Atrasar horário das refeições altera o 'relógio' do corpo, mostra estudo

O hábito pode aumentar os níveis de açúcar no sangue, um dos fatores para o surgimento do diabetes; profissionais que trabalham à noite estão entre os mais suscetíveis

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postado em 02/06/2017 06:00 / atualizado em 02/06/2017 07:03

O corpo humano funciona seguindo o ciclo de um dia, 24 horas. Para isso, tem diversos relógios internos ajustados a um relógio mestre, localizado no cérebro. Sabe-se da influência da luz nesses sistemas reguladores. Agora, cientistas britânicos descobriram que alterações nos horários das refeições também podem desritmá-los. Em um estudo conduzido com adultos jovens, pesquisadores observaram mudanças nas taxas de açúcar no sangue, um dos fatores para o surgimento do diabetes, quando o grupo se alimentava mais tarde. Os autores do trabalho, publicado na última edição da revista Current Biology, acreditam que a pesquisa pode ajudar em estratégias que combatam problemas ligados à dessincronização dos ritmos circadianos, comuns em profissionais noturnos.

 

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“Pesquisas em animais ao longo de quase 100 anos sugeriram que alguns ritmos circadianos no corpo podem ser sincronizados com alimentos. Isso se você restringir o acesso a refeições apenas algumas horas, em uma sequência de dias. No entanto, havia poucas informações que mostrassem como o tempo da refeição pode redefinir ou sincronizar os ritmos circadianos humanos”, conta ao Correio Jonathan Johnston, pesquisador da Universidade de Surrey, no Reino Unido, e autor principal do estudo.


Na investigação, Johnston e colegas analisaram 10 jovens saudáveis durante 13 dias de experimento. Todos os participantes  precisavam fazer três refeições diárias, com intervalos de cinco horas entre elas. Os pratos continham o mesmo teor de caloria e macronutriente. No começo, cada voluntário tinha que iniciar a primeira refeição 30 minutos depois de ter acordado e respeitar a espera de cinco horas para se alimentar novamente. Depois de uma semana, porém, quando havia se acostumado a comer cedo, precisava iniciar a primeira refeição cinco horas mais tarde, durante seis dias.

 


Ao longo de todo o teste, os jovens adultos foram submetidos a exames que mediram seus ritmos circadianos. A mudança no tempo das refeições não influenciou a fome, a sonolência e os ritmos de liberação dos hormônios melatonina, ligado ao sono, e o cortisol, que ajuda a manter o nível de açúcar no sangue, mas os cientistas notaram que o tempo de refeição mais tardio afetou significativamente os níveis de açúcar no sangue, atrasando o ciclo em mais de cinco horas, em média. “Nós acreditávamos que veríamos alguns atrasos após as refeições tardias, mas o tamanho da mudança no ritmo de açúcar no sangue foi surpreendente. Também foi inesperado ver que outros ritmos metabólicos, incluindo o de insulina no sangue e de triglicéridos, não mudaram”, conta Johnston.

Para a equipe, os resultados mostram que alterações no horário das refeições podem influenciar os ritmos circadianos de uma forma até mais expressiva que a luz. “Já sabíamos que algumas intervenções, como a exposição à luz cronometrada e o consumo temporário de melatonina ajudam a redefinir o relógio mestre do cérebro, mas essas interferências provavelmente não têm efeito tão direto quanto o horário das refeições”, ressalta Johnston.

Amauri Araújo Godinho, neurologista e neurocirurgião do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Neurologia, também destaca como ponto alto da pesquisa a apresentação de um novo fator capaz de mexer com o relógio biológico humano. “A luz sempre foi apontada como um influenciador dos ritmos circadianos. Agora, também sabemos que a alimentação tem esse poder”, ressaltou o especialista, que não participou do estudo.


Novas práticas

A curto prazo, a falta de sincronia dos relógios internos causa pequenos desconfortos, como a sonolência e o mal-estar do jet lag. A longo prazo, em alguns tipos de cegueiras e trabalhadores noturnos, por exemplo, as implicações são maiores.  “Acredita-se que eleva a chance de desenvolvimento de doenças, incluindo o diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares”, diz Johnston. No estudo, os autores indicam como os resultados podem ser usados para amenizar esses problemas. “Agora, temos evidências para apoiar a inclusão de refeições temporárias dentro de estratégias que ajudam a ressincronizar ritmos circadianos nas pessoas.”

Godinho ilustra como essa prevenção poderia ser feita. “Pessoas que trabalham à noite, como comissários de bordo, e pessoas que almoçam em horários diferentes possuem mais chance de apresentar essas alterações. Para evitar que isso ocorra, os autores recomendam que elas mantenham os horários de refeição, no caso dos comissários a de seu país de origem”, detalha.

A equipe destaca, porém, que precisa entender melhor a relação entre o horário das refeições e o ritmo circadianos. “Uma importante questão a seguir é se o controle do tempo de refeição pode ser usado como parte de uma estratégia para ajudar a melhorar a saúde a longo prazo de trabalhadores por turnos e de outras pessoas com dessincronização de seus relógios corporais”, diz Johnston.

Godinho avalia que o tema estudado poderá render mais dados importantes para a área médica. “Outros problemas de saúde, como a depressão e a disfunção erétil, já tiveram o surgimento ligado a alterações à exposição à luz. Possivelmente, a análise de outros fatores que podem influenciar os ritmos circadianos, como a alimentação, renderiam novidades sobre essas enfermidades”, opina o neurologista.

Já sabíamos que algumas intervenções, como a exposição à luz cronometrada e o consumo temporário de melatonina ajudam a redefinir o relógio mestre do cérebro, mas essas interferências provavelmente não têm efeito tão direto quanto o horário das refeições”
Jonathan Johnston, pesquisador da Universidade de Surrey e autor principal do estudo

 

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