Aprender a tocar um instrumento musical pode evitar prejuízos cognitivos

Tocar também pode ajudar no tratamento de sequelas causadas pelo derrame, indica estudo canadense

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postado em 10/06/2017 08:00


A harmonia vai além das notas musicais. Aprender a tocar um instrumento, segundo um estudo canadense, afina o cérebro. Pesquisadores do Centro de Ciência Baycrest, em Ontário, descobriram que a prática deixa mais ativas áreas do órgão relativas à audição e ao controle motor. Por isso, poderia ser usada por adultos para manter as habilidades auditivas e evitar declínios cognitivos que comprometem a capacidade motora durante o envelhecimento.

“A música tem sido conhecida por provocar efeitos benéficos ao cérebro, mas, até agora, existe uma compreensão limitada sobre como ela pode fazer a diferença para o nosso corpo”, detalhou, em comunicado à imprensa, Bernhard Ross, pesquisador do Centro de Ciência Baycrest e principal autor do estudo, publicado na última edição do Journal of Neuroscience.

No experimento, 19 jovens adultos, sendo sete mulheres e 12 homens, foram submetidos inicialmente a testes de audição, que constataram normalidade. Nenhum tinha histórico de distúrbios neurológicos ou psiquiátricos. Eles tiveram as ondas cerebrais registradas por aparelhos de ressonância magnética enquanto ouviam sons emitidos por uma tigela de canto tibetano (um pequeno instrumento musical composto por um sino e um pedaço de madeira). Depois de ouvir a gravação, metade dos participantes recebeu a peça para que repetisse o que tinha ouvido. A outra parcela teve que recriar o som por meio de um computador, tocando as teclas que emitissem toques iguais ao do instrumento musical.

A análise mostrou que as áreas do cérebro ligadas à audição e à percepção motora foram mais ativadas no grupo que tentou replicar a pequena canção usando o instrumento. “O aumento foi significativamente maior do que o observado nos participantes do grupo controle, que desencadearam sons gravados por um pressionamento de tecla. Observamos maior conectividade entre córtices auditivos e sensório-motor”, comparou o autor do estudo.

Os pesquisadores destacam que os resultados surpreenderam principalmente pelo tempo que a análise foi realizada e pela sua simplicidade. “Nosso estudo demonstrou os efeitos imediatos da experiência de som na percepção usando gravações simples de um modo que não imaginávamos observar em tão pouco tempo após a atividade, apenas horas depois da tarefa ter sido realizada”, ressaltou Ross.

Para os investigadores, as constatações dão validade a uma suspeita na área, e os benefícios se estendem a outros instrumentos.

“Esse é o primeiro estudo a demonstrar que aprender o movimento necessário para reproduzir um som em um instrumento altera a percepção feita pelo cérebro de uma maneira que não é vista apenas quando ouvimos música. Isso pode render uma série de vias para serem exploradas no futuro.”

Reabilitação

Anteriormente, a mesma equipe de pesquisadores utilizou um treinamento musical para ajudar pacientes com sequelas de acidente vascular cerebral (AVC) a reabilitar o movimento motor nos membros superiores. A intervenção surtiu efeito: os participantes conseguiram recuperar grande parte dos movimentos perdidos graças às atividades realizadas.

“A hipótese de que o ato de tocar música exige que muitos sistemas cerebrais trabalhem em conjunto, como a audição, o sistema motor e os sistemas de percepção, foi constatada de forma mais clara nesse experimento. Esse estudo foi a primeira vez em que vimos mudanças diretas no cérebro logo após uma única sessão, demonstrando que a ação de criar música leva a uma forte mudança na atividade cerebral quase que imediatamente”, complementou Ross.

As próximas etapas do trabalho envolverão a análise da reabilitação de pacientes mais velhos que sofreram AVC por meio de treinamento musical. Os voluntários serão comparados com pessoas submetidas a sessões de fisioterapia. Há ainda a intenção de, se houver patrocínio, explorar a técnica para outras condições que afetem a função motora, como lesão cerebral traumática.

"A hipótese de que o ato de tocar música exige que muitos sistemas cerebrais trabalhem em conjunto, como a audição, o sistema motor e os sistemas de percepção, foi constatada de forma mais clara nesse experimento”
Bernhard Ross, pesquisador do Centro de Ciência Baycrest e principal autor do estudo

Para saber mais

Alvo de estudos

Outros cientistas têm tentado decifrar como tocar um instrumento pode trazer benefícios ao homem. Pesquisadores da Universidade Normal de Beijing, na China, investigaram os efeitos do aprendizado musical no cérebro de adultos com idade entre 19 e 21 anos que haviam estudado música por pelo menos um ano na infância. As análises mostraram que o cérebro dos participantes era mais fortalecido, principalmente em áreas neurais relacionadas a habilidades com línguas.

Uma pesquisa feita no Instituto Karolinksa, na Suécia, buscou entender melhor o mecanismo cerebral de músicos experientes. Os investigadores usaram ressonância magnética para registrar o cérebro de 39 pianistas enquanto eles realizavam improvisos. Os mais experientes apresentaram maior conectividade funcional nas áreas motoras do cérebro. A hipótese é de que, nesses pianistas, o processo de criaçãopode ser considerado “automático”, feito com menos esforço, já que há maior conectividade nas áreas cerebrais responsáveis pela tarefa.

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