Estudo: compartilhar posts é sinal de apreciação e vontade de ser admirado

Cientistas identificam quais mecanismos do cérebro são ativados quando um jovem decide compartilhar um texto nas redes sociais; escolha parte de áreas ligadas ao reforço da própria imagem e à vontade de despertar a admiração alheia

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postado em 30/05/2017 06:00 / atualizado em 29/05/2017 22:09

Quinho/CB/D.A Press
 
O compartilhamento de textos e imagens é uma das ferramentas mais usadas nas redes sociais, e o fato de alguns conteúdos despertarem mais atenção dos usuários do que outros aguçou a curiosidade de cientistas norte-americanos. A equipe decidiu investigar o papel do cérebro na escolha do que pode viralizar na internet e descobriu que áreas ligadas à autoimagem e à apreciação fazem parte desse processo. O estudo foi divulgado recentemente na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas) e, para os autores, pode ajudar a entender um pouco mais sobre os mecanismos de seleção feitos pelo cérebro humano.

"O compartilhamento de informações é uma maneira importante pela qual nos influenciamos mutuamente. Estamos muito mais propensos a acreditar e a lembrar daquilo que falamos com os nossos amigos do que de algo que recebemos apenas a partir de meios de comunicação de massa", explica ao Correio Christin Scholz, pesquisadora da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e uma das autoras do estudo.

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No experimento, a investigadora e os colegas utilizaram aparelhos de ressonância magnética para medir, em tempo real, a atividade cerebral de 40 voluntários — estudantes com idade entre 18 e 24 anos — enquanto eles liam manchetes e resumos de 80 artigos sobre saúde publicados no jornal americano The New York Times. Os participantes foram orientados a ler e a avaliar se compartilhariam os artigos, que abordavam temas como nutrição, atividades físicas e vida saudável. Todos tinham a mesma quantidade de palavras.

A equipe concluiu que, ao ser lido, o texto classificado como viral — bastante compartilhado — provocava maior atividade em uma área cerebral ligada à apreciação. "Essa região fica ativa quando coisas boas nos acontecem, quando, por exemplo, estamos comendo chocolate ou recebendo dinheiro. Em nosso estudo, quanto mais essa região era ativada no momento em que os participantes do estudo olhavam para o artigo em questão, mais provável era que ele fosse compartilhado frequentemente", explica a autora.
 
Outra região que também mostrou alta atividade durante o experimento foi a área cerebral ligada ao pensamento autorrelacionado, quando um indivíduo se preocupa com o que os outros pensam dele. "Acreditamos que os leitores consideram tanto o fator autorrelacionado — por exemplo, ‘Essa partilha vai me fazer parecer positivo, inteligente, amigável?’ — quanto as consequências sociais — ‘Esse compartilhamento vai me levar a uma boa conversa? Meu amigo vai gostar ou odiar isso?”, ilustra, Christin Scholz.


Valor social

 
Apesar de a amostra de participantes ter sido pequena, os pesquisadores acreditam que o resultado pode se repetir em grupos de tamanho mais significativo. “Se podemos usar um pequeno número de cérebros para prever o que um grande número de pessoas que leem um jornal estão fazendo, isso significa que coisas semelhantes podem acontecer com outras pessoas. O fato de que os artigos atingem o mesmo acorde em cérebros diferentes sugere que motivações similares e normas semelhantes podem estar conduzindo esses comportamentos. Coisas semelhantes têm valor em nossa sociedade mais ampla”, ressalta a autora.

Graziela Furtado Scarpelli Ferreira, coordenadora do curso de psicologia do Centro Universitário Iesb, de Brasília, avalia que o estudo traz constatação científica para fenômenos observados no dia a dia. “Agora, temos a prova de estímulo dessas áreas pela imagem, e é interessante observar como a autoavaliação é algo que pesa nessa escolha. Ela está ligada ao impacto social, não só me preocupo com o que eu posto, mas também com o que os outros também pensam de mim. O que está muito ligado à imagem que a pessoa quer refletir para que ela se encaixe no grupo social que tem preferência”, diz a especialista, que não participou do estudo.
Segundo ela, há pesquisas que tratam de um tema semelhante e há pouco tempo tratado pela ciência, o neurônio espelho. “Ele tem exatamente a função de mimetizar o comportamento do outro. Se eu me identifico com a pessoa, faço com que ela se identifique comigo. É por isso que casais em início de relacionamento acabam parecendo tanto em comportamento”, complementa.

Neurônio espelho


Graziela Ferreira acredita que uma observação semelhante com indivíduos que tenham problemas ligados à sociabilidade poderia ajudar em termos comparativos. “Se pudéssemos analisar pessoas que sofrem doenças que afetam a área de regra moral, como o esquizofrênico, que não tem capacidade de fazer essa socialização, mesmo que on-line, provavelmente os resultados seriam diferentes”, detalha.

A especialista também acredita que o experimento com voluntários de outras faixas etárias poderia trazer resultado distinto. “Esse trabalho foca em atividades da área pré-frontal do cérebro, e sabemos que essa área só está totalmente desenvolvida após os 30 anos. Essa pesquisa analisou pessoas com uma idade em que a região ainda está em desenvolvimento. Seria interessante realizar uma análise com pessoas dessa faixa etária e comparar os resultados entre os grupos para ter uma avaliação mais completa”, opina a especialista.

A intenção dos autores é dar continuidade ao estudo, mas a equipe tem outro foco de investigação. “Queremos testar várias estratégias para envolver os processos que identificamos como importantes para o conteúdo da viralidade de forma mais eficiente. Entender, por exemplo, como podemos mudar o conteúdo para que ele ajude os leitores a ver as consequências positivas sociais e autorrelacionadas da partilha”, adianta Christin Scholz.
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