Brasileiro é reconhecido internacionalmente por estudos sobre a amamentação

Até hoje, entre os vencedores do prêmio Gairdner, 84 receberam, depois, o Nobel de Medicina ou de Fisiologia

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postado em 29/03/2017 06:00 / atualizado em 29/03/2017 10:05

Daniela Xu/Divulgação


Quando Cesar Victora se formou em medicina, no fim da década de 1970, a epidemiologia era um campo de estudo que começava a se desenvolver no Brasil. Ainda eram poucos os cientistas que se debruçavam sobre dados populacionais, informações socioeconômicas e registros de doenças e mortalidade para encontrar associações entre elas. Mas o jovem pediatra estava preocupado com uma situação que vivenciava nos postos de saúde de comunidades pobres de Porto Alegre e Pelotas, por onde clinicou. Por mais que tratasse crianças desnutridas e com diarreia, entre outros problemas, elas sempre estavam de volta.

 
 
Victora queria fazer mais por elas do que simplesmente tratar. Ele pretendia prevenir o surgimento de doenças potencialmente evitáveis, mas que estavam arraigadas naquelas comunidades carentes de saneamento básico. Para isso, o médico teria de se dividir entre as consultas e as estatísticas. “Naquela época, era estranho quando um clínico resolvia ir para esse lado, uma área com muita matemática. Todo mundo achava que eu fosse dermatologista, porque pensavam que o epi de epidemiologista vinha de epiderme”, recorda.

Do Rio Grande do Sul, Victora partiu para a Inglaterra, onde se doutorou pela prestigiada Faculdade de Higiene e Medicina Tropical de Londres, pesquisando desnutrição infantil. O primeiro trabalho foi a comprovação de que, no Sul do Brasil, onde predominavam os latifúndios, a mortalidade infantil era muito superior à registrada na região Norte, onde pequenos agricultores tinham as próprias áreas de cultivo.

Ontem, no dia em que completou 65 anos, o epidemiologista se tornou o primeiro brasileiro a receber um dos mais importantes prêmios do mundo na área de saúde, o Gairdner, do Canadá, que, desde 1957, já reconheceu o trabalho de mais de 360 pesquisadores de 30 países. A premiação é considerada um “pré-Nobel”: entre os laureados até hoje, 84 receberam, depois, o Nobel de Medicina ou de Fisiologia. Modesto, Victora, que é o cientista brasileiro mais procurado no Google, disse ter sido surpreendido com o reconhecimento. “Fiquei muito satisfeito e surpreso. É um prêmio muito importante na área de saúde global, inclui pessoas que descobriram o ebola e a Aids”, conta.

No anúncio da Fundação Gairdner, que premiou outros seis cientistas neste ano (veja quadro), o reconhecimento de Victora foi justificado, em primeiro lugar, pelas pesquisas que ele desenvolveu a respeito do aleitamento materno. “Possivelmente, a maior contribuição do Dr. Victora à saúde pública foi seu trabalho nos anos de 1980, com o primeiro estudo mostrando a importância da amamentação exclusiva para prevenir a mortalidade infantil”, destacaram os organizadores do prêmio.

Recomendação mundial 

De volta ao Brasil em 1983, o médico se associou ao colega Fernando C. Barros, da Universidade de Pelotas, nos estudos de coorte que, até hoje, acompanham 6 mil pessoas nascidas no município. No início, a ideia era medir mortalidade infantil e número de prematuros, mas, com o tempo, o trabalho se mostrou muito mais revelador.

Em meados da década, Victora resolveu aplicar alguns métodos mais modernos de epidemiologia que, nos países desenvolvidos, estavam sendo usados para investigar doenças crônicas. “Tive a ideia de aplicá-los para a mortalidade infantil”, diz. Naquela época, era comum dar chá, suco e água para recém-nascidos. O pediatra resolveu investigar se isso teria influência no número de óbitos e fez um estudo em 10 cidades do Rio Grande do Sul. O resultado foi impressionante. As crianças que eram alimentadas exclusivamente com leite materno até os 6 meses de vida tinham risco 14 vezes menor de morrer por diarreia e 3,6 vezes menor, por doenças respiratórias.

Graças a essa descoberta, depois confirmada por outros pesquisadores que repetiram o estudo em vários países, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) reviram as recomendações sobre aleitamento exclusivo até os seis meses de vida.

Segundo o médico, existem algumas hipóteses que explicam a associação entre a oferta de água, suco e chá aos bebês e o aumento nos casos de morte. “Em primeiro lugar, a mortalidade maior era nas famílias mais pobres, que não tinham acesso a saneamento. A má higienização da água poderia introduzir bactérias e contaminar os bebês. Além disso, o estômago do recém-nascido é muito pequeno, do tamanho de uma colher de sopa. Ao ingerir mais líquido, ele mama menos e deixa de receber todas as substâncias do leite materno que evitam infecções”, diz.

 

A teoria dos 1.000 primeiros dias

O prêmio canadense também destacou o envolvimento de Cesar Victora com o estudo dos coortes, que permitiram descobrir importantes implicações dos primeiros 1.000 dias (dois anos) de vida de uma criança em seu desenvolvimento futuro. “Uma das conclusões foi que aquelas que foram amamentadas prolongadamente com leite materno tiveram níveis de inteligência (QI) e salários mais elevados quando chegavam aos 30 anos. Esse resultado teve grande repercussão”, conta o médico.
 
“Depois, publicamos, com pesquisadores de outros países, mais evidências que reforçaram a validade dos nossos resultados. Daí, saiu uma teoria muito interessante: a de que os primeiros dois anos de vida são uma fase muito importante, e o que acontece lá não pode ser consertado depois. Se a criança não recebe a estimulação adequada no estilo de vida, não adianta mais tentar recuperar”, afirma Victora. As conclusões foram publicadas na revista The Lancet, que, na edição de abril, voltará a divulgar um artigo do brasileiro, sobre os níveis de cobertura das intervenções que visam reduzir a mortalidade materno-infantil em 64 países.

Novo foco

Se, na década de 1980, os estudos de coorte de Pelotas indicavam um índice alto de subnutrição populacional, agora, o trabalho mostra outro lado da mesma moeda que preocupa Victora da mesma maneira. “Há um alto índice de obesidade infantil. Também estamos notando o aumento do fenômeno da prematuridade. Em 1982, 5,6% das crianças acompanhadas nasceram prematuras. Agora, são 15%”, conta. Uma das hipóteses é que o excesso de peso da mãe esteja influenciando no nascimento precoce dos bebês. A outra se relaciona ao fato de que 60% dos médicos marcam a data da cesária e, ao não esperar a mãe entrar em trabalho de parto, fazem a cirurgia com a criança ainda não totalmente pronta.

Para o membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e coordenador da Pediatria do Hospital Santa Lúcia, Alexandre Nikolay, o reconhecimento internacional do trabalho de Cesar Victora é mais do que justo. “Os estudos de coorte são muito respeitados, levam bastante tempo para serem feitos e, para fazê-los, é preciso ser um pesquisador muito apaixonado e dedicado. O embasamento científico dessas pesquisas epidemiológicas são fundamentais para que a clínica médica se desenvolva; todas as medidas clínicas são baseadas nos estudos”, destaca.

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