECT e o método ajuda a salvar vidas

Quando se fala sobre Eletroconvulsoterapia (ECT), a primeira pergunta que passa pela cabeça da maioria das pessoas é “ainda fazem isso?”. Claro que esse questionamento sempre vem acompanhado de uma expressão de pânico pela lembrança de cenas de filmes como “Um estranho no ninho” ou novelas globais como “Amor à vida” em que a personagem Paloma Khoury, interpretada pela atriz Paolla Oliveira, é levada agressivamente e contra sua vontade para a sala de “eletrochoque”. Isso tudo após menos do que cinco minutos de conversa com uma psiquiatra. O horror desse tipo de cena reflete a forma como o cinema e a televisão costumam retratar a ECT, contribuindo para sedimentar uma imagem de punição e barbaridade na população. Essa visão distorcida é reforçada pelo mau uso da técnica, que foi muitas vezes utilizada por indivíduos inescrupulosos, como forma de castigo ou até mesmo tortura dentro e fora dos ambientes hospitalares.

Voltando à pergunta inicial: “ainda fazem ECT?”. A resposta é: sim, fazemos. A ECT é um método de tratamento médico regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e com indicações precisas para doenças psiquiátricas, inclusive, em gestantes, o que evidencia seu caráter seguro e eficaz. Criada na década de 1930 por neuropsiquiatras italianos, a ECT foi uma técnica terapêutica revolucionária numa época em que não existiam medicações ou qualquer tratamento específico para as patologias psiquiátricas. Com o advento dos medicamentos psicotrópicos, o uso deste método reduziu drasticamente, porém nunca deixou de ser utilizado ou pesquisado no meio médico. Atualmente, é feita com uma técnica mais acurada, utilizando medicações anestésicas e relaxantes musculares, para maior conforto do paciente. Não necessita de internação e a pessoa recebe alta após, aproximadamente, uma hora do procedimento. Ela sai da clínica acordada e caminhando normalmente. Além disso, é importante salientar que para a realização da ECT é preciso permissão do paciente, por meio de um termo de consentimento. Sem contar que são repassadas todas as orientações do tratamento e esclarecidas todas as dúvidas.

Mesmo com todos os resultados positivos e as mudanças de vida que o método proporciona aos pacientes, o preconceito, infelizmente, ainda priva muitas pessoas de terem acesso a um tratamento altamente eficaz e seguro. Poderíamos salvar mais vidas, se não fosse a falta de informação de qualidade. Mas com o avanço da tecnologia e a disseminação rápida de conteúdo, esperamos desestigmatizar a ECT e poder contribuir para a melhora de muitas pessoas.

Dra. Fernanda Coêlho Costa, médica psiquiatra com atuação em Eletroconvulsoterapia
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