Borderline: tese relaciona dependência afetiva a vícios em drogas e jogos

De acordo com o especialista, o distúrbio está diretamente associado a um outro sério problema psíquico: o transtorno borderline

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postado em 02/04/2017 08:00 / atualizado em 03/04/2017 09:59


Algumas pessoas são dependentes de álcool e drogas. Outras, de jogo. Há, também, aquelas cujo vício são os relacionamentos. Tachadas, muitas vezes, de destrutivas, mimadas, manipuladoras e carentes, elas sofrem tanto quanto as que não conseguem viver sem bebida, cocaína ou baralhos. Contudo, geralmente, são incompreendidas. Ao observar a forma em que os adictos emocionais são tratados mesmo entre profissionais da saúde mental, o psicólogo e psicanalista Marcelo Soares Cruz resolveu investigá-los mais a fundo. Da prática clínica, surgiu uma ideia que acabou se transformando em tese de doutorado, defendida no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). De acordo com o especialista, o distúrbio está diretamente associado a um outro sério problema psíquico: o transtorno borderline.


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“Estou envolvido com o tratamento dessas pessoas desde o início da graduação. Soava injusto para mim o sofrimento dos pacientes, o olhar voltado a eles, de muita destrutividade. Daí, surgiu a vontade de entender por que eles ficavam assim”, explica o psicanalista. “O principal que tento propor é que o paciente borderline padece de uma condição de adição do outro, da mesma forma como existe a dependência de uma droga. É como se ele tivesse um desespero pelo outro”, explica. Segundo Cruz, o objeto do vício pode ser o parceiro, a mãe, o pai, um amigo ou mesmo um desconhecido. E essa fixação nada tem a ver com amor ou desejo sexual. Trata-se, na verdade, da tentativa de preencher um vazio. “O outro é visto como uma tábua de salvação.”

De acordo com o psicanalista, várias teorias tentam explicar essa situação. Do ponto de vista da psicanálise, a raiz do problema está nos primeiros anos de vida, principalmente na fase em que o bebê é completamente dependente dos pais. Em situações de abandono ou indisponibilidade do cuidador, a criança precisa antecipar um processo para o qual não está preparada, o da independência. Daí, surge o trauma. “O que sobra é uma angústia de perda. Como se o outro sempre fosse desaparecer. Como se meu eu estivesse ameaçado pela ausência. É uma questão de sobrevivência”, observa Cruz.

Às vezes, perdas posteriores podem desencadear a mesma reação, explica a psicanalista Lygia Vampré Humberg, autora do livro Relacionamentos Adictivos: vício e dependência do outro. “Essas falhas podem acontecer mesmo em uma fase mais madura, como em idosos que trabalhavam e se aposentam e também que perdem muitas pessoas ao longo da vida”, exemplifica.

Ao ter contato com inúmeros casos de pacientes adictos em relacionamentos e com transtorno borderline, Marcelo Soares Cruz percebeu que as coincidências entre um e outro distúrbio não eram poucas. Pessoas fronteiriças (borderline) são aquelas que estão sempre às voltas com o sentimento de solidão, têm medo de abandono, sentem irritabilidade/raiva/desespero/pânico, sofrem de alterações de humor ao longo do dia, são impulsivas (consumo exagerado de álcool/drogas, envolvimento com jogo de azar, gasto incontrolado de dinheiro) e têm baixa autoestima. Nos adictos, destacam-se, principalmente, as intensas relações de dependência do outro e a sensação perene de vazio existencial (leia depoimento).

Para ele, o principal achado da tese é apontar que existe esperança para esses pacientes. “São pessoas que criam contatos turbulentos, agridem, causam situações constrangedoras e, por isso, parecem fadadas à solidão, porque fazem exigências descabidas dos outros, exigem uma correspondência que nem sempre existe. Elas vivem numa montanha-russa emocional, onde idealizam o outro ou o demonizam”, reconhece. “Muitas portas se batem na cara delas, mas é importante que elas saibam que podem ser cuidadas, o tratamento pode salvar a vida dessas pessoas”, diz.

Terapia

Como não se trata de uma patologia psiquiátrica, como é a doença bipolar, que tem causa biológica, o borderline não é tratado com medicação, mas com terapia. “Oferecer uma psicoterapia, fornecer uma experiência de constância, preenche esse vazio”, diz o psicanalista. Ele ressalta, porém, que não há a substituição de uma adicção por outra. “O processo psicanalítico não escraviza ninguém. Para haver a mudança, talvez seja necessário viver um período transitório de dependência (do tratamento), para que a pessoa se liberte”, diz. A psicanalista Cristiane M. Maluf Martin, que é palestrante de comportamento humano, dependência química e codependência, afirma que, às vezes, a intervenção psiquiátrica pode ser importante para conter a ansiedade associada. “Dependendo do grau, a medicação pode ser necessária com a psicoterapia. Até porque muitos pacientes borderline podem tentar suicídio”, adverte.

A psicanalista Lygia Vampré Humberg conta que, em muitos casos, os dois lados de uma relação podem ser considerados adictos. “Quando isso acontece em um casal, o problema é dos dois. Um alimenta a necessidade do outro, um só consegue estar forte porque o outro está fraco”, diz. De acordo com ela, as pessoas que têm relacionamentos adictivos se queixam de serem maltratadas, mas não conseguem largar o parceiro. “De maneira inconsciente, essa pessoa fez a escolha certa, porque, para ela, o certo é aquilo. O jeito certo de tratar esses relacionamentos é tratar os dois”, destaca.  No caso de violência doméstica, Humberg ressalta que, se a mulher não fizer um tratamento, vai acabar encontrando outra pessoa igual à abusadora. “É o famoso dedo podre”, concorda Martin. “Essas pessoas tendem a repetir relacionamentos. Mesmo quando conscientizadas disso, não conseguem parar”, afirma.

