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Pesquisa aponta mudança no comportamento antes mesmo de encontrar parceiro

Não é só depois de se casar que as pessoas adotam uma rotina mais tranquila. O simples fato de desejar se unir a alguém promove mudanças de postura, aponta pesquisa norte-americana

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postado em 23/10/2016 08:11 / atualizado em 22/10/2016 23:34

Vilhena Soares

“Casarás e amansarás”, determina um antigo provérbio. Pois o dito popular precisa de uma atualização, diz uma dupla de professoras da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos. Não que a relação entre matrimônio e uma vida mais tranquila não exista. É a ordem dos termos que está errada. Em um estudo publicado na revista especializada Journal of Marriage and Family, as autoras afirmam que, quanto maior a vontade de se unir a alguém, melhor é o comportamento de uma pessoa, com menos riscos de se envolver em atos delinquentes, como roubo e agressão. Em outras palavras, fica-se manso primeiro, e, depois, se casa.

As cientistas contam que se interessaram pelo tema após revisarem um estudo sobre o comportamento de risco de adolescentes. O trabalho mostrava que jovens com forte expectativa de casamento tinham uma probabilidade menor de usar drogas. “Eu me perguntei se eles também eram menos propensos a cometer atos delinquentes, especialmente porque sabemos que, quando as pessoas se casam, elas têm, em geral, uma tendência menor a comportamentos criminosos”, explica ao Correio Rachel Arocho, uma das autoras do estudo. “Pensei que poderia ser capaz de ver as diferenças mesmo antes de as pessoas se casarem”, completa.

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Na pesquisa, Arocho e sua colega, Claire Kamp Dush, analisaram informações da Pesquisa Longitudinal Nacional da Juventude, um trabalho com dados de 7.057 pessoas com idades entre 15 e 20 anos quando os dados foram coletados, em 2000 e 2001. Nesse levantamento, os participantes foram motivados a, entre outras coisas, estimar a probabilidade de eles estarem casados no prazo de cinco anos. Eles também foram indagados se haviam cometido atos delinquentes — que incluíam roubo, agressão pessoal, tráfico de drogas e destruição de propriedade.

Em 2000, os respondentes diziam haver, em média, 43% de chances de eles se casarem em cinco anos. Já entre os participantes que responderam ao questionário em 2001, esse índice médio foi maior, de 48%. As pesquisadoras notaram, então, que o número de jovens que diziam ter cometido alguma transgressão caía de um período para o outro. Ou seja, havia menos adolescentes delinquentes no grupo que tinha uma expectativa maior de matrimônio.

Compromisso
“Nosso trabalho sugere diferenças mensuráveis entre jovens que pensam que vão se casar logo e aqueles que não acreditam nisso”, observa Arocho. As pesquisadoras acreditam que a redução de atos delinquentes registrados pode ser influenciada pela necessidade de mudanças comportamentais diante da expectativa de matrimônio. “As pessoas que querem compromisso acreditam que precisam agir de determinada maneira para serem atraentes à pessoa com quem desejam se casar”, prossegue a autora.

Para Vladimir Melo, psicólogo e terapeuta familiar, a pesquisa mostra dados coerentes com o estágio da vida em que os participantes do estudo foram avaliados. “Como a análise foi feita com jovens, as expectativas de formar uma família representam uma mudança no estilo de vida. Existe também um resgate de valores, que é uma condição importante a ser passada para as crianças, por exemplo. Na terapia familiar, é o que chamamos de força centrípeta, que puxa a energia para o centro familiar, com estabilidade e dedicação muito maiores a ela”, analisa o especialista, que não participou do estudo.

Casada há apenas quatro meses, Daniela Cardoso, 25 anos, considera que a conclusão da pesquisa faz sentido. Segundo a administradora, tanto ela quanto o marido, Víctor Hugo Maciel, 26, tiveram mudanças de comportamento antes da união. “Eu e meu marido nunca fomos muito baladeiros, mas diminuímos muito o nosso lazer, porque queríamos juntar dinheiro para comprar um apartamento. Nossas prioridades mudaram, deixamos algumas coisas de lado, como visitar um restaurante, para começar a vida de casados. Abdicamos de certas coisas para dar início a um projeto juntos, o que valeu muito a pena”, conta.

Víctor Hugo concorda com a mulher. “Acho que é um processo de amadurecimento. Quando tomamos essa decisão, passamos a ter uma postura diferente. Nós não pensamos em ter filhos agora, mas acreditamos que isso possa ocorrer daqui a uns dois anos. E essa visão de construção de família já nos influencia”, avalia o advogado. E Daniela não vê o fenômeno como algo exclusivo do casal: “Participo de um grupo de noivas que compartilham conselhos sobre a preparação pra festa e todas dizem a mesma coisa, que pararam de viajar, por exemplo, para conseguir se casar do jeito que planejavam”.

Ainda em alta

As professoras da Universidade de Ohio acreditam que outra conclusão trazida pelo estudo é de que os jovens, pelo menos os norte-americanos, continuam valorizando o casamento. “O matrimônio mudou muito ao longo dos últimos 30, 40 anos, mas a maioria dos jovens ainda diz que espera se casar. Surpreendeu perceber que eles ainda se importam com o matrimônio, e aqueles com maiores expectativas já agem de forma diferente”, diz Arocho.

Melo observa algo parecido na nova geração brasileira. Apesar de terem um novo olhar para a união, os jovens brasileiros continuam a valorizá-la. “Muitas pessoas, dificilmente, vão ter apenas um casamento na vida, porque elas têm mais liberdade de escolha e veem esse compromisso de outra forma, com mais autonomia. Antes, a pressão familiar e social era muito maior e, agora, elas têm a possibilidade de reconstruir a vida”, observa o terapeuta. “Estudos como esse são importantes para entender os fenômenos pelos quais passamos e ampliar nosso entendimento, sobretudo por vivermos em uma época de diversidade cada vez maior.”

O trabalho das autoras terá continuidade. “Pretendemos estudar as expectativas conjugais usando dados diferentes e focando em outras amostras, como os casais que já vivem juntos. Quero saber mais sobre como essas expectativas são formadas e que outros comportamentos elas influenciam”, adianta Arocho.

“Nosso trabalho sugere diferenças mensuráveis entre jovens que pensam que vão se casar logo e aqueles que não acreditam nisso”
Rachel Arocho, coautora do estudo

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