Congelamento permite conservar órgãos para transplante por mais tempo

Técnica congela o órgão e o reaquece sem danos para o transplante, mantendo esses tecidos conservados por mais tempo e evitando descartes

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postado em 02/03/2017 06:00 / atualizado em 02/03/2017 08:06

Ali Al-Saadi/AFP
 

Enquanto milhares de pessoas aguardam por órgãos nas filas de transplante, 60% dos corações e dos pulmões destinados à doação acabam no lixo. Um dos motivos para isso é o tempo limitado de conservação dos tecidos: os rins, mais resistentes, aguentam até 36 horas. Pâncreas, fígado e intestino não podem ficar mais de 12 horas no regime hipotérmico. Coração e pulmão, se não transplantados em quatro horas, perdem a serventia. Se apenas metade desses órgãos descartados chegasse aos receptores, a estimativa é que as listas de espera acabariam em, no máximo, três anos.

Existem métodos mais avançados de armazenamento, e um deles, a criopreservação, assegura a validade praticamente infinita dos materiais orgânicos. Eles são congelados a temperaturas extremamente baixas, entre -160ºC e -196ºC. Não à toa, algumas empresas congelam cadáveres na expectativa de que, um dia, a ciência consiga reanimá-los. Também é como se estocam sêmen e óvulos para fertilização, assim como o sangue do cordão umbilical.

“A criopreservação e o armazenamento de biomateriais a temperaturas baixas são uma revolução em potencial para a recuperação e o transplante de órgãos e tecidos. No mínimo, facilitariam a busca por compatibilidade de doador e receptor, aumentando o compartilhamento geográfico e melhorando a preparação de quem vai recebê-los”, defende um grupo de pesquisadores da Universidade de Minnesota (EUA), em um artigo publicado na revista Science Translational Medicine.

O problema de se usar essa tecnologia para a preservação de órgãos é que, no momento de se reaquecer os tecidos para o transplante, eles esfarelam. Outra intercorrência comum é a formação de cristais de gelo, que inviabilizam o material. Isso, porém, pode mudar. No trabalho divulgado ontem, os cientistas norte-americanos apresentaram um sistema que permite aquecer os órgãos centenas de graus Celsius por minuto de maneira uniforme e sem danificá-los.

Por enquanto, o método foi testado com amostras pequenas, contendo 50mm de tecido. Contudo, a expectativa do engenheiro mecânico John Bischof, principal autor do estudo, é conseguir atingir escalas maiores. “No passado, foi possível reaquecer amostras com 1mm de tecido. Conseguimos chegar a 50mm, o que significa que há uma forte possibilidade de alcançarmos sistemas maiores, como órgãos”, disse, em uma coletiva de imprensa transmitida pela internet. A equipe da universidade, inclusive, já detém duas patentes relacionadas à tecnologia.

Estado vítreo

Bischof contou que, na década de 1980, quando era estudante de graduação, acompanhou o trabalho do criobiólogo Greg Fahy, que, usando substâncias chamadas crioprotetores (essencialmente, químicos anticongelamento), demonstrou o congelamento do rim de um coelho até o estado vítreo. “Vítreo significa, aqui, que você essencialmente sai de um líquido muito viscoso, você não está cristalizado. Você está mantendo aquele rim em uma forma líquida, mas em um vidro. Então, Greg conseguiu isso em meados dos anos 1980, mas o problema é que ninguém conseguiu trazer de volta esses rins. Ninguém conseguiu trazer esse grande sistema de volta do estado vítreo. Nossa tarefa, de certa forma, foi descobrir como trazer aquele rim de volta”, comparou.

Para fazer isso, os cientistas primeiramente tentaram descobrir como distribuir o calor pelo tecido de forma uniforme e muito rápida. Zhe Gao, pesquisador de pós-doutorado em bioengenharia que participou do estudo, explicou que um dos principais componentes do nanoaquecimento — método usado no coelho de Greg Gahy —, são as nanopartículas. “Partículas antioxidantes supermagnéticas vão formar calor em um campo magnético. Contudo, essa habilidade será reduzida quando as partículas se agregarem. Existem partículas antioxidante no mercado, mas iam se acumular no fluido (onde estava a amostra de tecido vitrificado) dentro de algumas horas. Para melhorar a estabilidade delas, nós as encapamos com sílica mesoporosa”, disse.

Segundo o especialista, os primeiros experimentos, feitos com a amostra de uma artéria da carótida de um porco, demonstraram não só a viabilidade do método, como também a recuperação da funcionalidade do tecido após aquecido. Em seguida, eles avaliaram a tecnologia em células humanas, com resultado igual. John Bischof diz que, embora seja necessário incrementar a técnica antes de aplicá-la em órgãos, ele está otimista. “Esses resultados são muito empolgantes e poderiam ter um benefício social enorme se algum dia pudermos transportá-los para os órgãos que serão transplantados.”
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