Canto de pássaros muda com poluição sonora das estradas, aponta estudo

Pássaros podem mudar o canto devido à exposição aos ruídos das estradas, mostra estudo norte-americano. Segundo especialistas, o ajuste compromete condições essenciais de sobrevivência, como a demarcação de território

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postado em 21/06/2017 06:00

Sergio Moraes/Reuters

Pelo canto, pássaros demarcam território, acasalam, alertam outros da espécie sobre vantagens e perigos, procuram seus filhotes. Determinante, a forma de comunicação é cada vez mais ameaçada pelos humanos. Um estudo da Universidade George Mason, no estado da Virgínia, nos Estados Unidos, mostra que o barulho das estradas tem feito com que aves cantem de forma diferente, conforme o fluxo das máquinas sobre rodas. O desaparecimento do piui-verdadeiro — em Washington, a população caiu pela metade nos últimos 70 anos — pode estar ligado ao fenômeno.
 

“A intenção dos pássaros ao modificar o canto é aumentar as chances de serem ouvidos”, explica Katherine Gentry, principal autora do estudo, publicado na revista Bioacoustics. Ela e colegas estudaram o canto do piui-verdadeiro, presente em grande parte dos Estados Unidos e também na Região Norte brasileira, em três parques nos arredores da cidade de Washington. Os cantos foram gravados em duas situações: locais nos quais o barulho das estradas era relativamente constante e locais em que as estradas eram fechadas semanalmente por um período de 36 horas.

A primeira conclusão foi a de que o canto das aves se tornava mais curto e havia aumento da frequência mínima, em resposta ao tráfego de veículos no local. “Os ajustes nos cantos deixam o sinal mais fácil de se detectar, distinguindo-o do barulho ambiente”, explica Gentry. Ainda que as aves pudessem ser ouvidas mais facilmente, porém, os outros pássaros pareciam não responder tão bem ao canto modificado, comparado ao tradicional.

Também chamou a atenção dos investigadores o fato de que, logo que o barulho cessava, o canto do piui-verdadeiro voltava ao normal. A constatação, segundo Gentry, pode embasar políticas voltadas para melhorias no fluxo de pessoas em habitats naturais de aves, como o fechamento temporário de estradas nos fins de semanas. “Temos várias opções, dependendo da severidade do barulho. São exemplos: sistemas de transporte público para diminuir a quantidade de veículos; barreiras feitas com vegetação grossa; restrições de alguns veículos, como caminhões ou motos; e redução dos limites de velocidade”, lista a pesquisadora. “Medidas temporárias, como o fechamento de estradas, são particularmente úteis caso se queira diminuir o barulho pela manhã.”

Para Renata Alquezar, pesquisadora do Laboratório de Comportamento Animal da Universidade de Brasília (UnB), esta última medida, apesar do intuito de preservação das espécies, pode ter efeito contrário. “Vale salientar que essas mudanças podem gerar um maior custo energético para as aves, gerando estresse”, ressalta. A especialista, que não participou da pesquisa, explica que os piuis-verdadeiros são aves suboscines, do mesmo grupo do bem-te-vi, conhecidos por ter um canto que não costuma variar muito naturalmente. “O que sugiro é o investimento em aeronaves, carros, motos e caminhões que emitam menor ruído. E, claro, uma maior fiscalização sobre esses meios de transporte.”

Em Brasília

Alquezar também trabalha com os efeitos de ruídos urbanos sobre o canto de pássaros. No seu caso, o foco é o impacto dos barulhos de aeroportos nas populações de aves ao redor. “Em rodovias, os principais geradores de ruído são caminhões e motos. Em aeroportos, aviões de carga e aviões de pequeno porte são os que produzem maiores níveis de ruído”, diferencia.

O trabalho da professora da UnB está em andamento, mas ela adianta a constatação de resultados semelhantes ao do estudo norte-americano. “Focando em Brasília, posso dizer que tanto o ruído de aeroporto quanto o ruído de rodovias têm potencial para causar modificações no comportamento de canto das aves. O que também pude perceber é que áreas preservadas, que a princípio não deveriam sofrer esse tipo de impacto, estão sob grande pressão dos ruídos que produzimos. Podemos observar grandes rodovias em torno do Parque Nacional de Brasília e das Reservas do IBGE e do Jardim Botânico, além de diversas rotas de aeronaves passando por cima dessas áreas de preservação com pouca altitude, gerando mais ruído”, detalha.

A equipe da Universidade George Mason identificou mudanças similares em pardais de cor branca que viviam perto de São Francisco. Para eles, trata-se de um fenômeno recorrente e registrado em outros cantos do mundo. “O padrão geral mostra que algumas espécies aumentam as frequências mínima e máxima do canto, reduzem a duração do canto, cerca de 10 a 15 minutos mais cedo do que o normal, e apresentam níveis de estresse variáveis —mais alto e mais baixo, em diferentes espécies”, complementa a especialista brasileira.

* Estagiário sob a supervisão de Carmen Souza

“Podemos observar grandes rodovias em torno do Parque Nacional de Brasília e das Reservas do IBGE e do Jardim Botânico, além de diversas rotas de aeronaves passando por cima dessas áreas de preservação com pouca altitude, gerando mais ruído”

Renata Alquezar, pesquisadora do Laboratório de Comportamento Animal da Universidade de Brasília
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