Nova técnica de neuromodulação promete ajudar no combate à obesidade

Pesquisadoras da USP testam a eficácia da modulação de neurônios para o emagrecimento. Elas acreditam que, a longo prazo, o procedimento pode melhorar os processos cerebrais de autocontrole e evitar o reganho de peso

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postado em 09/07/2017 06:00

Remédios, cirurgias, dietas, exercícios físicos... As armas disponíveis na guerra contra a obesidade e o sobrepeso não estão dando conta de frear a escalada mundial de uma epidemia que já afeta dois quintos da população do globo. Embora funcionem para alguns pacientes, essas estratégias não conseguem beneficiar todos os mais de 2 bilhões de adultos com índice de massa corporal (IMC) acima do considerado saudável. Entre as novas opções pesquisadas para reforçar o arsenal de opções, está uma técnica não invasiva de neuromodulação. No Brasil, a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP) está à frente de um estudo para avaliar a eficácia da chamada estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC) na perda de peso.
 

Em parceria com Miguel Alonso Alonso, diretor do Laboratório de Neurociência Bariátrica e Nutricional da Faculdade de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos, um grupo de pesquisadores da FMRP vai testar a técnica com mulheres de 20 a 40 anos e IMC entre 30 e 35kg/m², condição classificada como obesidade I. O estudo será concluído depois de três fases: na primeira, as voluntárias farão uma sessão de ETCC; na segunda, serão 10 sessões em duas semanas e, na terceira, passarão por mais 10 estimulações associadas a uma dieta hipocalórica individualizada, também ao longo de 14 dias. Depois disso, elas serão acompanhadas pelos pesquisadores por seis meses. O estudo é duplo-cego, o que significa que nem as voluntárias nem os cientistas saberão quem será submetido à verdadeira ETCC e quem estará no grupo placebo.

A estimulação transcraniana por corrente contínua é uma técnica segura, em que o paciente recebe pequenas descargas de corrente elétrica por meio de dois eletrodos posicionados nos lados esquerdo e direito do crânio. Como a corrente é baixa, não é preciso sedação. Pesquisas realizadas em vários centros dos Estados Unidos e da Europa sugerem que essa técnica de modulação dos neurônios é eficaz no tratamento da depressão e de comportamentos compulsivos, como dependência química, vício em jogos eletrônicos/de azar e bulimia, entre outros. A obesidade, que está associada ao sistema de recompensa do cérebro, também está na mira dos pesquisadores.

“A ETCC é muito nova e ainda estamos tentando entender em que casos funciona. Mas ela tem demonstrado bons efeitos, incluindo na dependência”, atesta o psiquiatra João Armando, coordenador de neuromodulação do Instituto Castro e Santos, em Brasília. Ele explica que, enquanto a estimulação transcraniana magnética — a neuromodulação mais conhecida — age bem em regiões superficiais do cérebro, a ETCC atinge regiões mais profundas. “Como toda onda, a magnética vai se perdendo. Já no caso da técnica nova, a corrente elétrica é contínua e caminha pelos dois pontos. O maior desafio é acertar o ponto do apetite, que fica no circuito da recompensa dentro do mesencéfalo, que é uma parte mais profunda do cérebro”, diz.

Pioneirismo 

A nutricionista Priscila Giacomo Fassini, que está à frente do estudo da FMRP com a médica Vivian Marques Miguel Suen, explica que, além do abuso de substâncias e da depressão, meta-análises e alguns estudos experimentais sugerem o potencial da ETCC para reduzir o desejo de ingerir alimentos e, mais recentemente, o peso. “Com base nesse conhecimento, na evidência preliminar de perda de peso com tDCS (sigla em inglês para a ETCC) e com o apoio de modelagem de dados computacional, a proposta do trabalho é utilizar a tDCS para manipular experimentalmente o componente neurocomportamental com o objetivo de auxiliar a perda de peso e evitar a sua recuperação ao longo do tempo”, diz.

Fassini esclarece que estudos preliminares mostram que a técnica pode melhorar os processos cognitivos cerebrais associados ao controle inibitório, ou seja, ela ajuda no autocontrole. “O controle inibitório tem sido inversamente associado ao comer em excesso, à obesidade e ao índice de massa corporal em estudos transversais, longitudinais e experimentais”, conta a pesquisadora. Na Europa e nos Estados Unidos, estudos de curta duração identificaram essa habilidade da ETCC. Em outras partes do mundo, estão em curso cerca de 10 pesquisas, mas todas de curta duração e poucas sessões.

O trabalho brasileiro, de acordo com as cientistas da FMRP-USP, é pioneiro no sentido de se propor a investigar o potencial da estimulação transcraniana por corrente contínua a longo prazo, com número significativo de sessões. “Essa proposta inovadora de pesquisa clínica exploratória utiliza uma intervenção biomédica que poderia transformar o paradigma para a perda de peso e a manutenção da perda de peso, oferecendo uma nova forma de tratar a obesidade”, observa Vivian Marques Miguel Suen. “Os resultados levarão a estudos maiores a longo prazo a fim de avaliar essa intervenção de neuromodulação não invasiva”, esclarece a pesquisadora.

“A neurociência e a psicologia estão cada vez mais próximas e se complementam no que diz respeito a entender mais amplamente a obesidade e os transtornos alimentares: os mecanismos que agem no apetite, como o indivíduo se relaciona com a comida e como as interações com o ambiente participam da doença. Há muito o que entender ainda nos aspectos fisiológico e psicológico, mas todos os avanços representam peças de um quebra-cabeça ainda por desvendar”, avalia Vladimir Melo, mestre em psicologia pela Universidade Católica de Brasília e autor do livro Obesidade infantil: interações familiares e ciclo de vida numa perspectiva sistêmica.

O psicólogo afirma que o tratamento experimental pode contribuir, mas enfatiza que vários fatores levam à obesidade e, por isso, a doença tem de ser tratada em diferentes aspectos. O psiquiatra João Armando concorda: “A estimulação transcraniana por corrente contínua será um adjuvante, paralelo à mudança de estilo de vida e da alimentação. Não existe mágica para a obesidade”.

“A estimulação transcraniana por corrente contínua será um adjuvante, paralelo à mudança de estilo de vida e da alimentação. Não existe mágica para a obesidade”

João Armando, psiquiatra e coordenador de neuromodulação do Instituto Castro e Santos, em Brasília
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