Nova tecnologia dos EUA consegue identificar vírus do zika a baixo custo

Desenvolvida originalmente para detectar pneumonia em carneiros, tecnologia da Universidade Estadual do Colorado (EUA) consegue identificar o vírus, com precisão, em mosquitos infectados

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postado em 04/05/2017 06:00

John Eisele/Colorado State University/Divulgação

 

Passados três anos da provável data de chegada do zika às Américas, os métodos de detecção do vírus ainda são limitados. Se, por um lado, o RT-PCR (reação em cadeia da polimerase) — exame considerado padrão ouro — é caro e exige máquinas sofisticadas, aqueles que identificam anticorpos circulantes no organismo do paciente apresentam índices altos de falso positivo e negativo. Na busca por meios mais baratos, rápidos e acurados, um grupo de cientistas liderados pela Universidade Estadual do Colorado (UEC), nos Estados Unidos, desenvolveu uma nova ferramenta diagnóstica, com alto grau de precisão. Contudo, os estudos são preliminares e não há previsão de quando vão para o mercado.

 

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A equipe de pesquisadores, que contou com a colaboração da Fundação Oswaldo Cruz de Pernambuco (Fiocruz-PE), utilizou uma tecnologia preexistente, a Lamp, para identificar o vírus em mosquitos e células humanas infectadas, provenientes de amostras dos Estados Unidos, da Nicarágua e do Brasil. A técnica foi desenvolvida em 2001 por Connie Brewster, autor desse novo artigo, publicado na revista Science Translational Medicine. Originalmente, o pesquisador do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Patologia da Faculdade de Veterinária da UEC havia criado o método para encontrar o vírus da pneumonia em carneiros selvagens.

A Lamp é semelhante ao RT-PCR, método molecular que amplifica, detecta e quantifica o material genético de uma só vez, o que aumenta a confiança do resultado do exame. Contudo, para examinar as amostras pelo RT-PCR, é preciso usar um equipamento de laboratório que custa entre US$ 15 mil e US$ 25 mil, o que inviabiliza ou, ao menos, dificulta o acesso, especialmente em regiões mais pobres. Com o mesmo grau de sensibilidade, a Lamp, por sua vez, não exige aparelhagem diferenciada: para avaliar a amostra, basta uma máquina portátil e muito simples, o heat block, que, além de poder ser transportado para qualquer lugar, custa cerca de US$ 200.

“Com o Lamp, não há necessidade de um maquinário sofisticado”, destacou, em nota, o autor correspondente do artigo, Joel Rovnak, da UEC. “A maior parte dos países que sofrem com os surtos de zika não é rica, então, é importante tentar desenvolver métodos de vigilância em saúde que possam, um dia, ser usados nesses locais”, destaca a estudante de graduação da instituição norte-americana Nunya Chotiwan, coautora do artigo.

Tempo

O custo não é a única diferença entre os métodos. No caso do PCR, é preciso, primeiramente, extrair o RNA (material genético do vírus) da amostra, um processo que não é simples. De acordo com Chotiwan, quanto ao Lamp, os cientistas esmagam um mosquito na água. Depois, retiram 2ml do líquido, colocam o material em um tubo de ensaio e o aquecem, usando reagentes químicos. A amostra torna-se vaporosa e muda de cor. No estudo da Universidade Estadual do Colorado, em 30 minutos, já se obtinha o resultado. Contudo, a pesquisadora ressalta que, às vezes, é possível ter de esperar até uma hora. Ainda assim, é um método diagnóstico em tempo real, tanto quanto o TR-PCR.

Um outro importante resultado do estudo é que esse método não produz falsos positivo ou negativo. Como o mosquito transmissor do zika, o Aedes aegypti, também dissemina outras arboviroses, incluindo dengue e chicungunha, a análise laboratorial pode acabar confundindo o resultado, devido à semelhança desses vírus. Já os reagentes usados no Lamp não identificam qualquer outro vírus, que não o zika.

Rovnak destaca também o fato de a ferramenta conseguir distinguir a cepa asiática (a que causa microcefalia) da africana (ainda não circulante nas Américas e, aparentemente, inócua). O vírus proveniente da Polinésia foi detectado em Cabo Verde e espera-se que ele se dissemine pelo continente africano. Segundo o pesquisador, é fundamental saber diferenciar as variantes. “Originalmente, o zika foi detectado pela primeira vez em Uganda, em 1947. Embora Cabo Verde seja um país insular, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças acredita que, rapidamente, ele chegue em outros países africanos”, observa.

Com esse método, os cientistas poderão identificar em que regiões há mosquitos transmissores do zika e, assim, adotar medidas de controle e eliminação do vetor — o Lamp foi sensível suficiente para encontrar um único inseto infectado entre 50 que não tinham o vírus. Contudo, ainda é necessário aprimoramento, antes que o método esteja disponível para detectar o zika em fluidos humanos. “O diagnóstico em humanos é um desafio muito maior. Vai levar bastante tempo e muitos dados antes que agências regulatórias considerem que esse é um meio seguro para diagnosticar pessoas que têm os sintomas da doença”, ressalta Joel Rovnak.

Palavra de especialista


Limitações permanecem

“Hoje, os métodos de diagnóstico de zika são muito limitados, principalmente porque a sorologia não é fidedigna e pode ser confundida com a dengue. Essa tecnologia vem como uma alternativa mais barata e mais rápida, embora também tenha algumas limitações. Nos testes com cultura celular humana, houve muitos falsos positivos e falsos negativos. Por isso, ainda é preciso aprimorá-la muito antes de poder ser usada em amostras como sangue, soro, saliva e sêmen. E o exame para diagnóstico em humanos é justamente o que mais precisamos nesse momento. O resultado desse estudo tem implicação mais para a detecção do vírus no mosquito. Existe uma grande possibilidade de o zika asiático, o causador da microcefalia, entar na África. Como essa técnica consegue detectar vetores infectados, ela ajuda a fazer o controle do mosquito, com medidas mais específicas para a região onde for encontrado.”

Melissa Falcão, infectologista, membro do Comitê de Arbovirose da Sociedade Brasileira de Infectologia
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