Relatório mostra que autismo cresce no mundo

Tomando como referência os Estados Unidos, registros aumentaram 10 vezes desde a década de 1980

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 18/12/2016 08:00

Doha — Era o ano de 1933 e o casal Beamon e Mary Triplett, da cidade norte-americana de Forest, no Mississipi, ganhou seu primeiro filho, um menino louro e rechonchudo batizado de David. A alegria de ter um bebê, porém, misturou-se à preocupação com o comportamento da criança, que desde cedo se mostrou muito diferente das demais. David não interagia com os pais. Aparentava ter pouco ou nenhum interesse pela família. Fechado em seu mundo particular, o menino, porém, dava sinais de genialidade nas artes e nos números. Fazia cálculos complicados de cabeça e parecia sempre estar contando alguma coisa. Na pequena cidade de 3 mil habitantes, o garotinho se tornou uma espécie de celebridade.

Decididos a descobrir o que tinha o filho, os Triplett procuraram o psiquiatra infantil austríaco Leo Kanner, que atendia em Baltimore. Tomando emprestado um termo que vem do grego — autos, ou ego —, o médico definiu David como o primeiro caso de autismo já diagnosticado. Em 1943, ele publicou um artigo descrevendo 11 crianças com o transtorno. Nas palavras de Kanner, elas tinham em comum “um isolamento extremo desde o início da vida”.

Já se passaram 73 anos desde a publicação, e a medicina ainda não desvendou o autismo. O que se sabe é que esse transtorno — na verdade, um conjunto de distúrbios com características semelhantes, e que têm no isolamento social um dos principais sinais — está aumentando. Se, na década de 1940, a literatura científica registrava apenas 11 casos conhecidos (evidentemente havia mais, contudo não diagnosticados), hoje acredita-se que existam 52 milhões pessoas com autismo em todo o mundo. Um número que deve ser muito maior, pois países e regiões extremamente populosos, como a Índia e a África subsaariana, não têm estudos epidemiológicos sobre o transtorno, alerta o psiquiatra Kerim Munir, professor da Faculdade de Medicina de Harvard e diretor do Centro para Autismo e Distúrbios Associados do Hospital Infantil de Boston.

Munir é autor de um relatório apresentado no Simpósio Mundial de Inovação em Saúde (Wish), da Fundação Qatar, que ocorreu no fim de novembro, em Doha. Ele sustenta que, tomando como exemplo os Estados Unidos, que têm registros organizados de autismo desde a década de 1980, pode-se inferir que o número de casos aumentou mais de 10 vezes nas últimas três décadas. O médico insiste na necessidade de se investigar melhor as causas e os tratamentos para o transtorno que, somente nos EUA, custa US$ 2,2 milhões por paciente, ao longo da vida. Esse impacto econômico considera apenas gastos com os cuidados — ao se levar em conta também as perdas associadas à produtividade, o investimento total norte-americano foi de US$ 268 bilhões em 2015, valor que deve subir para US$ 461 bilhões em 2025, caso a tendência de aumento de casos se mantenha.


O custo mais alto, porém, é o emocional, destaca Munir. “Essa condição afeta na qualidade de vida e na produtividade dos pacientes e de suas famílias. Os cuidadores costumam ter mais casos de ansiedade e depressão, além de, muitas vezes, precisarem abandonar o trabalho para passar mais tempo ao lado dos filhos”, destaca. “Existem imensos vazios em relação a tratamentos efetivos e também nos estudos epidemiológicos que investigam as causas e prevalências da condição. Nós lutamos para fornecer suporte adequado às famílias, para garantir que crianças com autismo tenham acesso à educação e aos serviços públicos”, observa Lord Ara Darzi, do instituto de Inovação em Saúde do Imperial College London, coautor do relatório.

* A repórter viajou a convite da Qatar Foundation

A matéria completa está disponível aqui, para assinantes. Para assinar, clique aqui
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.