Modificação genética impede que substâncias cancerígenas surjam no milho

Técnica de modificação genética impede o surgimento, nas espigas de milho, da aflatoxina, substância ligada ao desenvolvimento de cânceres em humanos

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postado em 01/04/2017 09:00 / atualizado em 01/04/2017 15:22

 Mac Donald Almeida


Grãos são muito consumidos em todo o mundo, mas podem carregar substâncias maléficas ao corpo humano. Para evitar problemas do tipo e combater o desperdício, cientistas dos Estados Unidos modificaram geneticamente um desses alimentos mais presentes nas refeições: o milho. A alteração surtiu o resultado esperado: impediu, durante o cultivo, o surgimento de uma toxina que pode causar enfermidades como o câncer. Os autores do estudo, publicado na revista Science Advances, acreditam que a mesma estratégia pode ser usada em outras plantações.

A ideia da pesquisa surgiu a partir de trabalhos semelhantes de modificação de DNA de plantas. “Depois de ler como outros investigadores alteravam moléculas de RNA por meio do silenciamento genético induzido pelo hospedeiro (HIGS em inglês), pensamos que essa tecnologia poderia ser extrapolada para suprimir toxinas produzidas por fungos patogênicos”, explica ao Correio Monica Schmidt, professora-assistente da Escola de Ciências Vegetais da Universidade do Arizona e líder do estudo.

Monica Schmidt e a equipe resolveram usar a técnica para combater fungos que produzem a aflatoxina, que pode acometer diversos alimentos e, quando consumida pelo homem, desencadear retardamento do crescimento de crianças, aumento de risco de câncer de fígado e maior susceptibilidade ao HIV e à malária. “É uma das toxinas mais potentes do planeta. Normalmente, não vai matar uma pessoa pura e simplesmente, mas pode torná-la muito doente”, destaca a autora. “Quando eu li sobre seus efeitos, pensei: ‘Por que não podemos fazer um cavalo de troia para desligar essa toxina?’.

A técnica HIGS modificou o RNA do milho, material genético que possui 20 pares de genes e está sempre ativo. “O milho está constantemente produzindo esse RNA durante todo o seu desenvolvimento, no plantio. Quando os grãos entram em contato com o fungo que desencadeia a toxina, o RNA se une ao fungo”, explica Monica Schmidt. A alteração feita pelos cientistas impediu que os pares genéticos, quando em contato com o fungo, produzissem uma enzima necessária para o surgimento da toxina. Chamado de interferência de RNA, esse processo “desliga” a produção da substância, mas não impacta de outra forma o fungo, que continua a crescer e a viver no milho, mas inofensivamente.

Partida brasileira


Francisco Lima Aragão, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, explica que a técnica usada pelos cientistas norte-americanos tem origem no Brasil e é bastante explorada. “Ela já foi usada por outros cientistas no amendoim e também para reduzir a aflatoxina. Nós, na Embrapa, fomos os primeiros a demonstrar que era possível fazer isso,  silenciar um gene em uma planta. Continuamos a pesquisa, mas o nosso objetivo agora é matar o fungo”, explica o especialista, que não participou do estudo norte-americano.

Para Francisco Lima Aragão, a estratégia de proteção do alimento durante o seu desenvolvimento nas colheitas é positiva, mas ele ressalta que o fungo surge principalmente quando o milho é estocado. “Grãos armazenados sempre correm o risco de ter essa toxina, pois podem ficar guardados em locais com alta umidade e temperatura, tornando esse problema uma preocupação ainda maior para os países tropicais. Outro ponto negativo é que os fungos são resistentes a processamentos. Você pode ferver, torrar e eles permanecem no alimento”, ressalta. Contaminado, o alimento estocado não pode ser destinado ao consumo humano.

Os autores do estudo explicam que o bloqueio da toxina é possível apenas no plantio, mas acreditam que a proteção pode ser ampliada com o avanço da pesquisa. “Há duas fases em que o milho se contamina com aflatoxina, crescendo no campo e no armazenamento. Esse método minimiza a toxina acumulada no milho enquanto ele está no campo. Atualmente, estamos investigando se o RNA é estável em uma semente de milho pós-colhida e seca e se essa tecnologia também poderia minimizar a acumulação de toxinas durante o armazenamento”, adianta Schmidt.

"É uma das toxinas mais potentes do planeta (…) Quando eu li sobre seus efeitos, pensei: ‘Por que não podemos fazer um cavalo de troia para desligar essa toxina?’”
Monica Schmidt, professora-assistente da Escola de Ciências Vegetais da Universidade do Arizona e líder do estudo

Controle falho


O monitoramento da presença da aflatoxina em alimentos é falho, principalmente em países de baixa renda. Segundo Monica Schmidt, professora-assistente da Escola de Ciências Vegetais da Universidade do Arizona, o problema é mais comum na África. Por isso, de acordo com ela, a técnica de modificação do DNA do milho terá grande utilidade para as regiões com problemas econômicos. “Gostaríamos de ver se essa tecnologia poderia ser usada por outras culturas que também são afetadas pela aflatoxina e ser eficaz também no combate a outras toxinas fúngicas”, diz a pesquisadora.

O fungo causador da toxina é mais comum na plantação do amendoim, cujo plantio tem aumentado no Brasil. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra 2015/2016 foi de 407,7 mil toneladas, a anterior, 2014/2015, foi de 346,8 mil toneladas. Para Francisco Lima Aragão, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em um cenário desse, estudos como o conduzido pela equipe de Monica Schmidt são necessários.

“A modificação de DNA ganhou mais foco porque, nos últimos 10 anos, a preocupação em melhorar a qualidade dos alimentos e torná-los mais saudáveis tem sido considerável. Ao reduzir essas toxinas por meio da genética, você consegue cumprir esse objetivo e também evita o uso de elementos químicos, como os agrotóxicos. A preocupação com a aflatoxina tem sido maior ainda em países asiáticos, que consomem muito amendoim e têm tido altos índices de câncer de fígado”, ressalta. (VS)
 
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