Treinamento permite que qualquer pessoa tenha memória de alta performance

Pesquisadores mostram que, em 40 dias, uma pessoa comum pode ficar com um desempenho similar ao dos atletas da memória

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 11/03/2017 08:00 / atualizado em 13/03/2017 08:12

No Campeonato Mundial de Memória de 2016, em Cingapura, o americano Alex Mullen quebrou um dos recordes mundiais ao decorar a ordem de 1.626 cartas de baralho em uma hora. Competidores como Alex passam anos treinando a mente com técnicas mnemônicas, criadas para facilitar a memorização de grandes listas de informações. Uma delas, o método de Loci, utiliza a visualização e a memória espacial para isso. Em um estudo publicado na última edição da revista Neuron, pesquisadores mostram que, em 40 dias, uma pessoa comum pode ficar com um desempenho similar ao dos atletas da memória e que esse treinamento causa mudanças em conexões cerebrais que persistem por até quatro meses.
 
 
Para chegar às conclusões, os cientistas examinaram o cérebro de 23 campeões mundiais de memorização registrando as suas redes neurais — conexões entre regiões do cérebro — e as compararam com exames realizados em pessoas comuns orientadas para fazer o método de Loci por seis semanas. Os investigadores descobriram que, embora a estrutura física dos cérebros não apresentasse diferenças significativas entre os participantes do estudo, as redes neurais daqueles que estudaram o método se assemelharam às dos campeões de memorização. Além disso, a performance em um teste de memória dobrou após o treinamento: de uma lista de 72 palavras, eles conseguiram se lembrar, em média, de 62 itens, contra 26 antes do treino.

Foram escolhidos 51 participantes com idade, condições de saúde e inteligência parecidas com as dos 23 campeões. Os pesquisadores os dividiram em três grupos: o primeiro treinou o método de Loci 30 minutos por dia, durante seis semanas; o segundo, no mesmo período, precisou repetir diversas vezes uma lista de palavras para memorizá-la; e o terceiro não passou por nenhum treinamento.

As condições propostas foram parecidas às usadas pelos campeões. “Eu tento separar 30 minutos todas as noites”, conta Katie Kermode, britânica detentora de cinco recordes mundiais de memorização e não participante da pesquisa. “Passo a maior parte desse tempo com cartas, números ou em exercícios que me ajudam a utilizar as técnicas de modo mais eficiente. Meu treino envolve usar o método de Loci o mais rápido possível e de forma precisa.”

Oito a menos

No experimento, todos os participantes receberam uma lista com 72 palavras e tiveram que decorar o maior número possível de itens em cinco minutos. Antes do treinamento, eles decoraram, em média, 26. Após, o primeiro grupo decorou 62 palavras, contra 37 do segundo grupo e 33 do terceiro. Os campeões de memória, por sua vez, foram capazes de memorizar 70.

A equipe usou exames de ressonância magnética, para analisar a estrutura física dos cérebros, e de ressonância magnética funcional, que mostrou variações no fluxo sanguíneo causadas pela atividade cerebral. “Redes neurais, como as que analisamos, são regiões que, durante o repouso e a realização de uma tarefa, mostram comportamento semelhante. Em outras palavras, todas as regiões do cérebro que mostram ativações e desativações comparáveis em um espaço de tempo semelhante são consideradas pertencentes a uma mesma rede”, explica Martin Dresler, autor do estudo e professor-assistente de neurociência cognitiva na Universidade Radboud, Holanda.

Conexões-chave

Os pesquisadores encontraram diferenças entre um cérebro campeão em memória e um sem treinamento em padrões espalhados por 2.500 conexões. Em  25, houve as principais disparidades, existentes entre  o córtex pré-frontal medial, ativado quando um indivíduo relaciona informações novas com outras conhecidas; e o córtex pré-frontal dorsolateral direito, envolvido no aprendizado estratégico. “Faz sentido que essas conexões sejam afetadas. Elas são exatamente as coisas que pedimos para os participantes fazerem ao usar o método de Loci”, diz Martin, em comunicado.

Quatro meses após o treinamento, os não atletas voltaram a fazer o teste de memorização e repetiram a boa performance. Mantiveram memorizadas 48 palavras, em média. “Os participantes treinados foram capazes de aplicar o método de Loci com sucesso, mesmo após meses sem prática”, disse Martin. “Uma vez que você se familiariza com a estratégia e sabe usá-las, você pode manter sua performance alta sem muito esforço.”

Dresler ressalta a importância do treinamento mesmo entre os atletas.  Segundo ele, contrariando a noção de que uma boa memória se desenvolve naturalmente, “os campeões, sem nenhuma exceção, treinaram por meses e anos usando estratégicas mnemônicas para alcançar esses altos níveis de performance”. Katie, que entra na batalha com os competidores, confirma. “A maioria dos que eu conheço não considerava a sua memória boa antes de começarem os treinos. Sem as técnicas, eu não seria capaz de memorizar números ou cartas”, admite a campeã.


Estratégia secular

A primeira menção conhecida do método de Loci foi na obra Rhetorica ad herenniun, de autoria desconhecida, datada do primeiro século antes de Cristo, e diversos oradores o utilizaram ao longo dos séculos para memorizar os seus longos discursos. O segredo dessa estratégia é o uso da memória visual, um poderoso mecanismo para se guardar informações organizando uma lista com muitos itens. Campeões de memória o utilizam junto com outras técnicas, como associar conjuntos de números com palavras ou pares de cartas de baralho com objetos. 
 
* Estagiário sob a supervisão de Carmen Souza 
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.