Estudo alerta para o aumento de mortes por chagas na fase assintomática

Quantidade de pessoas que perdem a vida na fase em que a enfermidade não apresenta os sintomas é maior do que a registrada no país, indica estudo da USP

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postado em 19/05/2017 06:00 / atualizado em 18/05/2017 22:40

Em tempos de dengue, zika e febre amarela, pouco se fala da doença de Chagas, considerada a 17ª mais importante enfermidade negligenciada, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). São estimados 8 milhões de casos em todo o mundo; a maioria, na América Latina, com 10 mil mortes anuais. No Brasil, houve 1.570 casos entre 2000 e 2013, com mais de 100 surtos desde 2005, registrados, principalmente, no Norte. Agora, há mais evidências de que não se pode fechar os olhos para esse mal. Um estudo de cientistas brasileiros publicado na revista Plos Neglected Tropical Diseases apresenta evidências de que a mortalidade pela doença pode ser subnotificada, mascarando o real impacto de Chagas.
 

A enfermidade é transmitida pelo Trypanosoma cruzi. Quando o inseto barbeiro que carrega o protozoário pica uma pessoa, os primeiros sintomas são inchaço, febre e dores de cabeça (Veja infográfico). Contudo, geralmente esses incômodos desaparecem em poucos meses. Indivíduos infectados vivem por décadas sem apresentar sinais da doença até que, um dia, podem surgir as complicações neurológicas, cardíacas e digestivas. Até agora, considerava-se que, durante o período assintomático, não havia risco de mortalidade associado ao Chagas. Porém, uma investigação conduzida por pesquisadoras da Universidade de São Paulo (USP) demonstra que, na verdade, esse risco não só existe, como é praticamente duas vezes maior, comparado a quem não tem a doença.

No trabalho, Ligia Capuani, pesquisadora do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), e outros cientistas estudaram 2.842 exames de sangue positivos e 5.684 negativos de Chagas, coletados de doadores de São Paulo entre 1996 e 2000 e disponibilizados pela Fundação Pró-Sangue, o hemocentro da cidade. Os testes positivos referiam-se a pessoas contaminadas, mas que se encontravam na fase assintomática. Os negativos eram de pessoas que não tinham nenhuma forma da doença. “Os dados da fundação passaram a ser informatizados em meados de 2004. A partir de 2006, eles estavam acessíveis ao estudo”, explica. Contudo, em 2009, houve uma mudança na liberação dos dados para os estudos e, com isso, os pesquisadores não tiveram acesso a períodos mais longos. Por isso, a pesquisa se concentra nesse intervalo de tempo. Ligia Capuani esclarece, porém, que isso não interfere nos resultados.

Utilizando dados do Sistema de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, os pesquisadores identificaram 159 mortes entre os 2.842 doadores positivos para a doença (5,6%) e 103 entre os negativos (1,8%). Dos óbitos do primeiro grupo, 26 estavam inseridos na classificação CID-10, indicando a doença de Chagas como causa da morte. Já 23 tinham códigos indicando anomalias cardíacas possivelmente associadas à enfermidade. O restante não fazia referência a ela. Comparado ao grupo de doadores que não tinham Chagas, os pacientes apresentaram risco de mortalidade mais de duas vezes maior. Além disso, quando se analisam apenas os óbitos que citam a CID-10 ou as doenças cardíacas relacionadas, a diferença é ainda mais gritante: os com exame positivo apresentaram risco 17,9 vezes maior de morrer.

Os pesquisadores observam que a doença nem sempre é listada como causa de morte de pessoas que foram infectadas pelo tripanossoma e morrem de problemas cardiovasculares. “Alguns estudos mostravam que a taxa de mortalidade na forma indeterminada (assintomática) era muito baixa”, conta Ligia Capuani. “Mas eles foram feitos com poucos pacientes e, por isso, não foram capazes de detectar de forma precisa. O nosso estudo mostra que a mortalidade em indivíduos assintomáticos positivos para T. cruzi não é tão alta quanto a de pacientes com cardiomiopatia chagásica, mas é 2,3 vezes superior aos controles negativos”, observa.

Novas práticas

De acordo com Ester Cerdeira Sabino, pesquisadora do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da FMUSP e coautora do trabalho, os resultados serão importantes para direcionar o tratamento dos pacientes assintomáticos. “Hoje, existem duas drogas para Chagas, ambas desenvolvidas na década de 1970 e com muitos efeitos colaterais. A eficácia delas na fase crônica é ainda desconhecida, e existe debate entre os médicos de como e quando devem ser usadas. Na minha opinião, elas deveriam ser oferecidas a todos os pacientes”, diz. “A hepatite C foi descoberta em 1989, em 1991 já foi iniciado o tratamento com interferon. Hoje, existem drogas novas que curam a infecção na maioria dos casos, com poucos efeitos colaterais. Esse é um exemplo de como a pesquisa em alta escala pode resolver problemas médicos”, ilustra.
 

Avanço contra a malária

 Pesquisadores descobriram que a proteção para a forma mais severa da malária está associada a uma variação natural de genes presentes nas células vermelhas humanas. Estudo do Instituto Wellcome Trust Sanger, da Inglaterra, identificou um rearranjo genético de receptores nessas estruturas que conferem risco 40% menor de o paciente ter essa modalidade letal da doença. Publicado na revista Science, esse é o primeiro trabalho a mostrar que variantes estruturais em genes chamados glicoforina, muito comuns na África, são um protetor contra essa enfermidade. A descoberta abre nova perspectiva de pesquisas sobre vacinas que previnam que os parasitas entrem nas hemácias.

Mais de 200 milhões de pessoas são infectadas anualmente com malária, que causou quase 500 mil mortes no mundo em 2015. Transmitida por mosquito, o parasita mais comum na África é o Plasmodium falciparum, também o mais perigoso. Ele infecta as células vermelhas humanas e consegue entrar nelas via receptores na superfície celular. Estudos prévios sobre a resistência natural à malária identificaram um conjunto de genes, as glicoforinas, implicado com esse mecanismo. Porém, só agora se descobriu que variantes das proteínas estão envolvidos com a proteção contra a doença.

Os pesquisadores investigaram detalhadamente o glicoforina usando dados de 765 voluntários de Gâmbia, Burkina Faso, Camarões e Tanzânia. Depois, começaram um estudo em Gâmbia, Quênia e Malawi que incluiu 5.310 indivíduos da população em geral e 4.579 pacientes hospitalizados com malária severa. A equipe descobriu que as pessoas que tinham um rearranjo particular dos genes glicoforina apresentavam 40% menos risco de contrair essa forma da doença. Esse híbrido se encontra em um grupo sanguíneo raro, conhecido como Dantu. Ele é incomum em outras partes da África, como a ocidental.

Segundo Dominic Kwiatkowski, cientista do Instituto Wellcome Trust Sanger que liderou o trabalho, a descoberta tem importantes implicações para a pesquisa. “Temos esperança de que nossa constatação vai inspirar futuros estudos para saber exatamente como o Plasmodium falciparum invade as células vermelhas do sangue. Isso poderia nos ajudar também a descobrir novas fraquezas do parasita para, no futuro, explorarmos intervenções contra essa doença letal.”

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