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Animais aquáticos da Amazônia são mais ameaçados que os terrestres

A explicação, afirmam os autores, está no acesso mais fácil do homem ao rio, um dado que traz importantes lições para o presente

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postado em 15/10/2016 06:00

Vilhena Soares

Carlos Durigan/WCS/Divulgacao
 

 

A caça para o comércio de couro e peles foi uma das atividades que mais castigaram a fauna da Amazônia ao longo da história. Até ser totalmente proibida, nos anos 1970, representou a morte de milhares de animais, como onças, javalis e veados. No entanto, dados sobre o impacto dessas práticas continuam escassos. Essa lacuna começa a ser preenchida com um estudo publicado ontem na revista Science Advances por especialistas brasileiros e estrangeiros, no qual foram analisados registros sobre o comércio desses materiais na região.

O resultado mostra que, diferentemente do que muitos podem pensar, não foram as espécies mencionadas acima as mais prejudicadas. As que sofreram maior redução populacional foram as aquáticas, como jacarés, ariranhas e peixes-bois. A explicação, afirmam os autores, está no acesso mais fácil do homem ao rio, um dado que traz importantes lições para o presente. Afinal, se no passado os animais cujos habitats eram mais facilmente alcançados pelo homem eram os mais vulneráveis, a mesma lógica deve se manter hoje, devendo ser considerada pelas políticas de preservação.

Os especialistas utilizaram dados de registros de comércio portuário obtidos por um dos autores, André Antunes. “Quando fui fazer meu doutorado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus, corri atrás do histórico do uso de recursos naturais do Rio Purus, um dos afluentes do Amazonas. Nessa busca, descobri essa documentação, que teve seu acesso liberado por uma antiga família da região”, conta ao Correio o hoje pesquisador da Wildlife Conservation Society (WCS) no Brasil.

Antunes destaca que, apesar de trabalhosa, a análise do calhamaço de documentos rendeu informações riquíssimas. Para comparar a exploração de espécies aquáticas e terrestres, foram analisados o valor e a quantidade comercializada, dois dados que indicaram a abundância de cada animal em cada período. “Uma infinidade de peles e couros de animais passava por Manaus, e os registros sempre eram feitos, já que o comércio na época era legal. Uma vez taxado, ia para o registro”, explica o pesquisador.

Povoamento

As informações permitiram concluir que os animais aquáticos sofreram maior impacto, principalmente em duas épocas: entre 1930 e 1940 e em 1960. “Analisamos a extração das espécies e vimos que, nesses períodos, a produção das peles de animais aquáticos não chegou a 10%. Isso sugere que não havia mais espécies como a ariranha e o peixe-boi, por exemplo, que eram de grande procura por serem considerados materiais de luxo”, detalha Antunes. “Mas, quando olhamos a produção de espécies terrestres, percebemos que foi semelhante nos dois períodos, e alguns animais, como o veado-vermelho e o caititu, ainda tiveram uma produção maior”, completa.

Os autores do estudo acreditam que a diminuição de animais aquáticos se deve à densidade do povoamento nas margens do rio. “Utilizamos levantamentos feitos pelo IBGE e alguns estudos sobre caça que mostraram mais ou menos a distância que o caçador tinha que percorrer até chegar aos animais. Vimos que a maioria das habitações estava concentrada nas áreas alagáveis, com acesso fácil, feito por meio de canoas”, prossegue o autor.

Para Jader Marinho, professor do Departamento de Zoologia da Universidade de Brasília (UnB), o estudo mostra, por meio de um grande levantamento, informações que eram cogitadas em pesquisas da área. “Essas suspeitas já existiam, porque sabemos que o padrão de ocupação humana está muito ligado à distribuição de rios. A população se locomove por meio das vias fluviais porque é muito mais fácil ir de canoa do que abrir a floresta com o facão. Até o conhecimento científico é influenciado por isso. Temos mais dados de plantas e animais que vivem próximos aos corredores de acesso”, observa o especialista, que não participou do estudo.

 

Refúgio

Os cientistas também mostram que esse fator interfere no surgimento de áreas de refúgio, aquelas em que os animais ficam protegidos para se reproduzirem. Eles estimam que mais de 80% do habitat terrestre permaneciam protegidos. No meio aquático, esse índice caía para 50%. “Essas são áreas importantes, pois ajudam no repovoamento e na manutenção das espécies”, detalha Antunes. “Tivemos muito contato com caçadores da região durante nossas pesquisas, e, ao perguntar para eles as características da época, as informações também entraram em concordância com o impacto que observamos nas populações aquáticas”, acrescenta.

Os autores do estudo acreditam que os dados colhidos podem ajudar no desenvolvimento de estratégias de proteção da biodiversidade na Amazônia. “Essa compreensão da fauna pode sugerir diretrizes para lidar com a preservação. Queremos mostrar que precisamos manter o acesso reduzido. Se você abre uma estrada, por exemplo, ela vai fragmentar muito mais a área, e o sistema entrará em colapso. Já temos muitas regiões em que a expansão da agropecuária avançou demais. Precisamos tomar decisões políticas para impedir que isso ocorra”, defende Antunes.

 

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