Cientistas canadenses criam ratos que não se viciam em cocaína

Ratos comuns quase sempre iam para a gaiola associada com a memória da droga, enquanto os novos exibiam comportamento inalterado

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postado em 13/02/2017 17:18 / atualizado em 14/02/2017 11:28

UBC/Divulgação

Pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, criaram ratos geneticamente modificados que não ficam viciados em cocaína. O estudo amplia as evidências de que o uso abusivo de drogas tem um forte componente genético e bioquímico, não sendo simplesmente uma questão de “mau julgamento”. No entanto, os pesquisadores ainda precisarão de muitos anos de estudo até transformar a abordagem em um tratamento para seres humanos. O artigo foi publicado na edição desta semana na revista Nature Neuroscience.

 

Os ratos usados na pesquisa foram modificados para apresentar níveis mais altos de uma proteína chamada caderina, que, no cérebro, ajuda a fortalecer as sinapses (conexões) entre os neurônios, ou seja, os espaços que os impulsos elétricos devem percorrer para realizar qualquer ação controlada pelo cérebro — respirar, andar, aprender uma nova tarefa ou lembrar algo. 

 

Já que aprender sobre o prazer de uma droga estimulante requer um fortalecimento de certas sinapses, o grupo de pesquisas liderado pela professora Shernaz Bamji pensou que uma quantidade maior de caderina no sistema de recompensa do cérebro faria com que os ratos tivessem uma disposição maior para o vício em cocaína. Mas, surpreendentemente, ela e colaboradores descobriram, na verdade, o resultado oposto.

 

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Para verificar o grau de dependência dos animais, a equipe de Bamji injetou cocaína neles instantes antes de os colocarem em um compartimento muito “decorado” dentro de uma gaiola de três “quartos”. Assim, os roedores associaram a droga com aquele ambiente. Depois de vários dias, os ratos eram colocados na gaiola e podiam explorar livremente os três espaços.

 

Os ratos não alterados e que receberam a droga, tendiam a restringir a exploração ao ambiente decorado e associado à droga, na "esperança" de que fosse o ambiente que lhes desse novamente a sensação do uso da cocaína. Já os animais com maior quantidade de caderina no cérebro dividiam o tempo entre os três compartimentos de forma igual. Segundo os cientistas, isso indica que os bichos modificados geneticamente não formaram memórias tão intensas da droga.

 

No vídeo abaixo, é possível notar a diferença de comportamento entre um rato viciado, mostrado primeiro, e um geneticamente alterado:

 

 

Análise do tecido cerebral

 

Para entender o resultado inesperado, os pesquisadores analisaram o tecido cerebral dos animais e descobriram que a caderina altera a localização de um receptor neuroquímico. Sem o receptor no lugar certo, é difícil para um neurônio receber o sinal dos outros. Então, as sinapses não são fortalecidas, e as memórias prazerosas não se fixam. “Prevenindo o fortalecimento das sinapses, nós impedimos que os ratos mutantes aprendessem a memória da cocaína e, assim, evitamos o vício”, afirma, em um comunicado, Andrea Globa, uma das autoras da pesquisa.

 

A descoberta oferece uma explicação para estudos anteriores segundo os quais pessoas com problemas de abuso de substâncias químicas tendem a ter mais mutações genéticas associadas à caderina e à adesão celular. Pesquisas como essa podem levar a uma confiança maior na hora de prever quais pessoas têm mais vulnerabilidade às drogas e, assim, permitir que elas se previnam com base nesse conhecimento.

 

No entanto, aumentar a caderina como tratamento contra a dependência química em humanos pode ser perigoso. Às vezes, é importante fortalecer as sinapses, mesmo no sistema de recompensa do cérebro. “A plasticidade permite o corte de alguns caminhos neurais e a formação de outros, permitindo que o cérebro se adapte e aprenda. Idealmente, nós teríamos que achar uma molécula para bloquear a formação de um prazer induzido por droga, sem interferir na habilidade de lembrar coisas importantes”, diz Bamji.

 

*Estagiária sob supervisão do editor Humberto Rezende.
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