Estudo rastreia como o contato com o ar poluído interfere na mortalidade

Quase 3,5 milhões de óbitos foram registrados em 2007, sendo 22% relacionados a poluentes que nem sequer foram emitidos onde viviam as vítimas

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postado em 30/03/2017 06:00 / atualizado em 30/03/2017 10:04

Carlos Barria/Reuters


Todos os anos, milhares de pessoas perdem a vida precocemente devido a complicações causadas pela exposição regular ao ar poluído. Investigadores britânicos resolveram calcular o impacto que o comércio internacional exerce sobre esse fenômeno. Eles quantificaram mais de 3 milhões de mortes em 2007 e concluíram que 22% delas foram influenciadas pela atividade econômica que liga as nações de duas formas: pela disseminação global da poluição, iniciada pelos grandes emissores, e pelo próprio deslocamento e novo destino dos bens comercializados. Os autores do estudo, publicado na revista Nature, acreditam que os dados podem servir como alerta para a necessidade de mudanças em políticas comerciais e sugerem medidas para alterar esse cenário, como a cobrança de taxas das nações que mais poluem.

 

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Investigações anteriores estimaram a quantidade de mortes precoces relacionadas à poluição atmosférica focando em fontes locais de poluentes. No estudo atual, os cientistas resolveram aprofundar a questão e mostrar uma visão mais abrangente do problema. Pela primeira vez, apresentaram uma avaliação global sobre o impacto dessa poluição na saúde da sociedade. No estudo, eles estimaram a mortalidade prematura associada à poluição por partículas finas (PM2,5) em 13 regiões, abrangendo 228 países. Os pesquisadores analisaram mortes causadas por doença cardíaca, acidente vascular cerebral (AVC), doença pulmonar obstrutiva crônica e câncer de pulmão.


Por meio de quatro modelos de análise de dados globais, chegaram ao número de 3,45 milhões de mortes prematuras relacionadas à poluição de PM2,5 em 2007. Desse número, cerca de 762.400 (22%) estavam associadas a bens e serviços produzidos em uma região, mas consumidos em outra; e cerca de 411.100 (12%) foram provocadas pela poluição do ar local. Os autores não detalharam os outros fatores, mas reforçaram a força do impacto da poluição globalizada. “Isso indica que a mortalidade prematura relacionada com a poluição do ar é mais do que apenas uma questão local. Os nossos resultados quantificaram essa extensão, mostrando como esse é um problema global”, declarou, em um comunicado à imprensa, Dabo Guan, professor de economia na Universidade de East Anglia, no Reino Unido, e um dos autores do estudo.

Os cientistas destacam que os resultados refletem os problemas gerados pelo cenário industrial atual — em que países com políticas de produção menos rigorosas produzem livremente, sem se preocupar com danos causados ao meio ambiente — e apontam dificuldades para a implementação de novas medidas. “Há indícios de que as indústrias poluidoras tendem a migrar para regiões com regulamentações ambientais mais permissivas, sugerindo que pode haver tensão para adotar esforços que melhorem a qualidade do ar em uma região onde exista maior preocupação em atrair o investimento estrangeiro direto”, destacou Guan.

A equipe também quantificou os danos causados pelo país com maior atividade industrial. Eles concluíram que as emissões chinesas causaram mais que o dobro do número de mortes em todo o mundo do que as emissões de qualquer outra região. A poluição PM2,5 produzida na China está ligada a mais de 64.800 mortes prematuras em outras regiões, incluindo mais de 3.100 mortes na Europa Ocidental e nos Estados Unidos.

Novas políticas

 

Nesse cenário, destacam os investigadores, é urgente a adoção de medidas para evitar os danos causados pela poluição globalizada. Uma delas, defendem, é a adoção de um imposto sobre as emissões de poluentes, com os custos sendo compartilhados com todo o mundo. Outra alternativa é melhorar a forma como é feita a produção. “Visando o controle da poluição, a melhoria das tecnologias usadas na China, na Índia e em outros países da Ásia teria um benefício grande nessas regiões e no mundo. A cooperação internacional para apoiar esses esforços que reduzem a poluição e a 'fuga' das emissões através do comércio internacional é de interesse global”, ressaltou Guan.

 

Para Elizabeth Oliveira, pneumologista do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e presidente da Sociedade Brasiliense de Doenças Torácicas, o estudo mostra como a poluição tem se transformado em um problema que merece a preocupação de todas as nações. “Essa é uma mostra do quanto devemos nos preocupar com o que acontece longe de nós. Ao mesmo tempo em que o oxigênio de uma floresta serve para todos, a poluição que está no outro lado do mundo também chega aqui e pode gerar muitos danos”, ressaltou a especialista, que não participou do estudo.

A médica também explicou os danos causados pela partícula PM2,5. “Partículas maiores ficam presas e são depuradas pela presença do muco ciliar presente no nariz, já as PM2,5, por serem bem menores, conseguem alcançar a corrente sanguínea, causando problemas de saúde como o câncer de pulmão. É o mesmo malefício que o tabaco, mas, nele, você escolhe correr esse risco. Nesse tipo poluição, não.”

“A mortalidade prematura relacionada com a poluição do ar é mais do que apenas uma questão local. Os nossos resultados quantificaram essa extensão, mostrando como esse é um problema global”

Dabo Guan, professor de economia na Universidade de East Anglia, no Reino Unido, e um dos autores do estudo.

Até os pulmões

São partículas inaláveis finas, com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros, que se instalam nos locais mais profundos do pulmão, os alvéolos pulmonares e bronquíolos. Segundo os autores do estudo britânico, elas são consideradas responsáveis por mais de 90% das mortes prematuras causadas pela poluição do ar.

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