Método de estimulação magnética craniana potencializa a memória auditiva

A técnica de estimulação magnética craniana melhora o desempenho de voluntários em testes de reconhecimento de som. Segundo pesquisadores canadenses, a técnica poderá evitar problemas de aprendizagem e demência

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postado em 12/07/2017 06:00 / atualizado em 12/07/2017 07:53

A memória auditiva é essencial no dia a dia. Compreender uma frase, por exemplo, acontece, entre outros fatores, porque os sons e a sequência deles são gravados por um indivíduo. Problemas nesse mecanismo, portanto, podem comprometer a aprendizagem. Uma equipe de cientistas canadenses propõe que essa habilidade seja otimizada por estimulação magnética craniana. O procedimento surtiu resultados promissores em testes com voluntários e, segundo os investigadores, há a possibilidade de ele beneficiar outras áreas ligadas à memória, como a visão.
 
 
O trabalho é o desdobramento de uma investigação na qual a equipe de cientistas se dedicou a decifrar como funciona a memória auditiva humana. “Identificamos os circuitos cerebrais que são ativos quando uma pessoa se lembra dos sons e os manipula na mente”, conta ao Correio Robert Zatorre, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade McGill, no Canadá. “Outros grupos de pesquisa usaram a técnica de estimulação magnética transcraniana para mudar a atividade do cérebro. Então pensamos que, talvez, também pudéssemos mudar a atividade nesses circuitos com o objetivo de melhorar a memória, pelo menos temporariamente”, complementa.

Uma rede neural chamada fluxo dorsal é a responsável por aspectos da memória auditiva. Dentro da corrente dorsal, existem pulsos elétricos rítmicos chamados ondas theta, mas o papel delas em relação à memória auditiva ainda é um mistério. Para decifrar esse enigma, Zatorre e os colegas resolveram analisar o comportamento das ondas theta de 17 voluntários enquanto eles realizavam tarefas em que eram obrigados a reconhecer um padrão de sons quando ele era invertido, uma atividade que ativa a memória auditiva.

Ao realizar as tarefas, os participantes foram monitorados por uma combinação de equipamentos que analisam a atividade cerebral: a magnetoencefalografia (MEG) e o eletroencefalograma (EEG). Juntos, os exames forneceram a amplitude e a frequência das ondas theta durante as atividades de memória. A frequência do participante com melhor desempenho foi aplicada por meio de estimulação craniana em todos os outros do grupo em uma segunda etapa. Após o estímulo, os participantes realizaram as tarefas de memória auditiva com mais eficiência.

Ao estimular os voluntários com outra frequência, os cientistas não detectaram melhora nas performances. “Achamos que a melhora da memória ocorreu porque estávamos direcionando sua atividade para um circuito preciso no cérebro. E o mais importante, isso ocorreu porque estávamos estimulando um ritmo específico, que corresponde à frequência natural de oscilação desse circuito”, ressalta Zatorre.

Para a equipe, o resultado do estudo também ajuda a esclarecer dúvidas que rondam a área médica. “Por muito tempo, o papel das ondas theta não é claro. Agora, sabemos muito mais sobre a natureza dos mecanismos envolvidos e sobre o seu papel causal nas funções cerebrais. Só conseguimos esse avanço porque unimos a neurologia e sua série de técnicas complementares”, comemora Sylvain Baillet, também autora do estudo e pesquisadora da Universidade McGill.

Mais aplicações

Os cientistas cogitam o uso clínico da descoberta. “Agora, sabemos que o comportamento humano pode ser reforçado com um tipo específico de estimulação. Ainda mais emocionante é o fato que esse estudo investigou a memória auditiva, mas a mesma abordagem poderá ser usada para múltiplos processos cognitivos, como visão, percepção e aprendizagem”, diz Zatorre.

Marcia Santos Neiva, neurologista do Hospital Brasília, avalia que o trabalho canadense explora com sucesso uma tecnologia que se mostra promissora na área médica. “Estive com outros médicos no segundo Congresso Internacional de Estimulação Cerebral, ocorrido em março, em Barcelona. Lá, pudemos observar que a estimulação magnética e a elétrica surgem como o grande salto que a medicina dará no tratamento mais efetivo e com redução de efeitos colaterais em várias doenças, inclusive nas de memória.”

Segundo a especialista, há outros trabalhos que obtiveram resultados semelhantes. “No que tange ao tratamento de doenças da memória, como as demências em geral e especialmente a doença de Alzheimer, há estudos mostrando melhora clínica e impacto positivo nas atividades de vida desses pacientes. A medicina começa a alcançar tratamentos efetivos, usando a física, e com menos efeitos colaterais que os químicos em geral.”

Os autores darão continuidade ao trabalho com a intenção, entre outros quesitos, de otimizar o procedimento. “Os resultados são muito promissores e oferecem um caminho para futuros tratamentos. Planejamos fazer mais pesquisas para ver se podemos fazer o impulso de desempenho durar mais tempo e se ele funciona para outros tipos de estímulos e tarefas. Isso ajudará os pesquisadores a desenvolver aplicações clínicas”, aposta Zatorre.

"Ainda mais emocionante é o fato que esse estudo investigou a memória auditiva, mas a mesma abordagem poderá ser usada para múltiplos processos cognitivos, como visão, percepção e aprendizagem”

Robert Zatorre, pesquisador da Universidade McGill e um dos autores do estudo
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