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Novo anticorpo neutraliza vírus da zika em camundongos

Cientistas do Instituto Butantan identificam cinco remédios comercializados para outras doenças e que conseguem matar o vírus. Substância criada em universidade dos EUA evita a microcefalia em fetos de ratos contaminados

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postado em 07/11/2016 18:46 / atualizado em 08/11/2016 15:58

Paloma Oliveto

Há exatamente um ano, o Ministério da Saúde reconhecia uma relação entre o número de recém-nascidos com microcefalia e o zika. Rapidamente, o mundo aprendeu que não se tratava de um problema brasileiro. A ameça do vírus era global. Teve início, então, uma corrida por medicamentos e vacinas que enfrentassem uma doença sobre a qual ainda se sabe pouco, considerando a complexidade de suas consequências. Ontem, dois importantes anúncios apontaram para o desenvolvimento de drogas eficazes contra o zika. Um tem como foco o extermínio do micro-organismo dentro do corpo. Outro pode evitar um dos efeitos mais cruéis da infecção: a microcefalia.

 

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No Instituto Butantan, de São Paulo, o Grupo de Ação Rápida para Doenças Emergentes (Garde) identificou cinco remédios com potencial de combater o zika. “A situação da doença está tão terrível que precisamos encontrar formas inteligentes de desenvolver um composto. A pesquisa de moléculas já existentes no mercado encurta esse tempo”, conta o biólogo brasiliense Lucio Holanda Gondim de Freitas-Junior, pesquisador do Garde. Utilizando um modelo de células humanas, os cientistas brasileiros e franceses que integram o time começaram testando 725 medicamentos. “Nós infectávamos as células e víamos se os compostos conseguiam matar o vírus sem matar a célula”, explica Freitas Junior. Vinte e nove se mostraram promissores.

Essas drogas foram, então, avaliadas pelo químico médico Gilles Courtemanche, diretor do Instituto de Pesquisa Tecnológica Bioaster, na França. Ele reduziu ainda mais o número, chegando a cinco medicamentos que, originalmente, foram desenvolvidos para o tratamento de câncer, infecções bacterianas e virais, e enjoo provocado pela quimioterapia. Esse último, o palonosetron, é o que mais entusiasma o microbiólogo brasiliense. “Ele tem capacidade de romper a barreira sangue-cérebro, e não são todas as moléculas que fazem isso”, diz. Como o zika provoca alterações neurológicas, essa é uma característica importante para uma droga que vise combater a doença.

De acordo com Freitas-Junior, a partir de agora, há duas linhas de pesquisa para explorar o potencial dessas moléculas em humanos. Uma delas é o próprio ensaio clínico. “Como são remédios que já tiveram a segurança testada e existem no mercado, é possível começar os testes em humanos, inclusive em grávidas”, diz. A outra possibilidade é partir para o melhoramento dos compostos a fim de adaptá-los às especificidades do zika. Isso está sendo feito com o palonosetron, explica o cientista, especialista no desenvolvimento de tratamento para doenças negligenciadas. O resultado do trabalho do grupo foi publicado na F1000 Research, uma plataforma on-line que pode ser acessada de graça por pesquisadores do mundo inteiro.

Linhagens neutralizadas

Outro importante anúncio foi feito ontem na publicação on-line da revista Nature por cientistas da Universidade de Washington, nos Estados Unidos. Em ratos, eles conseguiram evitar a microcefalia, um dos componentes da síndrome neurológica associada ao zika. Na pesquisa, a equipe, chefiada por Michael Diamond, do Departamento de Medicina, Microbiologia Molecular, Patologia e Imunologia da instituição, isolou células B, que integram o sistema imunológico, da amostra de pessoas infectadas pelo vírus, incluindo pacientes brasileiros, da Paraíba.

Em resposta à infecção, o organismo desses indivíduos produziu alguns anticorpos, que foram isolados pelos cientistas. O mais promissor, chamado ZIKV-117, depois de sintetizado em laboratório, foi capaz de neutralizar todas as linhagens do vírus, procedentes da África, da Ásia e da América (no caso, o Brasil). Uma das linhas do estudo mostrou que esse agente imunológico pode tratar a infecção ativa. Machos que receberam uma dose única do ZIKV-117 até cinco dias após serem infectados tinham mais probabilidade de sobreviver que aqueles do grupo de controle.

Em outro experimento, os cientistas aplicaram o anticorpo em fêmeas grávidas antes ou depois da infecção. Nos dois casos, não só a carga viral na mãe e no feto foi reduzida, como o vírus provocou menos danos à placenta e ao feto. Diferentemente das cobaias do grupo de controle, as placentas das que receberam tratamento estavam normais e saudáveis. Sabe-se que um dos mecanismos pelos quais o zika provoca morte fetal e microcefalia é justamente danificando esse órgão. Os cientistas afirmaram que não viram qualquer alteração nos vasos sanguíneos dos fetos, nem sinais de afinamento placentário ou de qualquer outra restrição de crescimento nos ratos cujas mães receberam o anticorpo.

Isso indica que, ao menos em modelos animais, o ZIKV-117 evita que o vírus ultrapasse a barreira da placenta. “Esse é o primeiro antiviral que funcionou no sentido de proteger fetos em desenvolvimento do vírus zika”, conta Diamond. “É a prova de que se pode tratar a doença durante a gestação e que já temos um anticorpo humano que faz isso, ao menos em ratos”, diz. Como o ZIKV-117 evitou problemas no sistema nervoso central, além da microcefalia, ele tem o potencial de evitar outros sintomas neurológicos da doença, que também pode provocar problemas de visão, audição e motores, entre outros. Diamond ressalta que, nos ratos adultos, o anticorpo reverteu danos cerebrais decorrentes da infecção.

Antes de o agente imunológico ser testado em humanos, é preciso repetir a pesquisa em outros modelos animais. “É um trabalho inovador não só no controle da doença, mas para evitar a má-formação fetal”, avalia a professora da Universidade Federal do Pará Helena Bicudo, consultora do Comitê de Arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). “O que é muito interessante é que o anticorpo conseguiu neutralizar amplamente a infecção em todas as linhagens do vírus testada, sendo duas estirpes africanas, duas asiáticas e uma brasileira”, destaca. “Contudo, são necessários mais testes. Esse é experimental e, só depois que se fizer em humanos, se poderá criar um medicamento ou uma vacina a partir dele”, lembra.


Como são remédios que já tiveram a segurança testada e existem no mercado, é possível começar os testes em humanos, inclusive em grávidas”
Lucio Holanda Gondim de Freitas-Junior, biólogo brasiliense e integrante do estudo do Instituto Butantan.

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