Artigo

Sendo a própria estrada

Quando se fala na inter-relação dos sintomas da síndrome de borderline e dos relacionamentos adictivos, logo se destaca o chamado vazio interior ou vazio existencial. Mas esse vazio aparece em quase todos os demais distúrbios psiquiátricos, se não em todos. E me arrisco a dizer que não se trata de um sintoma, trata-se de uma característica humana. Um sintoma é indício de que alguma coisa não vai bem. Uma característica é algo próprio de alguém ou grupo.

Talvez o vazio interior seja a causa, ou, melhor dizendo, talvez a causa desses distúrbios seja a nossa incapacidade, maior ou menor, de lidar com esse vazio, o que faz com que nos lancemos na missão de preenchê-lo, muitas vezes com uma urgência que embota o raciocínio, cega, destrói, enlouquece, mata. Quem foi que disse que vazio existencial precisa ser preenchido? Se é uma característica humana, talvez o melhor seja aceitar e buscar entender o que ele nos quer dizer, sem alvoroço, sem trazê-lo para o centro da nossa vida, sem jogar sobre ele todos os holofotes. Porque, se isso fazemos, perdemos a noção de conjunto e esquecemos o que realmente merece ser destacado — o que já nos preenche.

Acho que o pulo do gato está nesta música de Almir Sater: “Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais. Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe? Só levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou nada sei... Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente. Como um velho boiadeiro levando a boiada, eu vou tocando os dias, pela longa estrada eu vou. Estrada eu sou.”. Talvez o lance seja sermos a nossa própria estrada.
Maraci Mendes Sant'Ana, psicóloga especializada em relacionamentos adictivos
 

"Fui Mais fundo que o fundo do poço"

A autora dos ebooks "A mulher que amou demais" e "Amor bandido", Flora Dominguez, de 48 anos, deu um depoimento emocionante a respeito da sua virada de jogo na vida. Leia agora: 
 
"A dependência afetiva existe e é a mesma coisa que se você estivesse usando uma droga. Você pode matar, roubar ou se prostituir por causa de outra pessoa. A minha começou quando eu era criança. Venho de uma família muito conflitiva, de um lar desestruturado. Não existia diálogo, atenção nem carinho.
 
Meu pai era alcoólatra, e minha mãe desequilibrada. Ela foi expulsa de casa aos 8 anos, e acabou se prostituindo, passando de mão em mão, para sobreviver. Me lembro que, desde que eu era muito pequena, ela viva em hospital, todas as atenções na família voltavam-se para ela. Ela e meu pai brigavam muito, tinham uma comunicação disfuncional. Aquela família era uma confusão sem fim, e eu e minha irmã mais velha viramos os bodes expiatórios. Sofremos muita violência física e mental. Tortura mesmo. Meu pai dizia que a gente era burra, que não servia para nada.
 
Piorou na nossa adolescência. Minha mãe ainda era jovem e bonita, e não soube lidar com as filhas mais jovens e também bonitas. Ela começou a surtar. Mordia a gente no rosto, me chamava de infeliz e vagabunda. Eu tinha só 12 anos. Me casei aos 18. Ele era um psicopata sádico e agressivo. Tentou me jogar pela janela quando eu estava grávida de seis semanas. Registrou nossa filha e nos abandonou. Foi muito traumatizante e fiquei com bastante dificuldade de me relacionar. Comecei a querer maltratar as pessoas, a ficar violenta.
 
Relacionamento, para mim, passou a ser igual a trocar de roupa. Não vivia sem alguém ao meu lado, mesmo que fosse para brigar. Ao mesmo tempo, me sentia como a rosquinha da padaria: com aquele buraco no meio. Mas aquilo me dava satisfação, nem que fosse para eu sofrer ou fazer o outro sofrer. Você sabe que aquilo é uma porcaria, mas você quer aquela droga. Depois, quando passa o prazer, fica pior, se sente uma porcaria. Mas logo depois, arruma outro. Eu me relacionei até com bandido, com assassino.
 
Eu fiquei muito violenta. Passei a ser barraqueira, quebrar os lugares, fazer escândalo, quebrar carro. Andava com uma navalha na bolsa. Depois, vinha o arrependimento. Realmente, parece muito com o transtorno borderline. Porque eu era muito amorosa e carinhosa, mas meu outro lado era o oposto. Era muito brincalhona, ótima companhia. Só que, quando explodia, explodia. Só que nunca tive diagnóstico nem tratamento.
 
Meu segundo marido era ex-alcoólico. Era bem violento, mas eu não ficava atrás. Dei uma facada nele, era para matar, mas pegou de raspão. Eu não conseguia me controlar. Eu também não parava em emprego, sempre terminava em confusão. Não conseguia dar continuidade. Mesmo casada, continuava morando com minha mãe, porque só de pensar em ficar longe dela, eu sofria muito. Eu era cúmplice dela, e ela minha. Só fui sair de casa com mais de 30 anos.
 
Um dia fui a São Paulo e passei muito mal. Tive angina, começaram a aparecer doenças. O médico falou que eu tinha de escolher entre viver e morrer. Ninguém mais acreditava em mim, não tinha mais crédito. Então comecei a lutar por mim, eu lutava para que as pessoas acreditassem em mim. No meu processo de recuperação, eu sofri muito. Tinha dia de sentir dor física. Tive de fazer uma construção da minha personalidade. Aprendi a olhar para mim, foi uma luta contra a minha mente. Foram dois anos me recuperando. Hoje, trabalho e como life coach com outras pessoas que têm dependência emocional. Meu trabalho é motivar. Algumas dizem 'Ah, mas eu não consigo'. Consegue. Só não consegue se não quiser.” 
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