Crânio de 400 mil anos pode ajudar a entender a origem do neandertal

Fóssil encontrado em Portugal combina características dessa espécie humana extinta e de uma que pode ter sido anterior a ela

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postado em 15/03/2017 06:00

Universidade de Lisboa/Divulgação
Os neandertais desapareceram por volta de 30 mil anos, conviveram com o Homo sapiens e até trocaram DNA com ele. A origem dessa espécie humana, porém, intriga cientistas. Agora, com o crânio de um hominídeo em mãos, um grupo internacional de cientistas pode começar a elucidar esse que é um dos maiores mistérios da evolução dos antepassados humanos. Segundo eles, a peça de 400 mil anos encontrada no complexo arqueológico do Almonda, em Torres Novas, Portugal, combina características que permitem a aposta.

“O novo fóssil é muito interessante porque essa região da Europa é crucial para entender a origem e a evolução do Homem de Neandertal (…) O crânio compartilha traços anatômicos com outros fósseis da mesma época e encontrados no norte da Espanha, no sul da França e na Itália”, explica, em comunicado, Rolf Quam, professor adjunto de antropologia na Universidade de Binghamton, nos Estados Unido, e coautor do estudo, divulgado na última edição da revista americana Proceedings of the National Academy of Sciences, a Pnas.

Chamado Aroeira 3, o fóssil tem duas características especiais: a precisão da datação (entre os 395 mil anos e 430 mil anos) e a combinação única de traços morfológicos. A peça tem características típicas do que parece ser um ancestral do Homem de Neandertal, incluindo um espessamento ósseo pronunciado na altura das sobrancelhas, mas também pode se tratar dos restos mortais de um dos primeiros neandertais.

O que é certo, segundo a equipe de investigadores, é que são restos de um adulto que demonstra a ocorrência de uma pluralidade na região durante o Pleistoceno Médio (entre 700 mil e 125 mil anos atrás). “O crânio aumenta a diversidade anatômica da coleção de fósseis de hominídeos desse período na Europa, o que sugere que as populações mostravam diferentes combinações de características morfológicas”, ressaltou Rolf Quam.

Extração lenta
A escassez de fósseis e as incertezas quanto à datação deles fazem com que a história da evolução dos ancestrais humanos na Europa durante o Pleistoceno Médio seja bastante controversa. A idade do Aroeira 3, porém, foi determinada com facilidade graças à datação dos sedimentos e estalagmites nos quais ele estava preso. O crânio estava fossilizado em uma pedra, que foi levada ao Centro de Pesquisa sobre a Evolução e o Comportamento Humano, um centro de pesquisa paleoantropológica em Madri, na Espanha. A extração dos ossos humanos durou dois anos e pôde-se reconstruir virtualmente o correspondente a dois terços da morfologia original.

Em Portugal, o trabalho seguiu com outras constatações interessantes. A equipe descobriu, próximo ao local em que estava o crânio, um grande número de ferramentas de pedra, como machados pequenos, além de 209 restos de animais, entre eles, cervídeos. As peças são da cultura acheuliana, que surgiu na África e começou a se estender para a Europa há 500 mil anos. Chamam a atenção pela sofisticação com que foram trabalhadas, provavelmente com o uso de pedra e de um martelo feito com um material mais brando, madeira, por exemplo.

Além do fóssil de hominídeo mais antigo já encontrado na Península Ibérica, o Aroeira 3 é um dos mais antigos no continente europeu diretamente relacionados com as ferramentas acheulianas. “Estudei esses sítios durante os últimos 30 anos e recuperamos importantes dados arqueológicos, mas a descoberta de um crânio humano com essa antiguidade e importância é sempre um momento muito especial”, destacou o arqueólogo português João Zilhão, responsável pelo estudo.

Desde 1987, pesquisadores do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa se dedicam à escavação arqueológica na rede de cavidades subterrâneas associada à nascente do rio Almonda, em Torres Novas. A pesquisa, que tem João Zilhão como coordenador, tem resgatado pedaços valiosos da pré-história da parte atlântica da Península Ibérica.

Dentes desgastados
Na mesma gruta, foram encontrados dois dentes datados da mesma época. As peças receberam o nome de Aroeira 1 e Aroeira 2. Os investigadores não conseguiram concluir se eram de um homem ou de uma mulher. 

“O crânio aumenta a diversidade anatômica da coleção de fósseis de hominídeos desse período na Europa, o que sugere que as populações mostravam diferentes combinações de características morfológicas”
Rolf Quam, um dos autores
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