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Testes práticos reduzem efeitos do estresse e da ansiedade na memória

Técnica consiste em usar métodos que forçam o estudante a resgatar as informações que foram estudadas de forma tradicional, como por meio das aulas e livros didáticos

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postado em 25/11/2016 06:00 / atualizado em 25/11/2016 00:49

Victor Correia*

Tufts University/Kevin Jiang
 

 

É comum uma pessoa não conseguir lembrar informações em momentos de ansiedade e de estresse, como o “branco” que insiste em atrapalhar a vida dos estudantes. Mais de uma década de investigação, iniciada com um estudo publicado em 2006 na revista Learning & Memory, criou um forte consenso entre cientistas de que o esgotamento emocional agudo interfere na recuperação de memórias. Pesquisadores da Tufts University, nos Estados Unidos, demonstraram, porém, que a adoção de testes práticos para examinar o conteúdo aprendido, além de ajudar a memorizar mais informações, pode diminuir os efeitos do estresse.

 

A técnica é chamada de retrieval practice — algo como prática de recuperação, em tradução livre — e consiste em usar métodos que forçam o estudante a resgatar as informações que foram estudadas de forma tradicional, como por meio das aulas e livros didáticos. A experiência é considerada um dos modos mais eficientes de gravar informações na memória, armazenadas no cérebro a partir de conexões entre os neurônios. Relembrar os dados realizando testes de conhecimento, por exemplo, cria mais ligações, mais caminhos a partir dos quais o conteúdo gravado pode ser acessado, afirmam os autores do estudo, publicado nesta sexta-feira (25/11) na revista Science.

 

“Geralmente, pessoas sob estresse são menos efetivas em recuperar informações da memória. Nós mostramos pela primeira vez que a técnica de aprendizado certa — testes práticos, neste caso — resulta em memórias tão fortes que, mesmo sob níveis altos de estresse, os participantes ainda foram capazes de acessar”, relata Ayanna Thomas, diretora do programa de graduação em Psicologia na Tufts.

 

Memorização

Os testes foram realizados com 120 participantes, todos estudantes. Os pesquisadores pediram que eles memorizassem um conjunto de 30 palavras e imagens, exibidas durante alguns segundos, uma de cada vez, em um computador. Os voluntários foram então divididos em dois grupos. Um deles foi submetido a testes práticos de memória cronometrados, nos quais os participantes tentavam se lembrar do maior número de itens possível. O outro grupo simplesmente viu os itens na tela do computador novamente.

 

Após um período de 24 horas, metade de cada grupo passou por um episódio previamente programado para induzir os participantes à situação de estresse. Escolhidos aleatoriamente, parte dos voluntários teve de fazer um discurso inesperado, com duração máxima de cinco minutos, e, em seguida, resolver problemas matemáticos diante de dois juízes e de três colegas, além de uma câmera de vídeo. Os estudantes tiveram ainda de fazer dois testes de memória — um durante o evento estressante e outro, 20 minutos depois, período no qual o cortisol, hormônio liberado pelo estresse, está em seu pico na corrente sanguínea. Os participantes que não passaram pelo estresse realizaram os testes de memória durante e após uma tarefa simples cronometrada.

 

Os participantes em situação de estresse, que estudaram a partir dos testes práticos, conseguiram se lembrar, em média, de 11 itens do conjunto de 30 imagens e palavras, comparado a 10 itens dos que não sofreram estresse. Voluntários que apenas revisaram o conteúdo se recordaram de menos elementos, no geral: uma média de sete para os que foram estressados e nove para os que não passaram pela experiência do discurso e do teste de matemática.

 

“Mesmo que pesquisas anteriores tenham demonstrado que o uso de testes práticos é uma das melhores estratégias de aprendizado que existem, nós ainda ficamos surpresos com a sua eficiência em indivíduos estressados. Foi como se o estresse não tivesse efeito nas suas memórias”, conta Amy Smith, estudante de pós-graduação na Tufts e uma das autoras do estudo. “Ser forçado a recuperar informações da memória repetidas vezes tem um forte efeito na retenção de memória a longo prazo e parece ter grandes benefícios em situações muito estressantes”, acrescenta.

 

Apesar de terem usado um método experimentalmente comprovado de indução de estresse, e medido a reação dos participantes por meio de monitores de frequência cardíaca e questionários padrões, os pesquisadores destacam que a reação ao estresse varia para cada pessoa. A equipe está participando agora de estudos para replicar e expandir suas descobertas. Um dos objetivos, por exemplo, é definir se os testes práticos podem ter o mesmo benefício em situações complexas, como no aprendizado de novas línguas, ou em episódios estressantes fora de ambientes controlados. 

 

* Estagiário sob supervisão de Ana Paula Macedo 

 

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