Em novo teste, vacina contra zika protege ratas e filhotes de malformações

As duas fórmulas, uma americana e outra brasileira, reduzem a carga viral nas cobaias e impedem a ocorrência de malformações fetais, como a microcefalia. Pesquisadores aperfeiçoam as imunizações para iniciar testes com humanos

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postado em 14/07/2017 07:00 / atualizado em 13/07/2017 23:36

 AFP / YE AUNG THU


Os efeitos do vírus zika no corpo humano desafiam médicos, pacientes e cientistas. Sabe-se, porém, que, durante a gravidez, problemas de malformação, como a microcefalia, ameaçam os bebês. Um grupo de pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos testam duas vacinas com potencial para proteger grávidas e fetos desse tipo de complicação. Os testes com ratos apresentaram resultados extremamente positivos, detalhados na última edição da revista Cell.


Foram testadas duas vacinas em desenvolvimento. Uma delas é estudada pela empresa americana Moderna Therapeutics e tem como base o DNA recombinante do vírus zika (mRNA), uma sequência artificial de DNA criada a partir da combinação de diferentes “pedaços” de material genético. A segunda fórmula é um projeto brasileiro  — do Instituto Evandro Chagas (IEC) em parceria com a Universidade Médica do Texas (UTMB) — e utiliza uma forma viva, mas enfraquecida do vírus.

Grupos com 18 a 20 fêmeas de camundongos receberam uma das fórmulas ou um placebo. Três semanas depois, os pesquisadores mediram os níveis de anticorpos que combatem o vírus zika no sangue das cobaias e descobriram que ambas as vacinas geraram boa resposta imune. Depois que as roedoras ficaram grávidas, elas foram infectadas pelo zika no sexto dia de gestação. Após uma semana, foi medida a quantidade de vírus nas mães e nos fetos e detectou-se uma carga viral baixíssima.

Ao fim da gestação, as ratas vacinadas permaneceram saudáveis, seus filhotes nasceram sem sinais de lesão e sem material genético viral do zika no cérebro. Nenhuma das cobaias do grupo placebo chegou a ter filhotes. Elas adoeceram, os fetos apresentaram altos níveis de infecção e morreram no útero. “A contribuição mais importante do nosso estudo é mostrar que, no nosso modelo de análise —  ratos infectados por zika durante a gravidez —, a vacinação da mãe pode proteger o feto. Nós somos os primeiros a mostrar isso em qualquer sistema experimental”, detalha ao Correio Brett W. Jagger, pesquisador da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, e um dos autores do estudo.

Ideal X eficaz


A equipe também observou diferenças nos níveis de proteção gerados pelas vacinas. Nas cobaias que receberam a fórmula criada com base no RNA do vírus, mais da metade das placentas e dos fetos não apresentou material genético viral detectável. Essa fórmula, segundo os cientistas, seria a melhor opção a ser usada durante a gestação. “A plataforma da vacina de mRNA é conceitualmente a mais vantajosa para uso durante a gravidez porque não usa vírus vivos e, por isso, não pode produzir um vírus zika replicante”, destaca Jagger.

A vacina com o zika enfraquecido, porém, apresentou maior índice de proteção: 78% das placentas e 83% dos fetos não tinham material genético viral, além de ter sido usada em menor quantidade que a primeira. “A vacina de RNA foi usada em duas doses. A nossa precisou apenas de uma para gerar uma proteção ainda maior. Concluímos que ambas as fórmulas conseguem proteger os fetos, mas a vacina com o vírus vivo terminou sendo mais eficaz”, detalha Pedro Vasconcelos, um dos autores do trabalho e diretor do Instituto Evandro Chagas.

Werciley Júnior, infectologista e chefe da Comissão de Controle de Infecção do Hospital Maria Auxiliadora, em Brasília, avalia que a pesquisa traz dados interessantes e que podem ser mais explorados. “Seria importante passar para outras etapas, como testes em animais maiores, macacos e porcos, por exemplo, e, em seguida, realizar testes em humanos. Acredito que isso demorará de dois a três anos, não será rápido, mas poderá render uma opção de proteção futura”, avalia.

O enfoque na proteção de um grupo específico é outro fator que chama a atenção no estudo. “De fato, já existem várias vacinas promissoras em estudo, em ensaios clínicos em humanos. No entanto, até o momento, não temos investigações que mostrem vacinas eficazes na gestação, ou seja, uma fórmula que possa proteger o feto da infecção. É exatamente isso que nos propusemos fazer, usando camundongos”, frisa Jagger.
Para Werciley Júnior, esse trabalho e outros do tipo poderão, inclusive, impactar o enfrentamento a outras enfermidades. “Todo o clamor para desenvolver uma vacina contra o zika pode render recursos de combate a outros flavivírus, como o chicungunha, já que eles são bastante semelhantes”, explica.

Novas etapas


O próximo passo do trabalho envolve o aperfeiçoamento das duas vacinas, mas para usos distintos. Vasconcelos destaca que a vacina criada com base no vírus enfraquecido — que rendeu uma proteção maior — caminha para o teste em humanos. “A vacina que desenvolvemos nunca foi projetada para ser usada durante a gravidez, mas em mulheres em estágio fértil. Também queremos imunizar crianças com 10 anos para baixo porque, dessa forma, conseguiremos criar uma rede de proteção e evitar que o vírus se espalhe futuramente. Precisamos passar ainda por outras etapas, mas nosso objetivo é usá-la em testes clínicos”, conta.

No caso da pesquisa com a vacina criada com DNA replicado, a intenção é aperfeiçoar a fórmula para que ela possa ser usada por gestantes e ter outros efeitos além da proteção contra o zika. “Estamos trabalhando na otimização da imunogenicidade da vacina de mRNA e também gostaríamos de analisar se a vacina pode proteger contra o atraso no desenvolvimento e outros aspectos envolvidos na infecção por zika, como a transmissão sexual do vírus”, adiantou Jagger.

Mães desprotegidas

Mães de crianças com microcefalia causada pelo zika estão desprotegidas no Brasil. É o que mostra um estudo da organização internacional de direitos humanos Human Rights Watch, resultado de entrevistas com 180 pessoas na Paraíba e no Pernambuco, entre mulheres e autoridades da área. As entrevistadas relataram dificuldades em cuidar dos filhos, como o acesso ao atendimento especializado. Ainda de acordo com o trabalho, há risco de uma nova epidemia. Como 35 milhões de brasileiros não têm banheiro em casa e metade da população não possui tratamento de esgoto, dizem os investigadores, o Aedes aegypti, transmissor do vírus, pode se reproduzir e se multiplicar facilmente. Para os pesquisadores, encerrar a situação de alerta foi precipitado. A emergência foi declarada em novembro de 2015 e retirada em maio de 2017.
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